Resenha de Livro | Tim Cook – o gênio que mudou o futuro da Apple

Por Redação | 23 de Dezembro de 2019 às 17h00 PUBLIEDITORIAL
Luciana Zaramela/Canaltech

Por Luciana Zaramela

Quando falamos de livros aqui no Canaltech, o assunto pode causar certa estranheza nos nossos leitores, afinal, o que de tech tem um livro? Dependendo do assunto, tudo. E se for eBook, tudo e mais um pouco. A editora Intrínseca nos cedeu um exemplar físico da biografia de Tim Cook, atual manda-chuva da Apple, que conta como o CEO conseguiu arribar a empresa quando Steve Jobs estava no fim dos seus dias — tornando-a a companhia mais valiosa do mundo atualmente.

Quem é leitor do CT já conhece Tim Cook e seu jeito sério, porém tranquilo de conduzir as coisas na Maçã. Mas, quem quer conhecer mais sobre o atual líder da Apple — e entender qual foi sua trajetória até chegar à empresa e como ele faz a roda girar lá dentro — está convidado a viajar junto com Leander Kahney, autor do livro e especialista em assuntos relacionados a tecnologia, nesta obra baseada em trechos da vida de Cook, entrevistas, livros e história do executivo.

Sob a ótica de um jornalista

O britânico Leander Khaney ficou muito conhecido no meio tech internacional após integrar o corpo editorial da revista Wired, uma das mais bem cotadas do setor nos Estados Unidos. Com vício declarado sobre a Maçã e seus produtos, já escreveu obras como The Cult of Mac, Cult of iPod e A Cabeça de Steve Jobs (esta última com venda no Brasil). Khaney tem uma longa jornada como repórter e escritor, cobrindo principalmente notícias importantes do Vale do Silício e fazendo todo o seu trabalho baseado em tecnologia, inovações e negócios na área.

Em sua obra de 2018, Tim Cook – o gênio que mudou o futuro da Apple, trazida para o Brasil em outubro pelas mãos da editora Intrínseca, Khaney lança seu olhar de repórter especializado sobre a história de Cook, com passagens se referindo ao icônico Steve Jobs, bem como à vida pregressa do atual CEO da Apple — desde sua infância até o lançamento do último iPhone.

Kahney é um narrador observador, que usa a primeira pessoa em vários trechos desta biografia sobre Cook — a única disponível mundialmente, vale dizer.

Quem é o Tim Cook que Kahney pinta na biografia?

Quem não é lá muito fã dos produtos da Maçã pode perceber claramente a parcialidade de Kahney quando trata de assuntos relacionados à Apple, não apenas por ter coberto de perto muitos dos feitos da empresa, mas por ser um admirador assumido da marca. Durante toda a narrativa, a imagem que ele passa sobre Tim Cook é de um gênio despretensioso que se viu formar um monstro das operações, capaz de ter o toque de Midas por onde quer que passasse.

Desde sua formação na Universidade Auburn, em 1982, o Cook descrito em toda a obra é um rapaz brilhante, quieto, calculista, e ao mesmo tempo austero e empático. Vindo de uma família do interior, no sul do Alabama — estado até hoje conhecido por seu passado (quiçá presente) segregacionista —, Cook sempre foi um cara discreto, engraçado e bastante preocupado com questões sociais. O autor traça um perfil do executivo como um observador nato, sempre disposto a aprender e com bastante firmeza em suas opiniões. Durante todos os capítulos da obra, Kahney não se cansa de enaltecer o lado prático de Tim Cook, tentando a todo custo transformar a imagem de um cara extremamente metódico em um simpático e incrível líder.

Vida pregressa: da infância à Maçã

O menino do interior, nascido em uma cidadezinha tradicional com poucos pontos turísticos e poucas opções de entretenimento — que, por ironia do destino, se chama Mobile e fica no Alabama —, sempre foi o garoto exemplar da sala de aula, o atleta da escola, o escolhido como orador de formatura, o orgulho da família. Religioso, nunca havia mencionado nada sobre sua — hoje em dia — aberta homossexualidade.

