Corrida Espacial Lunar | Entenda toda a jogada envolvendo empresas privadas

Por Patrícia Gnipper | 27 de Fevereiro de 2019 às 15h00
ESA

Na Corrida Espacial do século passado, Estados Unidos e União Soviética foram os protagonistas para ver quem chegaria ao espaço primeiro. Ainda que a URSS tenha conquistado o primeiro lugar no envio do primeiro satélite à órbita da Terra e do primeiro homem a orbitar nosso planeta em uma nave, os norte-americanos foram os vencedores no envio de seres humanos à superfície da Lua. Agora, uma nova Corrida Espacial lunar está em andamento envolvendo, novamente, os Estados Unidos e a Rússia, mas também com a participação da ESA (a agência espacial europeia) e da China. Contudo, empresas privadas também estão dando início a uma corrida espacial lunar, com a israelense SpaceIL saindo à frente.

A empresa lançou, na semana passada, a nave Beresheet rumo à Lua, sendo esta a primeira missão lunar com investimentos privados que pousará uma nave na superfície do satélite natural da Terra. Dentro de algumas semanas acontecerá o pouso histórico, e isso marca, de fato, o início da Corrida Espacial lunar na iniciativa privada.

Conceito da nave Beresheet, enviada à Lua em fevereiro (Imagem: SpaceIL)

Sendo assim, uma nova era da exploração espacial está realmente sendo iniciada, e empresas privadas já vêm colaborando com agências espaciais estatais nesse sentido, ainda que de maneira tímida. Um exemplo são os lançamentos de cargas da NASA feitos por meio de foguetes Falcon 9, da SpaceX, empresa que também começará a levar astronautas estadunidenses à Estação Espacial Internacional no ano que vem pelo Commercial Crew Program. O primeiro voo de teste da nave Crew Dragon, que fará esse transporte, está marcado para o dia 2 de março — outra empresa que está nesse programa comercial da NASA é a Boeing, que fará o primeiro teste com sua nave Starliner em abril.

Voltando à SpaceIL e sua Beresheet, o projeto levantou US$ 100 milhões para viabilizar a missão, grande parte desse dinheiro vindo de doações filantrópicas. A nave chegará a seu destino, a planície Mare Serenitatis, em abril e, lá, estudará a presença do magnetismo em rochas lunares, fenômeno que é intrigante pelo fato de que não há campo magnético global em nosso satélite natural.

Contudo, vale ressaltar que a missão ainda não é totalmente privada, já que envolveu parceiros governamentais. De qualquer maneira, a empreitada serve como uma demonstração simbólica de que as empresas espaciais privadas já são capazes de levar naves para outros mundos sem depender exclusivamente das agências espaciais estatais, veteranas nessa exploração.

O sucesso da missão israelense será um marco importante, até por conta de seu módulo de aterrissagem, que conta com uma tecnologia de "pouso suave" e, de repente, pode abrir as portas para um novo universo em que empresas privadas podem vender umas às outras, ou até mesmo às agências espaciais ligadas a seus governos, naves que fariam serviços de entrega à Lua, como se fossem um "Uber espacial". Dessa maneira, todo o desenvolvimento (e investimentos) para a criação de naves do tipo ficaria a cargo das empresas privadas, com as agências estatais apenas contratando seus serviços de transporte para realizar suas missões e, assim, direcionar mais verba para atividades científicas. E algo similar já acontece com lançamentos de cargas à órbita da Terra, com a SpaceX "alugando" seu Falcon 9 tanto para outras empresas privadas, quanto para missões da NASA e da Força Aérea dos Estados Unidos.

A Google tem um "dedo" nessa história

Em 2007, a Google lançou o Lunar X Prize, abrindo uma competição entre iniciativas privadas com o prêmio de US$ 30 milhões para quem conseguisse não somente pousar uma nave na superfície da Lua, como também percorrer parte do terreno com um rover e transmitir tudo em imagens comprovando seu feito. Dezenas de equipes participaram inicialmente, com o prazo final sendo marcado para o ano de 2012. Contudo, o prazo foi adiado até o final de 2017 já que ainda não havia nenhum vencedor, precisando postergar mais uma vez esse prazo para março de 2018 e, em abril daquele ano, a empresa decidiu reabrir a competição, ainda que, desta vez, sem o prêmio em dinheiro.

Só que, mais uma vez, nenhuma empresa participante conseguiu enviar suas naves em tempo. No entanto, algumas não se contentaram com a aparente derrota: uma delas é a japonesa ispace, que segue firme e forte com seus planos de enviar uma sonda orbital e um robô à superfície lunar, construir com robôs uma base fixa na Lua, e também testar uma bateria de energia solar em nosso satélite natural.

