Plutão foi descoberto há 90 anos — e essa mulher esquecida teve papel importante

Por Daniele Cavalcante | 18 de Fevereiro de 2020 às 20h40

Nesta terça-feira (18), a comunidade científica e entusiastas da astronomia comemoram os 90 anos de descoberta de Plutão. Foi neste dia, em 1930, que o astrônomo estadunidense Clyde Tombaugh conseguiu reunir os dados necessários para provar a existência de um planeta além de Netuno. Acontece que isso não teria sido possível sem os cálculos de uma mulher que é pouco lembrada nessa história.

Elizabeth Williams trabalhou para o astrônomo Percival Lowell, o primeiro a teorizar sobre a existência de um nono planeta no Sistema Solar. Ele morreu antes de Tombaugh finalmente avistar Plutão, mas os dois se basearam nos cálculos feitos por Williams para fazer essa descoberta. Infelizmente, não há muitas informações sobre ela - embora não seja difícil encontrar muito sobre Lowell e Tombaugh.

Ela trabalhava como um "computador humano" - nome que as pessoas boas em matemática recebiam na época por fazer cálculos à mão. E pouco se falava sobre pessoas como ela, até porque esses "computadores humanos" eram, em sua maioria, mulheres, que não tinham tanta visibilidade quanto seus colegas do gênero masculino. Williams nasceu em 8 de fevereiro de 1879 em Putnam, Connecticut, e se formou em física no MIT em 1903, sendo uma das primeiras mulheres graduadas, fazendo parte do grupo de mulheres que ficou conhecido como "as computadoras".

Elizabeth Williams (Foto: Lowell Observatory)

Foi então contratada por Percival Lowell em 1905 para trabalhar em um escritório em Boston, fazendo os cálculos matemáticos necessários para determinar a localização de um certo planeta que, de acordo com Lowell, afetou as órbitas de Netuno e Urano. "Percival Lowell notou pela primeira vez que as órbitas de Netuno e Urano não eram exatamente o que deveriam ser", explicou Catherine Clark, aluna de doutorado em astronomia no Observatório Lowell.

Assim, Lowell percebeu que essas diferenças significavam que o mapa do Sistema Solar da época estava incompleto. Deveria haver outro planeta influenciando as órbitas dos mundos mais distantes. No entanto, como esse mundo escondido ainda não havia sido encontrado, era necessário calcular sua possível órbita para saber onde procurar. E isso exigia muita matemática.

Em 1915, Williams já era a principal "computadora" de Lowell. Seus cálculos levaram a previsões para a localização do planeta desconhecido, mas Lowell morreu em 1916 e o projeto foi descontinuado. No final da década de 1920, Clyde Tombaugh foi contratado para retomar e liderar a pesquisa. Ele usou as previsões já calculadas para localizar o novo planeta, chamado de Plutão em 1930.

Mas a história de Williams seguiu um rumo diferente. Em 1922, ela se casou com outro astrônomo, George Hall Hamilton, e foi demitida do Observatório Lowell porque era considerado “inapropriado” empregar uma mulher casada. O casal foi então trabalhar em um observatório na Jamaica, administrado pelo Harvard College Obervatory, até 1935, ano em que Hamilton faleceu. Williams se mudou para New Hampshire e posteriormente morreu na pobreza, sem ver a descoberta de Plutão - e sem ter o devido reconhecimento quanto à sua importante participação.

O apagamento do trabalho de Williams é um lembrete de como as mulheres são esquecidas pela história da ciência, embora tenham realizado trabalhos fantásticos. Williams é exemplo de uma habilidade rara - além de grande matemática, era ambidestra e escrevia com as duas mãos ao mesmo tempo.

Para recuperar a memória e destacar o papel de mulheres em uma época em que a ciência não contava com supercomputadores para fazer o trabalho mais difícil, Catherine Clark fez uma apresentação sobre Elizabeth Williams e seu trabalho durante a 235ª reunião da Sociedade Astronômica Americana em Honolulu, no mês passado. E, hoje, no aniversário do descobrimento de Plutão - agora classificado como planeta anão -, nada mais justo que relembrar a história de quem mostrou aos astrônomos onde eles deveriam apontar os telescópios para encontrar este pequeno mundo, que nos intriga até hoje.

Fonte: Space.com

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