Desmistificando a teoria conspiratória sobre a farsa do pouso do Homem na Lua

Por Patrícia Gnipper | 12 de Dezembro de 2018 às 15h27
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Recentemente, o diretor da Roscosmos (a agência espacial russa), Dmitry Rogozin, disse que a Rússia iria investigar se a NASA realmente levou humanos à Lua nas décadas de 1960 e 1970. Ainda que o comentário aparentemente tenha sido feito em tom de brincadeira, a fala teve peso, pois o pouso da humanidade na Lua ainda é um dos assuntos constantemente debatidos quando a pauta são teorias conspiratórias relacionadas à ciência.

Para piorar, nesta semana, o armador do Golden State Warriors, Stephen Curry, questionou a veracidade da ida de humanos ao nosso satélite natural durante entrevista para um podcast. Pode ser que Curry estivesse apenas brincando, bem como pode ter sido o caso do diretor da agência espacial da Rússia, mas basta ler comentários em qualquer notícia sobre feitos da NASA para perceber que muita gente duvida que a agência espacial estadunidense realmente conseguiu levar astronautas à Lua tantas décadas atrás — e argumentos aparentemente bem embasados reforçam esse mito na comunidade da internet.

Então, preparamos esta matéria trazendo alguns dos questionamentos mais populares entre quem acha que o pouso do homem na Lua não passou de uma farsa muito bem elaborada pela NASA, logo em seguida mostrando explicações e até mesmo provas concretas de que a humanidade visitou, sim, o satélite natural da Terra, e estamos prontos para novas jornadas, contando com tecnologias avançadas dos tempos atuais, que nos proporcionarão ainda mais descobertas.

O astronauta Buzz Aldrin, autor da primeira selfie tirada no espaço — no caso, na Lua (Foto: NASA)

"As amostras de rochas lunares são falsas"

Quando os astronautas das missões Apollo estiveram na Lua, eles colheram amostras do solo e rochas lunares, com essas amostras e rochas sendo claramente muito diferentes do que podemos encontrar aqui na Terra. Ao estudar a composição das amostras, cientistas determinaram que as rochas lunares tinham mais ou menos 4,5 bilhões de anos de idade — algo 200 milhões de anos mais antigo do que as rochas mais antigas encontradas hoje em dia em nosso planeta.

Análises e experimentos repetidamente mostram que esses materiais geológicos que a NASA apresentou como sendo amostras da superfície da Lua simplesmente não poderiam ter sido coletados na Terra. Prova disso é que as rochas lunares são quase que completamente vazias de elementos voláteis (compostos com baixo ponto de ebulição, como nitrogênio, dióxido de carbono e água, por exemplo), bem como de materiais hidratados. E esse tipo de rocha, com essas características, simplesmente não existe na Terra moderna.

Ainda, em resposta à declaração do jogador Stephen Curry, a NASA disse o seguinte: "Temos centenas de quilos de rochas lunares armazenadas em nosso laboratório no Johnson Space Center, em Houston, além do controle da missão Apollo. Gostaríamos que o Sr. Curry nos fizesse uma visita. Durante sua visita, ele pode ver em primeira mão o que fizemos há 50 anos, bem como o que estamos fazendo agora para voltar à Lua nos próximos anos, só que desta vez, para ficar".

Amostra de rocha lunar que faz parte do acervo da NASA (Foto: Arizona State University, Tom Story)

"A NASA forjou as fotos dos locais de pouso na Lua"

As alunissagens (nome dado aos pousos na Lua) deixaram marcas na superfície. E, ainda hoje, qualquer um de nós pode conferir fotos que mostram essas marcas — e não estamos falando de fotos tiradas pelos astronautas das missões Apollo, caso você acredite que aquelas imagens também tenham sido forjadas.

Em 2011, a NASA publicou novas imagens da superfície lunar coletadas pela sonda Lunar Reconnaissance Orbiter (LRO) — que está orbitando nosso satélite natural desde 2009 —, e nessas imagens pudemos ver nitidamente os pontos de alunissagem das naves das Apollo 12, 14 e 17, bem como os caminhos que os astronautas traçaram na superfície enquanto exploravam o terreno. No ano seguinte, a NASA publicou outro lote de imagens mostrando as marcas deixadas pela missão Apollo 11.

No vídeo abaixo (em inglês), você pode conferir o geólogo Dr. Noah Petro mostrando (e explicando) as marcas deixadas pelas missões Apollo na Lua, com as imagens registradas pela LRO.

