Carro, pizza e até lagartixas: coisas inusitadas que já foram enviadas ao espaço

Por Felipe Ribeiro | 23 de Fevereiro de 2020 às 19h00
Reprodução: Tesla

*Com colaboração de Patricia Gnipper

Para chegarmos ao estágio atual da exploração espacial, com uma imensidão de satélites em órbita, pousos na Lua e estações orbitais acomodando astronautas, além de diversas naves, sondas e robôs estudando outros mundos presencialmente, muito "chão" foi percorrido desde os estágios iniciais deste setor, entre as décadas de 1940 e 1960.

Antes de enviar as primeiras pessoas ao espaço, foi preciso fazer lançamentos rudimentares com animais, com tais testes indicando os caminhos necessários para levar humanos em segurança para fora da Terra — algo feito por países como União Soviética e Estados Unidos durante a Corrida Espacial. Infelizmente, alguns sacrifícios acabaram acontecendo, como da famosa cadela Laika, por exemplo.

As aventuras espaciais evoluíram a passos largos, chegando a um ponto em que vemos agências estatais e, mais recentemente, até mesmo empresas privadas lançando todo tipo de coisa para fora da Terra "só para ver qual é que é" — além de, claro, lançamentos que são curiosos, mas que têm finalidades científicas.

Você já parou para imaginar todo tipo de item inusitado que já foi parar no espaço? Veja abaixo uma lista com algumas dessas coisas diferentes que já foram lançadas para a órbita da Terra — e além!

Muitos animais

Como já citamos acima, animais foram usados ​​em testes de voo espacial antes que humanos fossem lançados pela primeira vez e, infelizmente, alguns deles acabaram dando a vida em nome do progresso científico e tecnológico. Então, é impossível não citar esses pequenos heróis, ainda que muitos outros tenham sobrevivido depois dessas aventuras.

Os primeiros animais enviados ao espaço foram pequenas moscas "caseiras" que estavam a bordo do foguete V-2m, lançado pelos EUA em 20 de fevereiro de 1947, na base de White Sands Missile Range, no Novo México. Os insetos, que sobreviveram ao experimento, chegaram a alcançar mais de 100 quilômetros além da nossa atmosfera. Depois de atingir essa altura, a cápsula Blossom foi ejetada e aterrissou com sucesso na Terra. O objetivo do experimento foi explorar os efeitos da exposição à radiação em grandes altitudes.

Depois dessas moscas, a saga dos bichos no espaço seguiu com Albert II, que se tornou o primeiro macaco no espaço em 14 de junho de 1949. Sim, ele é o "segundo" porque, na primeira tentativa, com Albert I, o foguete não ultrapassou os 60 mil metros de altitude. Já o segundo conseguiu chegar a 134 mil metros. Ambos não sobreviveram. Os primeiros primatas a sobreviverem no espaço foram Able e Maker, em 1959.

Ainda na década de 1950, os Estados Unidos lançaram inúmeros ratos para o espaço, sendo o primeiro em 1950. Os americanos voltaram a enviar os ratinhos em outras oportunidades, como com as Apollo 16 e 17, que foram à superfície da Lua.

Notícia de jornal comemorando que Félicette

Já falamos de macacos, moscas e ratos, mas tem mais. O primeiro gato (e único a sobreviver) a ser enviado ao espaço foi a gatinha Félicette. Em 24 outubro de 1963, Félicette subiu 210 quilômetros acima da Terra no foguete francês Véronique AG1. Ela voltou quinze minutos depois e, logo após seu pouso, cientistas franceses estudaram as ondas cerebrais da bichana para ver se elas tinham sido alteradas na viagem.

Já o primeiro animal a realizar um voo orbital foi a Laika, uma cadela soviética que entrou para a história como o primeiro animal a voar ao redor da Terra. Ela foi levada das ruas de Moscou e foi lançada a bordo do Sputnik 2 em 3 de novembro de 1957. Infelizmente, Laika não sobreviveu, morrendo entre cinco e sete horas após o lançamento. A causa da morte só foi revelada depois de 45 anos, em 2002: estresse causado pelo superaquecimento da cabine.

