Qual a viabilidade real de construirmos uma base fixa na Lua?

Por Patrícia Gnipper | 06 de Fevereiro de 2019 às 15h20

Há muito se sonha com uma base fixa na Lua, com esse sonho sendo alimentado pela ficção científica ao longo do tempo. Essa base serviria tanto como morada para futuros habitantes lunares, quanto como laboratório científico e também uma espécie de pit-stop para viagens tripuladas interplanetárias. Contudo, no ano de 2019 isso ainda não existe fora da ficção — ainda que empresas como a SpaceX e também a agência espacial da China (CNSA) tenham planos do tipo em elaboração.

A China já começou a dar os primeiros passos rumo à construção de uma base fixa lunar, por sinal. Em janeiro, a sonda Chang'e 4 pousou no lado afastado da Lua, tornando-se a primeira nave a fazer uma aterrissagem por lá. A missão abre os caminhos para as futuras Chang'e 5 e 6, que serão enviadas para trazer à Terra amostras de rocha e solo coletadas no lado afastado da Lua, enquanto a missão Chang'e 7 fará estudos e mapeamento do polo sul da Lua, região de interesse para a habitação humana por conter água congelada. Depois, a Chang'e 8 poderá testar algumas tecnologias por lá já visando a criação de uma futura base chinesa na Lua — base esta que seria compartilhada com outros países além da China.

Além da CNSA, a ESA (agência espacial europeia) também vem vislumbrando uma base lunar do tipo. A agência tem esses planos, na verdade, desde 2016, e a ideia seria criar uma "aldeia lunar" com uma diversidade de pessoas, incluindo cientistas e artistas, além de organizações públicas e privadas, como uma maneira de democratizar o espaço. E, ao contrário da NASA, a ESA não vê problemas uma colaboração com a agência espacial chinesa nessa empreitada, e também vem trabalhando com a iniciativa privada para enviar uma missão que estudará a possibilidade de minerar o solo lunar.

Quanto à NASA, a agência espacial dos Estados Unidos tem planos de levar pessoas novamente à Lua até 2030, e há no papel o projeto da Lunar Gateway, uma plataforma orbital lunar. Não será, ainda, uma base fixa na superfície, mas sim uma base orbital tal qual a Estação Espacial Internacional na órbita da Terra.

Até então, o maior tempo que pessoas já passaram na Lua foi de apenas três dias, e ainda não se sabe ao certo a extensão de problemas físicos e psicológicos que podem surgir com uma longa estadia em outro mundo. De qualquer maneira, construir uma base fixa na superfície da Lua envolve outros desafios.

Condições adversas

As temperaturas lunares variam muito: sem atmosfera, durante o dia a temperatura da superfície passa dos 100 ºC, enquanto à noite esses valores caem para -150 ºC (ou até -190 ºC se estiver no lado afastado da Lua), e a radiação espacial é intensa. Ainda, a força da gravidade é bastante baixa, sendo apenas um sexto da gravidade da Terra, e um dia lunar dura cerca de 29 dias terrestres, enquanto a noite lunar dura 2 semanas. Ou seja: quase 1 mês de calor extremo, seguido por duas semanas de frio congelante.

Sendo assim, qualquer tecnologia, ainda a ser desenvolvida ou aperfeiçoada para que a construção de uma base lunar aconteça, precisa garantir o bom funcionamento nessas condições adversas. Há uma competição global surgindo nesse sentido, com duração de cinco anos, chamada The Moon Race, em que empresas privadas são incentivadas a criar tecnologias de manufatura, produção de energia, extração de recursos e biologia. A competição será lançada oficialmente em outubro deste ano no Congresso Internacional de Astronáutica.

Materiais de construção

Viajar para a Lua é algo muito caro, e esse custo seria astronomicamente superior se precisarmos levar daqui da Terra todos os materiais necessários para a construção de uma base lunar. Afinal, quanto mais pesada for a carga, mais combustível é necessário para o lançamento, o que eleva o custo.

Então, construir um habitat na Lua exigiria a extração de recursos locais, como o regolito lunar, que é a fina areia cinza basáltica que recobre nosso satélite natural e é semelhante à areia vulcânica da Terra. A agência espacial alemã vem conduzindo estudos com um material simulador de regolito para construir tijolos. Com impressoras 3D, a agência construiu tijolos em formatos diversos para descobrir qual funcionaria melhor, e há a possibilidade de os tijolos serem, na verdade, blocos interligados — mais ou menos como Legos —, o que eliminaria a necessidade de algum material cristalizante como o cimento, por exemplo.

Oxigênio para respirar

O próprio regolito contém oxigênio em sua composição, com a fonte mais provável sendo a ilmenita (FeTiO3) pois, quando combinada com hidrogênio a uma temperatura elevadíssima (cerca de mil graus Celsius), ela produz vapor de água, com esse vapor podendo ser separado para produzir, individualmente, hidrogênio e oxigênio. Afinal, obter oxigênio no local é uma vantagem imensa, pois transportar tubos de oxigênio da Terra para a Lua certamente encareceria e dificultaria bastante o projeto de uma base lunar com moradores fixos, ou recebendo visitantes a todo instante.

Alimentos

Da mesma maneira que levar oxigênio e combustível encareceria os lançamentos para a Lua, levar alimentos também aumentaria esse gasto. Então, ao pensar em uma base fixa na Lua, é necessário criar tecnologias para que a produção de alimentos no local seja possível.

A missão Chang'e 4, da China, conseguiu com sucesso germinar brotos de algodão no lado afastado da Lua (em um recipiente fechado, claro), mas a planta morreu poucos dias depois, quando começou a longa e gelada noite lunar. De qualquer maneira, estudos como esse servem justamente para o desenvolvimento de soluções para os problemas apresentados, rumo a um futuro em que seremos capazes de cultivar vegetais comestíveis em nosso satélite natural.

Produção de energia

Outro desafio de projetos que vislumbram a criação de uma base fixa na Lua é a produção de energia. Para produzir eletricidade na Terra, as células de combustível usam uma reação química entre o hidrogênio e o oxigênio do ar. Mas como não há atmosfera na Lua, esse processo seria mais trabalhoso em nosso satélite natural. Seria preciso dividir a água obtida no gelo lunar e, durante a noite, recombiná-la para produzir eletricidade.

Energia térmica também poderia ser armazenada usando um processo similar às bombas de calor. Como não há ventos na Lua, o calor do Sol permanece no regolito, e uma lente especial ou espelho desenvolvido para essa finalidade poderia focar a luz do Sol no solo, mantendo uma base aquecida o suficiente para gerar eletricidade.

E, bem, avaliando todos os desafios acima, podemos concluir que, ainda que exista muito trabalho pela frente no desenvolvimento e aperfeiçoamento de novas e variadas tecnologias, a construção de uma base lunar não está mais apenas nos roteiros de ficção científica, ficando cada vez mais próxima da realidade. E isso pode acontecer mais cedo do que a gente imagina, considerando que agências espaciais e empresas privadas que levam seu trabalho muito a sério estão investindo pesado para fazer esse futuro acontecer o quanto antes.

Fonte: BBC

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