Mas aí você pode dizer que as fotos, liberadas pela própria NASA, seriam fruto montagens de computador. Bom, se apenas a NASA fosse capaz de observar a superfície da Lua, o argumento até poderia ser válido, mas lembre-se que existem outras agências espaciais ao redor do mundo, além de astrônomos independentes e amadores com acesso a telescópios poderosos. A JAXA (agência espacial japonesa), por exemplo, já relatou ter avistado na superfície lunar os sinais remanescentes das antigas missões Apollo — e se você tiver como observar a Lua a partir de um telescópio poderoso com uma clara visão da Lua cheia, terá por conta própria a oportunidade de ver as evidências deixadas por humanos no satélite natural da Terra.

E quando falamos em telescópios poderosos, estamos falando de grandes telescópios construídos em Terra, não valendo para telescópios portáteis que podemos comprar pela internet, ok? Esses, por mais potentes que sejam, não conseguem uma aproximação tão grande a ponto de permitir a visão de rastros deixados por humanos no chão.

Ainda, rovers e sondas lunares já tiveram a mesma visão registrada pelos astronautas

A grande mentira da NASA teria que ter sido muito bem elaborada em conluio com as outras agências espaciais do mundo, que nada têm a ver com o governo dos Estados Unidos, para manter uma farsa deste porte. Além das explicações acima, é fato que as paisagens registradas pelos astronautas das missões Apollo foram posteriormente capturadas também por orbitadores e rovers enviados não somente pela NASA, como também por outras agências, como a japonexa JAXA — que enviou a sonda SELENE à órbita lunar em 2007.

A sonda japonesa, que também ficou conhecida como Kaguya, conseguiu capturar imagens que ilustram a base dos Apeninos, mesmíssimo local fotografado pelos astronautas da missão Apollo 15.

À esquerda, foto de um terreno lunar tirada pela Apollo 15. À direita, a mesmíssima região fotografada pela sonda japonesa SELENE (Fotos: NASA, JAXA)

"As fotos dos astronautas na Lua mostram mais sombras do que deveriam"

O que muita gente que duvida que fomos presencialmente à Lua usa como "prova" da grande mentira da NASA são fotos dos astronautas na superfície lunar que mostram muitas sombras, algo que não seria possível ao considerar a luz do Sol como única fonte luminosa. Então, creem se tratar de sombras causadas pelas fontes de luz artificial presentes em estúdios profissionais.

É verdade que as fotos autênticas apresentam várias sombras, e isso se explica pelo fato de que a luz que incide diretamente do Sol na Lua acaba sendo refletida de várias formas, até mesmo nos equipamentos com acabamento metálico que a NASA enviou para lá. A poeira lunar (chamada de regolito) é um material altamente reflexivo, funcionando como se fosse um espelho para a luz solar, iluminando todos os objetos próximos.

Essa foto da Apollo 11 é constantemente usada como "prova" das sombras suspeitas (Foto: NASA)

"Mas não vemos estrelas no céu nas fotos da NASA"

Sim, isso é verdade. Mas observe o seguinte: em áreas urbanas com muita iluminação noturna, o céu também muitas vezes aparece sem estrelas aqui na Terra. Se você mora na região central de uma capital como São Paulo, por exemplo, sabe do que estamos falando. E, como a superfície da Lua reflete muita luz solar, essa poluição luminosa age da mesma forma como as luzes artificiais das grandes cidades, prejudicando a visualização vasta das estrelas.

Outra razão que explica a ausência de estrelas nas fotos tiradas na Lua tem relação com as tecnicidades da fotografia. Em um fundo tão escuro como o espaço, junto a uma superfície tão iluminada graças à reflexividade do regolito, é preciso que a abertura da lente da câmera esteja configurada para capturar a menor quantidade possível de luz e, portanto, os astronautas usaram aberturas pequenas para fotografar por lá. Quanto menor a abertura, menos luz é capturada. E se há menos luz entrando no sensor da câmera, os objetos extremamente iluminados aparecem claros, enquanto os pontos de luz do céu (as estrelas distantes, no caso), não são registradas.

Um céu sem estrela alguma fotografado durante a missão Apollo 16 (Foto: NASA)

"Como a bandeira dos EUA estava se mexendo se não há ventos na Lua?"

A filmagem que mostra a bandeira dos Estados Unidos em movimento logo após ser fincada no solo lunar é constantemente citada como prova de que tudo foi uma farsa, uma vez que realmente não há ventos na Lua. E sim, a filmagem que mostra a bandeira em movimento é real, mas não pelo motivo que você pensa.

Na verdade, é tudo fruto da inércia: aquele fundamento da física que diz que, sem interferência de outras forças, um objeto parado tende a permanecer parado, enquanto um corpo em movimento tende a permanecer em movimento — e seu estado somente é alterado pela aplicação de uma força externa, como o atrito do ar, por exemplo. E, bem, como praticamente não existe atmosfera na Lua, o movimento causado pelos astronautas ao fincar a bandeira no chão gerou ondulações no tecido, que continuam acontecendo graças à inércia.