A cadela Laika, que acabou morrendo no espaço

Mas, antes disso, a União Soviética já havia contado com cachorros para testes de voos sub-orbitais, continuando esses experimentos após o episódio de Laika. Em 1951, por exemplo, Dezik e Tsigan foram os primeiros cães a realizar um voo sub-orbital, chegando a uma altitude de 100 km. Enquanto Tsygan foi adotado por um físico soviético, Dezik foi recrutado para um outro voo no mesmo ano, ao lado de uma cadela chamada Lisa, mas ambos não sobreviveram. A URSS lançou pelo menos 57 cachorros ao espaço, sendo que a maioria sobreviveu aos testes; os poucos que morreram foram vítimas de infelizes falhas técnicas.

O chimpanzé Ham, que sobreviveu (Foto: NASA/Marshall Space Flight Center)

O chimpanzé Ham é outro personagem popular nos voos espaciais com animais, lançado pelos Estados Unidos em 1961, três meses antes de Alan Shepard se tornar o primeiro norte-americano a chegar ao espaço (na missão Mercury-Redstone 3). Ham foi treinado para executar tarefas durante o voo espacial e se tornou o primeiro animal a interagir com uma espaçonave. Diferentemente do destino de Laika, o chimpanzé não faleceu durante sua jornada espacial — ele viveu 17 anos no Zoológico Nacional, em Washington, D.C, falecendo de causas naturais em 1983, aos 27 anos.

Outro caso conhecido aconteceu em 2016, com o satélite russo Foton-M4, que fora lançado ao espaço com algumas lagartixas para estudar os efeitos da microgravidade sobre o organismo e o comportamento sexual dos espécimes — quatro fêmeas e um macho. Além disso, no mesmo compartimento havia cogumelos e drosófilas (espécie de pequenas moscas), que sobreviveram e conseguiram se reproduzir fora da Terra.

Também ficaram famosos casos como os envios de peixes e aranhas, em 1975, que estavam a bordo da Skylab 3, além de porquinhos da índia enviados pela China em 1990, bem como alguns sapos também em 1990, mas pelo Japão.

Tardígrados, ou ursos d'água, também foram enviados ao espaço em mais de uma ocasião

Recentemente, houve uma tentativa de se levar tardígrados à Lua, também conhecidos como ursos d'água, considerados os animais mais resistentes da Terra. No dia 11 de abril do ano passado, a Beresheet, da empresa israelense SpaceIL, seria a primeira espaçonave privada a pousar em nosso satélite natural, mas, pouco antes do pouso, o controle da missão perdeu contato com a nave e ela caiu no solo lunar devido a uma falha técnica no motor. A expectativa é que os espécimes que estavam nessa nave tenham sobrevivido, mas ainda não se sabe exatamente o que aconteceu com eles.

Mas essa não foi a primeira tentativa de realizar experimentos com os pequenos tardígrados no espaço. Em 2007, a Agência Espacial Europeia (ESA) lançou um satélite com uma carga de tardígrados em forma de tonel, e os expôs ao vácuo do espaço e à radiação cósmica. Dez dias depois, os ursos d'água foram trazidos de volta à Terra e reidratados — com muitos deles ainda vivos. Eles são os primeiros animais registrados que resistiram à completa exposição ao espaço, e por isso a expectativa de que tenham sobrevivido na Lua é tão grande.

Instrumentos musicais

Imagem: National and Air Space Museum

Depois que os humanos fizeram suas primeiras jornadas no espaço, não demorou muito para a música ir junto; afinal, existe a trilha sonora perfeita para tudo. A primeira vez foi uma brincadeira com tema de Natal a bordo da sonda Gemini 6A, da NASA, que foi conduzida pelos astronautas Walter M. Schirra Jr. e Thomas P. Stafford. "Temos um objeto, parecido com um satélite, indo de norte a sul, provavelmente em órbita polar. Parece que ele poderá voltar a entrar em breve. Eu vejo um módulo de comando e oito módulos menores na frente. O piloto do módulo de comando está vestindo um terno vermelho", relatou Schirra em 16 de dezembro de 1965.

Após descrever isso para as equipes no local, Schirra começou a tocar Jingle Bells em sua pequena gaita Hohner Little Lady de quatro buracos e oito notas, com Stafford o acompanhando com cinco pequenos sinos.

