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5 destaques de IA em 2023 e o que esperar para 2024

Por| Editado por Douglas Ciriaco | 31 de Dezembro de 2023 às 10h00

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Reprodução/Freepik
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As ferramentas de IA generativa foram o grande destaque de 2023 no setor de tecnologia, impulsionadas pela revolução provocada na indústria pelo ChatGPT, lançado no final de 2022. Ao longo do ano, as Big Techs e diversas empresas de software e aplicativos correram para lançar suas próprias soluções em inteligência artificial com o objetivo de atender a demanda do público e se manterem relevantes no mercado.

Além do estouro de popularidade do ChatGPT, 2023 foi marcado pelo especialmente pelo lançamento de ferramentas como o Bing Chat e o Copilot da Microsoft, o Bard e o Gemini do Google, além de aplicações de IA pela Meta, que impactaram modelos de negócios e mudaram para sempre a relação do público com a tecnologia.

5 destaques de IA em 2023

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Para relembrar as maiores inovações do setor de IA em 2023, o Canaltech lista abaixo os destaques e as principais discussões em torno dessas ferramentas emergentes.

1. O ano dos chatbots

Os chatbots de IA entraram definitivamente na vida das pessoas em 2023 ao apresentar uma capacidade incrível de responder perguntas e gerar conteúdo através do processamento de linguagem natural. Essas ferramentas, alimentadas por modelos de linguagem de larga escala (LLM), conseguem produzir textos e códigos por um mecanismo preditivo — no qual as palavras são sequenciadas de acordo com a maior probabilidade de estarem associadas dentro de cada tema pesquisado.

O ChatGPT, lançado em 30 de novembro de 2022 pela OpenAI, deu a largada na corrida das empresas de tecnologia pelo desenvolvimento de seus próprios modelos de IA generativa. Desde então, vários concorrentes chegaram ao mercado, com destaque especial para Bard do Google, Bing Chat da Microsoft, Llama da Meta e Claude da Anthropic.

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Os chatbots de IA chamaram a atenção do público devido ao seu potencial para revolucionar diversos aspectos da vida das pessoas, tanto para soluções cotidianas quanto para aplicações profissionais. A capacidade dessas ferramentas de gerar textos e responder perguntas em linguagem natural tem um grande impacto em áreas como a educação e medicina — com a possibilidade de compilar informações para um trabalho escolar ou responder a questionamentos de pacientes, por exemplo.

Ao mesmo tempo, a experiência de uso de IAs generativas revelou pontos sensíveis em relação à veracidade das informações apresentadas e aos casos de "alucinação" da inteligência artificial — quando as IAs geram respostas completamente absurdas — que provocaram debates sobre com elas podem inclusive colocar as pessoas em perigo.

As empresas responsáveis pelos modelos de linguagem começaram a definir sistemas de segurança para impedir que as ferramentas gerem conteúdos danosos, como comentários preconceituosos ou ofensivos, instruções para realizar crimes ou atos terroristas, entre outros temas de risco para a sociedade. No entanto, a discussão sobre a veracidade das respostas permanece.

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Como os modelos são treinados em uma enorme base de dados — que inclui a internet e postagens de redes sociais —, informações incorretas e fake news ainda podem ser incorporadas e reproduzidas pelos chatbots. Por isso, a checagem dos fatos é imperativa, e o público deve ter sempre um posicionamento crítico em relação às respostas fornecidas pelas IAs.

2. IAs para geração de imagens

Não foram apenas os chatbots de IA que ganharam popularidade no ano de 2023. Na esteira de soluções disruptivas como DALL-E, Stable Diffusion e MidJourney, novos modelos para geração de imagem através de comandos de texto foram lançados ao longo do ano.

Entre eles estão o Adobe Firefly aplicado aos produtos Adobe (como Photoshop e Express), o Fotor (que ganhou recursos avançados de edição com IA), o modelo Imagen e seu sucessor Imagen-2 do Google, o Image Creator integrado ao Bing da Microsoft, o estúdio de criação Magic Media no Canva, a ferramenta Imagine da Meta, e até o tradicional app Paint foi atualizado com um campo de prompt de comando para gerar imagens.

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A maioria dessas IAs funciona de maneira similar. Os modelos são treinados a partir de um amplo conjunto de dados, que relaciona textos e exemplos de imagem para aprender a identificar o que são os objetos, estilos e formatos e conseguir interpretar um prompt de comando. Em seguida, há o processo de renderização da imagem, no qual os modelos utilizam em geral um processamento chamado de difusão para aperfeiçoar os resultados — como camadas que ganham formas — com base na descrição.

Essa habilidade de interpretação e associação texto-imagem das IAs permite que qualquer ideia ou conceito se transforme em uma arte em poucos segundos — dando asas à imaginação e à criatividade humana. Assim como os chatbots, as ferramentas de geração de imagem possuem restrições de segurança; neste caso, para impedir a criação de conteúdos que retratam violência ou nudez.