Quando criança, era o típico garoto de cidade pequena, cabelos curtinhos, desajeitado porém interessado em atividades físicas, cuidadoso com seus trabalhos escolares, com humor simpático e divertido. Teve seus primeiros empregos bem compatíveis com o de outros jovens da época, trabalhando como entregador de jornal e auxiliar de farmácia. Fez o anuário da escola ao se formar no ensino fundamental.

Kahney sempre usa muitas aspas em toda a sua narrativa, com posicionamentos de pessoas que conheceram ou conviveram com Tim antes da fama e também com quem o conheceu já na fase empresarial. O livro é permeado de relatos — em sua esmagadora maioria positivos — sobre a figura de Cook e como ele era bem quisto e plural, no sentido de ser multifuncional desde as artes até as ciências exatas.

E foram as ciências exatas que renderam ao jovem Cook o que ele é hoje: apaixonado por álgebra, trigonometria e geometria, ele gostava de ver como os processos funcionavam. Executava tudo com muito planejamento e detalhes, e não suportava errar.

Toque de Midas

Desde que chegou para substituir a presença enérgica e excêntrica de Steve Jobs, Tim Cook segurou um rojão sem precedentes. Apesar de ter passado por gigantes da tecnologia como IBM (onde ficou de 1982 a 1994), Intelligent Electronics (1994), Compaq (1997) e ter ingressado à Apple em uma fase de vacas muito magras, com as finanças à beira do abismo (1998), foi na Maçã que o executivo mostrou o que sabe fazer — sempre à sua maneira, discreto, quase invisível ao público.

Na IBM, onde passou 12 anos, mostrou suas facilidades para a liderança. Metódico, esteve sempre em destaque no departamento de produção e até no administrativo da fábrica, bem no auge do primeiro IBM PC, enquanto aplicava seu apreço pela produção em linha e a eliminação de estoque. Estoque para ele, aliás, sempre significou perda de espaço e dinheiro.

Foi na IBM que ele viu sua oportunidade de se aperfeiçoar com um MBA executivo na Universidade Duke, na área de administração de empresas. Isso deu um boom em sua carreira, pois apesar de pensar sozinho, ele agia sempre com pessoas ao redor, fosse na liderança, na gerência, no setor operacional ou mesmo nas salas de reuniões. Cook se socializava, à sua maneira, mas não era um cara de aproximação aberta. Sempre contido, mas também sempre disposto.

Foi assim que foi promovido tantas vezes em seus 12 anos de IBM, onde, mesmo sob pressão do tempo e dos prazos, otimizou a produção, a logística e as entregas do IBM PC e deixou a empresa ao aceitar um cargo alto, de diretor de operações, na Intelligent Electronics (IE). Nunca saberemos, pelo menos nesta biografia, o real motivo que impulsionou Cook a trocar uma empresa gigantesca, que vinha tomando conta de escritórios e companhias mundialmente, por uma pequena, porém importante fornecedora de microcomputadores e workstations de Denver, Colorado.

Após ser diagnosticado erroneamente com uma doença degenerativa, Cook tomou um baita susto quando chefiava as operações da IE. Na verdade, o que sentia era a sobrecarga de uma vida extremamente atribulada e viciada em trabalho, o que acabou deixando Tim com sintomas de exaustão muscular. Não era esclerose múltipla, como haviam pintado na época, e Cook se afastou, tratou-se e se recuperou de nada menos que um stress. Ao voltar renovado, implantou mudanças na IE e elevou as receitas da empresa em 21% durante o período que passou por lá. Foi ele que arquitetou a venda da empresa para a General Electric (GE) em 1997, por US$ 136 milhões.

O próximo passo foi seguir para a Compaq, que crescia a passos largos na década de 1990 até meados dos anos 2000, vendendo clones do IBM PC que eram constantemente atualizados e rodavam o Windows 95, na época. Sob a ótica do autor, Cook também chegou e fez milagres na Compaq. É interessante ver como essa percepção nos faz enxergar o executivo como um salvador da pátria, que por onde passa, transforma tretas em louros. Segundo o autor, esse é o grande dom de Tim Cook. Parece até rasgação de seda, mas de fato o executivo teve um trilhar brilhante nos setores operacionais que assumiu.