Essa brincadeira de Schirra e Stafford foi a primeira gravação com instrumentos musicais tocados no espaço. A gaita e os sinos estão agora em exibição no Museu Nacional do Ar e Espaço Smithsonian, em Washington, D.C.

Hoje em dia, na ISS (Estação Espacial Internacional), astronautas têm instrumentos musicais à disposição, o que certamente torna a estadia por lá mais divertida. Em 2013, por exemplo, o astronauta canadense Chris Hadfield gravou um videoclipe diretamente da ISS, dias antes de encerrar sua missão no espaço. A música escolhida foi o clássico Space Oddity, de David Bowie.

Mais recentemente, em 2019, o astronauta Luca Parmitano "atacou de DJ" diretamente do espaço, também na ISS. Sua apresentação durou pouco mais de 10 minutos e foi transmitida em um cruzeiro musical em Ibiza como a atração de abertura da festa daquela noite. Apesar de não ter usado um instrumento musical propriamente dito, vale a menção da história, pois ele usou um tablet equipado com softwares de mixagem e, assim, se tornou o primeiro DJ no espaço.

A lista de instrumentos musicais que já foram enviados ao espaço é completada por uma gaita de fole, uma guitarra, um saxofone, uma flauta e um didjeridu, que é uma espécie de flauta australiana.

Discos de ouro das sondas Voyager

O famoso astrônomo Carl Sagan foi importantíssimo para as operações espaciais do século passado. Sagan sustentava que, se essas naves espaciais fossem apanhadas ao longo do caminho por uma forma de vida extraterrestre inteligente, como eles saberiam que elas vieram da Terra? Como descobririam que aqui vivem seres tecnologicamente avançados, ansiosos por um contato?

Desse pequeno devaneio do cientista surgiu a ideia dos famosos Voyager Golden Records. As Voyager 1 e 2, da NASA, foram lançadas em 1977 com apenas 16 dias de diferença e nos proporcionaram aprendizados valiosos e muitas fotos ​​do nosso Sistema Solar — incluindo a icônica Pálido Ponto Azul, que mostra a Terra vista a 6 bilhões de km. Antes do lançamento, Sagan e seu comitê criaram e ajustaram um disco de ouro de 30 cm para cada uma das sondas, com instruções sobre como tocá-los.

Imagem: NASA

Os registros incluem 115 imagens em formato analógico, cumprimentos falados em 55 idiomas, uma saudação do então presidente dos Estados Unidos, Jimmy Carter, sons do planeta como vulcões e mares, e 90 minutos de músicas de diversos estilos e épocas, com faixas que incluíam artistas como Chuck Berry, Mozart, Bach e Beethoven.

Ainda funcionais, as Voyager já alcançaram o espaço interestelar, e continuam mandando dados à NASA (ainda que suas câmeras tenham sido desligadas em 1990 para economizar energia e, assim, continuarem coletando informações científicas sobre os confins do Sistema Solar).

Restos mortais

Aqui no Brasil — e em muitos outros países, claro — o descarte das cinzas de pessoas cremadas é feito de diversas maneiras. As cerimônias geralmente são feitas em praias, parques, montanhas, e por aí vai. Mas, e se você ou qualquer outra pessoa tivesse o desejo de ter suas cinzas lançadas ao espaço?

Imagem: NASA

A primeira vez que isso aconteceu foi em 1992, com Gene Roddenberry, criador da franquia Star Trek. Em seu testamento, Roddenberry solicitou que seus restos mortais fossem lançados ao espaço, e assim aconteceu: suas cinzas foram lançadas à orbita da Terra por meio do ônibus espacial Columbia, que estava indo para a missão STS-52.

Outro exemplo famoso é Clyde Tombaugh, o astrônomo americano que, em 1930, descobriu Plutão. As cinzas de Tombaugh estão a bordo da sonda New Horizons, da NASA, que foi lançada para estudar o planeta anão em 2006 e que chegou ao seu alvo em 14 de julho de 2015. Hoje, a New Horizons segue seu caminho pelo cinturão de Kuiper, estudando objetos distantes que são remanescentes da formação do Sistema Solar.

Sabre de luz, pizza e bonecos...