Ao longo de 2023, também foram registradas situações de "alucinação" das IAs geradoras de imagem, com resultados que apresentam deformações da anatomia humana ou com baixa qualidade de renderização. No entanto, a perspectiva é que esses erros serão cada vez mais raros conforme a evolução e o aperfeiçoamento dos modelos.

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3. IA em tudo

Os chatbots e as IAs geradoras de imagem podem ser as ferramentas de inteligência artificial mais conhecidas e acessadas pelo grande público em 2023, mas a tecnologia se fez presente também em várias outras iniciativas. Os mecanismos de busca começaram a se transformar com recursos de IA: o Bing incorporou o recurso de chat com base no modelo GPT-4 da OpenAI, enquanto o Google apresentou a sua experiência de pesquisa generativa através do Search Labs.

Os navegadores da web também integraram soluções de IA generativa, como o Edge da Microsoft com o Bing Chat (depois renomeado Copilot) e o Opera com a Aria. Plataformas de streaming começaram a apresentar recursos de inteligência artificial para melhorar a recomendação de conteúdo e resumir a seção de comentários. Em alguns aplicativos, as IAs já realizam a tradução automática e até a dublagem clonando a voz do idioma original.

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Outros experimentos com multimídia incluem a criação de música e sonoridade de diferentes instrumentos a partir de um simples cantarolar e a geração de vídeos e animações a partir de uma amostra de foto estática. Já os sistemas de navegação e geolocalização foram atualizados para gerar experiências de visualização imersiva nas cidades e rotas traçadas.

Os recursos para criação de ferramentas de IA também se expandiram. Hoje, qualquer pessoa pode ter acesso aos modelos de fundação treinados pelas Big Techs e empresas do setor para aplicar em seus próprios produtos e serviços. Plataformas como o Vertex AI do Google Cloud, o Azure AI Studio da Microsoft e o Amazon Bedrock disponibilizam vários modelos de linguagem de larga escala (LLMs) que atendem a diferentes objetivos e soluções.

Uma amostra da versatilidade e as infinitas possibilidades que podem ser construídas com os modelos de inteligência artificial é o site GPTsdex, que reúne mais de 10 mil "chatGPTs customizados" que podem ser utilizados por qualquer pessoa. A plataforma tem GPTs de grandes empresas — como NVIDIA, Microsoft, Meta e NASA —, além de ferramentas enviadas por pequenos colaboradores.

4. Impacto sobre empregos

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A amplitude de tarefas que as IAs generativas são capazes de realizar já provoca mudanças no mercado de trabalho e a substituição de mão de obra por soluções tecnológicas.

Hoje, o treinamento avançado de modelos de linguagem possibilita que atividades repetitivas, rotineiras e mecanicistas sejam facilmente automatizadas pelas ferramentas de inteligência artificial. Além disso, a habilidade de processamento de dados e linguagens já é capaz de analisar planilhas, resumir documentos, criar petições, comparar diagnósticos e gerar códigos de programação.

Essa evolução das IAs impacta ocupações nas mais diversas áreas: de escritores a copywriters, de publicitários a designers, de advogados a médicos, de programadores a cientistas de dados, de analistas financeiros a contadores – em cada segmento há novas soluções que exigem uma adaptação dos profissionais. 

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Esse contexto provoca discussões sobre como as novas tecnologias podem impactar a economia e a renda das pessoas nos próximos anos, quais atividades poderão ser completamente substituídas, e como deverá ser a formação dos futuros profissionais — especialmente para promover a inclusão social nesse novo cenário tecnológico.

Isso porque, embora a automação e as IAs generativas ameaçam algumas atividades e profissões, elas também abrem portas para novas oportunidades. Habilidades ligadas à criatividade, pensamento crítico, resolução de problemas complexos e interação social poderão ser valorizadas, já que são áreas em que a tecnologia ainda não consegue superar as capacidades humanas, enquanto segmentos relacionados diretamente com o treinamento de modelos deverão ter um aumento de demanda por profissionais especializados.

5. Regulamentação e direitos autorais

Além da questão sobre as atividades humanas que podem ser substituídas pela inteligência artificial, há um amplo debate sobre as implicações de uso das ferramentas de IA no que se refere à regulamentação e direitos autorais. Uma das discussões que dominou o ano de 2023 foi a criação de mecanismos para identificar conteúdos gerados por IA, com o objetivo de combater especialmente os deepfakes de figuras públicas — como a imagem do Papa de casaco.

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Esse debate é importante porque materiais criados por inteligência artificial podem ser utilizados em campanhas de candidatos e políticos e potencializar fake news em períodos de eleição. Há uma preocupação de que as IAs possam facilitar a manipulação dos eleitores, especialmente com a divulgação de imagens polêmicas e difamatórias. Um exemplo recente foi a corrida presidencial na Argentina, na qual circularam imagens geradas por IA que tentavam ferir a reputação dos candidatos.