No vídeo abaixo, você pode ver a bandeira dos EUA se movendo como consequência da inércia:

"A temperatura da Lua varia em 'trocentos' graus, como os filmes fotográficos sobreviveriam?"

É verdade que, como quase não tem atmosfera (sendo tão ínfima a ponto de ser válido considerar que a Lua é cercada por vácuo), suas temperaturas superficiais variam imensamente. Com o Sol a pino, essa temperatura passa dos 100ºC, enquanto que, à noite, cai para -150ºC. E muita gente que duvida do pouso do homem na Lua tenta usar esse argumento, questionando tanto a sobrevivência dos astronautas nessas condições extremas, quanto a dos filmes fotográficos, que são extremamente sensíveis.

Mas esse questionamento é fácil de responder: os filmes foram colocados em caixas especiais para protegê-los do calor e do frio intenso e, além disso, os astronautas programaram suas alunissagens em momentos ideais para isso, acontecendo entre o amanhecer e o anoitecer lunar — ou seja, em momentos em que não estaria nem muito quente, nem muito frio. Além disso, naturalmente seus trajes espaciais foram devidamente projetados para garantir as condições de pressão e temperatura ideais para um ser humano.

"Apenas dois astronautas pousavam por vez, mas há fotos à distância deles, como pode?"

Para que o pouso na Lua fosse possível, as naves das missões Apollo contavam com módulos distintos. Na hora de enviar o módulo lunar à superfície, o outro módulo permaneceu em órbita, e justamente neste módulo orbital ficou o terceiro astronauta das missões, com os outros dois indo explorar a superfície lunar.

Todas as fotografias das missões Apollo, então, vieram desse trio de astronautas, tanto no chão, quanto na órbita. Por isso, temos uma variedade de imagens que mostram detalhes do solo lunar (e registros dos astronautas à distância), além de detalhes do módulo de aterrissagem (tiradas em solo pela dupla local), e até mesmo fotos da Terra vista da Lua.

Módulo orbital da Apollo 15 (Foto: NASA)

Bônus: há espelhos na Lua cuja existência pode ser comprovada

Durante as missões Apollo, a NASA pediu para que seus astronautas posicionassem retrorefletores de laser (LRRs) na superfície lunar, que são espelhos que já foram usados como alvos para lasers em Terra como parte de experimentos científicos tanto dos Estados Unidos, quanto da Rússia. Basicamente, a coisa funciona assim: você dispara um laser na direção exata desses espelhos, medindo o tempo que o laser leva para atingir os refletores, e o tempo que levam para voltar ao ponto de origem.

Esse tipo de experimento nos permite aprender a distância entre objetos extremamente distantes (como é o caso da Lua em relação à Terra), e a NASA, levando esses espelhos para lá, vem constantemente repetindo o teste a fim de medir a taxa em que a Lua está se distanciando, gradativa e lentamente, da Terra.

O espelho posicionado na superfície da Lua na missão Apollo 11 (Foto: NASA)

E não é só a NASA que tem acesso ao experimento, caso você também ache que isso é "balela": qualquer cientista que tenha os equipamentos necessários para disparar um feixe de laser na direção exata de tais espelhos pode fazer a experiência, e observatórios independentes da agência espacial dos EUA (como, por exemplo, o Lick Observatory, o Laboratório de Pesquisa da Cambridge, o Observatório Pic du Midi da França, o Observatório Astronômico de Tóquio e o Observatório McDonald, no Texas) usaram regularmente os LRRs da Apollo em suas observações. Atualmente, há observatórios que também não são da NASA que ainda fazem esse tipo de observação, incluindo o Observatório Côte d’Azur em Grasse, na França e o Apache Point Observatory, nos EUA.

E, sim, a superfície reflexiva da Lua sozinha também é capaz de refletir um feixe de laser emitido da Terra, é verdade. Os primeiros testes do tipo, sem contar com os LRRs, foram feitos pelo MIT em 1962, com os cientistas fazendo as primeiras observações quanto à distância entre Terra e Lua. No mesmo ano, equipes soviéticas repetiram o experimento, chegando a resultados semelhantes. Mas a maior precisão somente foi atingida após a instalação dos refletores pela NASA, com a missão Apollo 11 em 1969. Dois outros conjuntos de refletores foram posicionados lá nas missões Apollo 14 e 15.

Atualmente, a Lua está 18 vezes mais longe da Terra do que estava quando foi formada, há 4,5 bilhões de anos. Esse distanciamento é de cerca de 3,8 centímetros por ano, por sinal.

*Com informações de Popular Science e SF Gate

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