Na Compaq, Cook conseguiu reduzir o preço da linha Presario ao optar por componentes mais baratos, o que forçou a concorrência, à época, a derrubar seus preços também. Era o que se pagava pelo risco — e suas estratégias, por competência aliada a fatores do mero acaso, estavam corretas. Na Compaq, ele também optou por inserir o modelo de distribuição otimizada para transferir os custos de estocagem aos parceiros fabricantes. Baita tacada. Foi exatamente isso que chamou a atenção de Steve Jobs.

Aqui cabe um parêntese importante: sempre que pode, o autor passa a imagem de Cook como o "maluco do just-in-time (JIT)", o que rendeu ao executivo toda a glória de um excelente gestor operacional. Por onde passou, aplicou sua prática ideologia baseada nos princípios de Henry Ford, com a premissa de que estoque é atraso e perda de tempo. Assim, desde que trabalhou lado a lado com Jobs, ele transformou o setor operacional da Apple. Não se fala de um fracasso sequer do executivo em toda a sua carreira como um impeditivo para seguir adiante nesta obra.

Steve Jobs entra em cena

Como falar de Tim Cook sem citar o visionário Steve Jobs? Sempre à frente de seu tempo, o homem que ajudou a criar a Apple ao lado de Steve Wozniak, "deu de louco", saiu da empresa, fundou outra e retornou à Maçã era de difícil convivência, muito explosivo e austero, mas dava bastante certo com o sereno Tim Cook. E uma coisa que uniu as estratégias dos dois, por mais opostas e singulares que parecessem, foi exatamente essa "birra" pelo estoque e a pressa pelas entregas em tempo, sem deixar os consumidores na mão.

Consumidor na mão, aliás, era algo que a Apple tinha como algoz quando Cook resolveu ingressar na empresa, em 1998. A companhia estava à beira da falência, e Steve Jobs havia voltado há pouquíssimo tempo, na condição que ele mesmo renomeou de iCEO (para não dizer CEO interino). O motivo? Ao sair da Apple e fundar a NExT, Jobs havia criado um sistema operacional para computadores completamente futurista, rápido e promissor. A Microsoft ia de vento em popa com seu Windows, e a Apple afundava na falta de inovação para peitar a concorrência. O Macintosh precisava se reinventar, e ninguém melhor que Steve Jobs para resolver a questão.

Ao voltar à Maçã, Jobs teve que efetuar cortes bruscos, demitir muita gente e reduzir a linha de computadores, que à época, contava com um catálogo de cerca de 40 modelos. Ele criou uma matriz de, literalmente, dois por dois e reduziu em 10 vezes o número de computadores para a Apple colocar nas prateleiras: de 40 para apenas 4 produtos. O Mac OS, à época, não tinha acordos de licenciamento bem organizados, o que acabou rendendo a uma enxurrada de clones do sistema operacional. A empresa estava dando seus últimos estertores e parecia que só um milagre poderia salvá-la do abismo.

Considerada por muitos executivos da empresa como um "plano suicida", a estratégia de Steve Jobs de cortar o portfólio de produtos "no talo" e colocar sua personalidade na empresa — até no refeitório, diga-se de passagem — era a carta que ele tinha na manga. Jobs vestiu a camisa da Apple, e a Apple vestiu a camisa de Jobs. Tudo estava certo para dar a cartada final, mas... ainda faltava alguém nesse quebra-cabeças. Esse alguém era Tim Cook. Observando como o mago do setor operacional endireitou os caminhos tortuosos da IBM e da Compaq, Steve Jobs não pensou duas vezes e o convidou para uma conversa. Ambos eram aficionados pela eliminação do estoque e pela agilidade na produção e nas entregas, então a química já estava estabelecida entre eles. Cook aceitou o convite de Jobs e colocou a mão na massa.