Conceito de rover lunar da japonesa ispace (Imagem: ispace)

Quem também participou do Lunar X Prize da Google foi a PTScientists, que hoje é parceira da agência estatal ESA e está junto à também privada ArianeGroup em uma missão europeia para minerar o solo lunar. A ideia é lançar a missão antes de 2025 para avaliar as possibilidades de se extrair água e oxigênio do regolito lunar. A parceria público-privada fornecerá serviços para toda a missão, desde o planejamento científico e o desenvolvimento de naves, robôs e foguetes, até a criação de novos softwares e sistemas de comunicação entre Terra e Lua.

E outra empresa que participou do Lunar X Prize da Google é justamente a israelense SpaceIL, a primeira a lançar, de fato, uma missão privada rumo à Lua com a nave Beresheet. Outras cinco empresas (pelo menos), que participaram da competição, estavam trabalhando em projetos para lançar missões à Lua até o final de 2021, e de repente em breve veremos outras iniciativas com fundos privados repetindo o feito da israelense SpaceIL, também competindo com os planos da japonesa ispace.

O papel da NASA no sucesso de empresas privadas na Lua

A agência espacial dos Estados Unidos também tem seu papel nessa nova Corrida Espacial lunar envolvendo empresas privadas. Com o melhor orçamento já recebido do Governo na última década, a agência está pedindo à comunidade aeroespacial dos EUA que crie projetos para naves capazes de transportar astronautas à Lua e deixá-los na superfície. Esses novos veículos serão testados em 2024, já que a NASA pretende levar pessoas de volta à superfície lunar em 2028 — e desta vez, "para ficar", de acordo com Jim Bridenstine, administrador da agência.

Em março, a agência fará um pedido formal às empresas privadas que já foram selecionadas para que criem tais projetos, com os contratos sendo assinados provavelmente entre maio e julho deste ano. Além disso, a NASA está levando adiante o Commercial Lunar Payload Services (CLPS), outro programa comercial envolvendo empresas privadas, mas, neste caso, para o transporte de plataformas robóticas equipadas com cargas científicas rumo à Lua. Tais aterrissadores autônomos serão desenvolvidos por nove empresas já selecionadas, que competirão entre si na criação dos melhores projetos. Entre as cargas científicas em questão, estão coisas como ferramentas para procurar gelo e água na superfície lunar, preparando o terreno para o usufruto de futuros exploradores humanos — lembrando que a NASA quer voltar presencialmente à Lua em 2028 e estabelecer uma presença fixa por lá, com planos de construir uma base fixa na lua em parceria com a Roscosmos (sim, deixando um pouco de lado a antiga rivalidade dos EUA com a Rússia no que diz respeito à exploração do espaço).

Sendo assim, o CLPS é vital para o futuro da exploração lunar, e a NASA quer que que o programa seja iniciado, de fato, o quanto antes, esperando (talvez com um toque de otimismo) que a empresa vitoriosa desta competição já comece a levar cargas para lá até o final de 2019. A agência pode, ainda, escolher outras empresas participantes que se destacarem para novos envios.

Outro papel importante da NASA na nova Corrida Espacial lunar envolvendo empresas privadas é a construção da Lunar Gateway, que será uma estação espacial na órbita da Lua, servindo como habitat para astronautas e também como um "pit stop" de viagens espaciais. E, para isso, a agência precisará de uma série de novas naves que, com seu orçamento limitado vindo do governo, acabariam demorando muito mais para saírem do papel se as empresas privadas não estivessem na jogada. Essas naves precisam ser "multiuso", sendo capazes de viajar da Terra à estação lunar, da estação para a órbita lunar inferior, desta órbita para a superfície, da superfície para a estação, e da estação para a Terra.

Conceito de nave de aterrissagem da Lockheed Martin (Imagem: Lockheed Martin)

E não podemos deixar de falar na CNSA (a agência espacial da China), que também tem seu "toque" nessa nova Corrida Espacial envolvendo empresas privadas em missões lunares. A agência também tem seus projetos envolvendo a Lua, incluindo a atual missão Chang'e 4 que está explorando o lado afastado da Lua, com planos ambiciosos de construir uma base fixa por lá e garantir a presença dos chineses nesse novo momento da exploração espacial. E, para isso, o programa espacial chinês está incentivando a formação de pequenas empresas privadas igualmente chinesas para desafiar as empresas privadas dos Estados Unidos na construção de novas gerações de naves e foguetes. Startups cujos nomes ainda não foram revelados vêm recebendo financiamento de capitalistas de risco e investidores variados, e também estão trabalhando em parceria com cientistas da agência espacial asiática.

Sendo assim, com tantas empresas privadas na jogada, seja de maneira independente ou em parceria com agências espaciais estatais, como a NASA, a ESA e a chinesa CNSA, é fato que a atual Corrida Espacial lunar tem vários protagonistas, e é possível que o desenrolar dessa história seja ainda mais emocionante do que o que aconteceu durante a Guerra Fria entre EUA e URSS.

Com informações da Scientific American

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