Star Wars tem uma legião de fãs pelo mundo todo e certamente inspirou muitas pessoas a seguirem o caminho do espaço, de um jeito ou de outro. Em 2007, no aniversário de 30 anos da franquia, uma homenagem muito especial — e espacial — foi feita: o sabre de luz que Luke Skywalker (interpretado pelo ator Mark Hammill) empunhava no filme de 1983, Episódio VI: O Retorno de Jedi, foi levado "de volta" ao espaço.

Imagem: NASA

Em 2001, a Pizza Hut se tornou a primeira empresa a fazer uma entrega ao espaço quando fecharam um acordo com a agência espacial russa, a Roscosmos, para que uma pizza fosse entregue à Estação Espacial Internacional. O cosmonauta Yuri Usachov foi o sortudo que pôde desfrutar de uma bela refeição terrestre, que custou perto de US$ 1 milhão — aquela famosa "taxa de entrega", como conhecemos aqui.

Para que essa entrega fosse bem-sucedida, a pizza teve que passar por alguns ajustes. Ao invés de calabresa, foi usado salame, pois a linguiça não resistiu ao processo de teste de 60 dias. Além disso, a equipe da Pizza Hut colocou mais sal e tempero no alimento para formigar as papilas gustativas, que se esgotam na microgravidade.

Imagem: Pizza Hut

Além desse envio em caráter oficial, entusiastas e "loucos" mundo afora já mandaram alimentos e bebidas ao espaço, como hambúrgueres e cerveja. Claro, sem o auxílio dos equipamentos ultrapotentes e modernos dos departamentos espaciais.

Outro lançamento inusitado aconteceu em 5 de agosto de 2011, com a sonda espacial Juno, da NASA, que tem como missão estudar o gigante gasoso e maior planeta do Sistema Solar, Júpiter, para trazer mais informações sobre sua atmosfera, composição, temperatura, velocidade de movimentação de nuvens, campo magnético, e outras atividades. Aproveitando a ocasião, a Lego criou um trio de bonequinhos para passear nessa missão. São eles: o próprio deus romano Júpiter, que dá nome ao planeta; Juno, esposa de Júpiter e que nomeia a sonda; e Galileu Galilei, cientista que descobriu a existência de suas quatro grandes luas — Io, Ganimedes, Europa e Calisto —, em 1610. Elas levam o apelido de "Luas de Galileu" por conta disso.

O trio de bonecos foi colocado na espaçonave Juno como parte do projeto Bricks in Space, programa de divulgação entre o Lego Group e a NASA para inspirar o interesse das crianças por assuntos relacionados ao espaço.

Imagem: NASA/ LEGO

A Lego também esteve presente em outros envios, como da campanha LEGO Man in Space, em que a empresa mandou uma miniatura do Superman a uma altura de 25 mil metros. Um jovem alemão fã de espaço — e de Lego — fez algo parecido também em 2011, ao lançar um ônibus espacial feito com as pecinhas de Lego a uma altura de 35 mil metros.

E não ficou só por aí. Em 2019, a Nickelodeon, junto à SpaceX e a NASA, decidiram enviar à ISS uma amostra de slime, aquela gosma que faz muito sucesso com a molecada (e bem parecida com a "geleca" dos anos 1990). Também foi enviada uma bola de futebol da Adidas. A ideia era descobrir como esses objetos se comportariam em um ambiente de microgravidade, e a ISS é o local ideal para esse tipo de experimento "diferentão".

Tesla Roadster e Starman

Em 6 de fevereiro de 2018, a SpaceX fez o primeiro lançamento de seu até então novo foguete, o Falcon Heavy, de maneira memorável. A empresa adicionou como carga no voo de teste um carro Tesla Roadster vermelho, com um traje espacial completo apelidado de Starman (em homenagem a David Bowie) fazendo as vezes de passageiro.

Imagem: SpaceX

O Tesla Roadster ainda está em órbita e deve se chocar com Vênus ou com a Terra em algumas dezenas de milhares de anos — se "sobreviver" até lá, já que, depois de apenas um ano viajando pelo espaço, o veículo e seu "motorista" já devem estar praticamente destruídos por conta dos efeitos danosos da radiação solar e dos raios cósmicos, que gradualmente "rasgam" o interior do carro e do traje espacial.

*Com informações de Space.com

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