A tríade de executivos-chave da Apple foi por anos a mesma, e por anos um sucesso: Steve Jobs liderava com seu perfil inovador, criativo e visionário, era um vendedor nato, rebelde e incisivo; Tim Cook fazia o meio de campo estratégico nos bastidores, com os setores operacional e de pré-venda; e Jony Ive (que deixou a empresa recentemente) era o mago criativo que colocava linhas minimalistas e futuristas aos produtos que nasciam da cabeça de Jobs. Os três pilares fizeram a Apple prosperar como nunca, e o livro mostra isso muito bem.

Kahney parece se empolgar bastante quando fala de Jobs, inclusive, mais até do que do próprio Cook, astro do livro. De fato, Jobs foi um cara que deu pano para manga, e falar dele sem usar uma boa dose de tempero não faria qualquer sentido. Tim Cook não tem esse perfil, muito embora o autor tente pintá-lo a todo momento como um líder-herói inesquecível e cheio de personalidade.

No comando operacional da Apple

Convencido por Jobs, a lenda do Vale do Silício, Cook então aceitou o desafio de salvar a empresa do limbo, no cargo de líder de operações.

O papel de Tim Cook, embora longe dos holofotes, foi essencial, junto à audácia de Steve Jobs, para botar a Apple de volta aos trilhos. Terceirizar as linhas de montagem, escolher a dedo fornecedores na Ásia, vender plantas de fabricação nos Estados Unidos e dividir a responsabilidade com a LG na fabricação de telas e componentes foi a tacada de mestre de Cook para recuperar uma empresa a beira da falência.

Ele terceirizou tudo o que era possível, fechou um acordo com a SAP para gerenciar as operações com um software ERP de ponta, que era o sistema nervoso da nova modalidade JIT da Apple — da Ásia para os EUA, e para o mundo. Com isso, a Apple voltou a ter lucros e receitas acima das expectativas dos analistas. E o destaque que marcou essa transição foi o novo iMac G4 — o colorido e bojudo computador desktop que marcou a história da companhia.

A Foxconn entrou no bolo como fornecedora de componentes e montadora, Cook subiu de cargo e passou a gerenciarr também o setor de vendas, e a ladeira acima que começara no início dos anos 2000 culminou em 2005, quando ele levou o título de Diretor de Operações, um dos cargos mais altos e de mais confiança e responsabilidade dentro do complexo da Maçã. Isso deixava claro que Steve Jobs, mesmo na surdina, já estava preparando Tim Cook para ser seu sucessor.

Enquanto ele cuidava dos bastidores, Jobs era a vanguarda que botava a cara na mídia e se apresentava nos eventos da Apple, trazendo a ideologia do Think Different para a empresa e conquistando novamente uma legião de consumidores fiéis. Ou, como gostamos de chamar em tecnologia: usuários. E assim, o Macintosh estava de volta ao jogo.

Líderes que pensavam diferente

Jobs e Cook combinavam em ideias, mas eram completamente opostos em comportamento. Um era enérgico, o outro ponderado. Um era ríspido, o outro educado. Um se exaltava facilmente, o outro era controlado. Mas ambos eram pragmáticos, não suportavam erros e trabalhavam incansavelmente.

Sempre destacando o quanto a calma e a frieza de Cook foram essenciais para torná-lo um exemplo de líder operacional, o autor da obra o coloca como questionador, investigador e perfeccionista. Ele fazia mil perguntas a seus subordinados, e se a pessoa errasse, ele fazia mais. Em reuniões, pensava mais do que falava e, quando falava, poderia soltar algumas bombas do tipo: "esse número está errado, saia já desta sala" ou "o que você está fazendo aqui ainda?".

Morte de Steve Jobs e um Cook "rígido como pinóquio"

Kahney sabe que Tim Cook é um cara que não tem o menor tino para ser o centro das atenções, mas não se cansa de salvar essa visão quase-unânime que aqueles que estão de fora têm do atual líder da Apple.