A necessidade de criar mecanismos de regulamentação das IAs generativas também se estende à proteção dos direitos autorais. Hoje, as ferramentas já são capazes de copiar a voz de um artista e criar uma música inteira com base na sua discografia. Já os traços e estilos visuais de estúdios e pintores podem ser reproduzidos e aplicados na geração de imagem por inteligência artificial com um simples prompt de comando. Mas como fica a remuneração dos artistas que têm suas obras copiadas pelas IAs?

Esse debate também se aplica aos textos gerados pelos chatbots, não apenas sobre a questão de autoria dos conteúdos, mas também sobre os materiais nos quais os modelos são treinados. Afinal, a inteligência artificial precisa ter acesso aos dados para conseguir replicar as informações. Como o treinamento das ferramentas é realizado com os materiais públicos da internet — incluindo sites de notícias e redes sociais — há uma questão de apropriação de conteúdos autorais e patrimoniais para outros fins comerciais.

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Se os modelos de IA substituem cada vez mais atividades humanas, não parece correto que eles possam ter acesso gratuito à produção de um profissional para aprender a sua base de conhecimento, identificar o seu estilo e copiar o seu trabalho. Como podemos notar, ainda há muito a ser debatido para termos de fato ferramentas justas, éticas e inclusivas.

No Brasil, há alguns projetos de lei em discussão que visam a regulamentação dessa tecnologia. O Head de Tecnologia e IA no Viseu Advogados, Paulo Henrique Fernandes, contou ao Canaltech que o PL 21/20 busca estabelecer princípios gerais para o uso da IA, como a proteção aos direitos humanos e a garantia de transparência. Segundo Fernandes, o projeto é um marco no sentido de criar um ambiente de confiança para o desenvolvimento tecnológico, sem perder de vista a ética e a segurança jurídica.

O especialista explicou ainda a proposta de outros dois projetos de lei: “o PL 2.338/2023 tem foco nos sistemas de alto risco e é uma resposta à necessidade de regulamentar aplicações específicas, como diagnósticos médicos e veículos autônomos, com salvaguardas rigorosas para proteger o público. Já o PL 759/23 direciona-se para a criação de uma Política Nacional de Inteligência Artificial, com enfoque na promoção da inovação e na cooperação entre setores públicos e privados”.

O que esperar para 2024

Se os impactos das ferramentas de IA generativa mudaram a sociedade e o mercado de trabalho em 2023, a evolução contínua do setor deve modificar a forma de nos relacionarmos com a tecnologia em 2024.

IA no celular

Para o próximo ano é esperada a ascensão dos modelos de linguagem de larga escala (LLMs) instalados diretamente nos celulares, tablets e computadores, o que deverá revolucionar a relação de interação com os aparelhos, além de prometer maior privacidade e experiências personalizadas.

Mais modelos multimodais

Outra tendência esperada para 2024 é o crescimento das aplicações com modelos multimodais — que se diferenciam pelo treinamento desde a base em um sistema combinado de dados, textos e mídias. Essa tecnologia permite que as IAs interpretem e interajam com o mundo de maneira similar às capacidades sensoriais e cognitivas do ser humano.

AGI, a superinteligência artificial

Os avanços no setor também devem ampliar a discussão em torno da chamada superinteligência artificial, que seria capaz de superar a capacidade cognitiva humana em praticamente todos os aspectos. Com o desenvolvimento de modelos mais potentes, a necessidade de governança responsável e as considerações éticas se tornam temas cada vez mais cruciais.

Regulamentação

O debate sobre mecanismos de regulamentação das IAs deve continuar em 2024 à medida que as ferramentas se integram mais à sociedade. Segundo o Head de Tecnologia e IA no Viseu Advogados, Paulo Henrique Fernandes, "o desafio será encontrar um equilíbrio entre promover a inovação tecnológica e garantir a ética e segurança dos cidadãos. O debate no Brasil sobre a flexibilidade da legislação em face da dinâmica da IA é um exemplo desse esforço".

O especialista destaca ainda uma tendência de maior cooperação internacional na regulamentação da IA: "com o avanço dos projetos de lei no Brasil e a implementação da regulamentação na UE, espera-se um ambiente mais claro, seguro e colaborativo para a exploração e desenvolvimento da IA", contou Fernandes com exclusividade ao Canaltech.

Mais aprendizagem

Por fim, as novas tecnologias de IA vão exigir novos ciclos de aprendizagem e adaptação, tanto em nível individual como enquanto sociedade. Isso inclui a capacitação da força de trabalho e a atualização de currículos educacionais para promover uma melhor compreensão sobre a aplicação ética da IA e as práticas de uso justo.

Afinal, o futuro da inteligência artificial não está relacionado apenas à evolução tecnológica. São as nossas ações, escolhas e práticas que fazemos coletivamente como sociedade que vão definir a história da IA, e é vital a ampla compreensão sobre essas ferramentas para o uso consciente e bem informado.