Steve Jobs sabia que tinha câncer, mas parecia ignorar a doença. Cook o substituiu quando ele se submeteu a um transplante de fígado, segurando legal as rédeas da Apple — com Steve Jobs participando, mesmo que de longe, de decisões importantes. Ao retomar o leme da Apple, Jobs já vinha sofrendo de um novo câncer, desta vez de pâncreas, e vivia dizendo que iria vencer a doença. Conviveu oito anos com ela, e, infelizmente, foi displicente o suficiente para ignorar sua gravidade e trabalhou, literalmente, até morrer.

Embora esse tempo de sobrevida tenha sido um milagre (já que portadores da doença geralmente não chegam a conviver nem dois anos com ela), Jobs perdeu sua luta contra o câncer em 2011, um dia antes do lançamento do iPhone 4s. Cook sentiu o baque quando perdeu Jobs e teve que se virar nos 30 ao apresentar os novos produtos da Apple no Hierba Buena, em São Francisco, com uma performance catastrófica que lhe rendeu uma enxurrada de comentários negativos, dúvidas de acionistas e reflexos pejorativos no mercado. Como será que a Apple vai se manter sem seu "insubstituível" líder?

Quem esteve aqui para ver, lembra bem como foi trágica a partida de Steve Jobs e o quão engessada foi a apresentação de Tim Cook quando subiu ao palco e tentou suportar o peso de tanta coisa acontecendo sobre seus ombros. Tenso, com sorriso forçado, fala mansa e ao mesmo tempo muito nervosa, ele conduziu o evento e recebeu uma chuva de críticas e comentários negativos da imprensa especializada, de usuários, de analistas de mercado e de quem mais você puder imaginar. Não estava fácil e os primeiros meses de 2012 trouxeram muita dor de cabeça para o novo CEO.

Primeiro que a galera de dentro da Maçã não esperava que Cook fosse assumir como substituto do "homem". Segundo que os críticos já previam a derrocada da Apple. Apresentar o iPad 3 e uma Apple TV modernizada para toda aquela gente não foi nada fácil e os contratempos só começavam. E o pior de tudo: o Android estava ganhando tração e a Samsung estava com tudo. Que momento complicado para assumir o timão, hein, Tim Cook?

Não deu outra: as ações despencaram e ficaram abaixo da previsão já cética dos especialistas de Wall Street. A Samsung ganhou os holofotes. Apesar de toda a turbulência do ano, Cook teve que manter sua serenidade para não surtar e demitir as pessoas erradas, focando em reestruturar planos estratégicos e segurar a empresa como podia ou dava conta. Acabou com serviços, cargos e produtos, a exemplo do MobileMe. Contratou nova gente, demitiu mais ainda. Passou perrengues como o fiasco da Siri, que era uma inteligência artificial novata e ainda errava bastante, e do Apple Maps, que simplesmente não tinha mapas completos. Cook chegou a enviar uma carta aberta aos funcionários da Apple pedindo desculpas pelas confusões em seu período de adaptação, inclusive citando o Apple Maps.

Ora, direis, pedir desculpas? Isso não foi visto com bons olhos pela mídia especializada, muito menos pelos analistas de mercado. Mais pareceu que Cook estava pedindo era arrego, mesmo.

Cook começa a mudar o futuro da Apple

Mas a turbulência durou pouco. A partir do momento que Tim Cook pega a veia da liderança, o autor conduz a obra com uma série de passagens elogiosas, aspas de colegas de trabalho, exemplos de artigos e matérias que saíram na imprensa especializada, resultados trimestrais e performances na bolsa.

Sob o ponto de vista de Kahney, a tática usada por Cook — até então praticamente invisível aos olhos da mídia e dos usuários de produtos da Apple — não era espelhar o trabalho de Jobs, mas sim fazer o melhor de si que conseguiria fazer, traçando novos (e diferentes) rumos à empresa. Começando pela filantropia e direitos humanos e terminando na cadeia de fornecimento da Apple.

Percebemos que o jornalista força a imagem de bom moço de Cook quando tenta contrapor uma afirmação do Venture Beat, em que a jornalista Sarah Mitroff relativizava as iniciativas filantrópicas da Apple ao dizer que as doações seriam como uma pequena gota no oceano de receita da companhia, expondo ainda os problemas do China Labor Watch com a Foxconn na Ásia. Segundo ele, ainda assim, Cook era a luz no fim do túnel que prometia, com pequenas mudanças, grandes transformações.

O escândalo da Foxconn

E por falar em Foxconn, a principal fabricante terceirizada de componentes da Apple, foi no primeiro ano da era Cook que o New York Times fez uma série de reportagens investigativas expondo a situação de jornadas e condições desumanas dos trabalhadores para cumprirem o just-in-time — que levavam, inclusive, a suicídios dentro das fábricas. O escândalo foi rapidamente ventilado mundo afora, inclusive aqui no Canaltech. Não adianta tentar colocar panos quentes sobre uma situação que foi escancarada e sobre a qual a Apple teve de se explicar para manter sua boa reputação — mas um trecho do capítulo X Nos Passos de Steve Jobs dá a impressão de que a Maçã é imaculada: "Quase que imediatamente a Apple contratou a Associação pelo Trabalho Justo (...) dedicada a por fim ao trabalho análogo à escravidão pelo mundo". A função era auditar as fábricas da Foxconn na China e limpar a barra da Apple com isso — algo que, de fato, ocorreu.

Entretanto, sobre os casos que resultaram no escândalo da Foxconn, o livro discorre bem e relembra boas passagens, algumas com detalhes, outras com pontos de vista de acadêmicos, jornalistas e documentaristas. Esse é, de fato, um dos capítulos mais interessantes do livro, contado com riqueza de detalhes.

Menos Steve, mais Tim

Assumir uma companhia tão valiosa quanto a Apple depois da morte de seu lendário CEO não foi tarefa fácil, e quem acompanhou a história sabe dos trancos e barrancos que Tim Cook teve de levar e percorrer para colocar os números de volta nos trilhos. Enquanto uns reclamavam da falta de inovação, outros elogiavam a firmeza com a qual ele segurava as rédeas da corporação. Será que Steve Jobs aprovaria o surgimento de iPhones "mais baratos", como o SE e o 5c? Isso o livro não conta, mas a medida, que foi duramente criticada à época, acabou resultando positivamente no fechamento dos trimestres subsequentes, disparando nos dois anos após a era Jobs, graças a um acordo de Cook com a China.

O livro também fala de um segundo escândalo que ocorreu no início do comando de Tim sobre a Apple, quando explodiram os rumores de que a companhia estaria sonegando impostos. Cook depôs numa audiência do Senado Americano, afirmando que a Apple pagava cada centavo de seus impostos corretamente, sem paraísos fiscais, mas mantendo "operações reais em lugares reais". Ou seja, sempre que uma armadilha era imposta pelo destino, Cook mostrava ter uma saída de mestre. Pelo menos é assim que o livro descreve suas artimanhas durante quase toda a sua narrativa.

Daí em diante, o autor detalha cada um dos primeiros produtos e lançamentos de softwares e serviços da Apple, desde o Mac Pro, o iOS 7 e o iPhone 5s ao primeiro produto criado verdadeiramente na era Cook: o Apple Watch. O autor ainda pincela as novidades que a nova gestão trouxe sobre a saúde dos usuários com os aplicativos de monitoramento do Apple Health e a WWDC 2014, a contratação de Angela Ahrendts, a parceria com a IBM, o Apple Pay, o caso "Bendgate" dos iPhone 6 e 6 Plus e alguns contratempos com o iOS.

Para nós, que trabalhamos com tecnologia há vários anos e presenciamos tudo isso, participando e assistindo a cada WWDC, os escândalos do início da gestão de Tim Cook tomaram a mídia de solavanco, e os acionistas não ficavam nada contentes com os contratempos sofridos pela empresa nos primeiros anos de comando do executivo. No noticiário, na mídia especializada e nos fóruns de tecnologia, o comentário geral era: "se Steve Jobs estivesse vivo, isso jamais teria acontecido". Isso, de fato, nunca saberemos, mas o que Kahney deixa bem claro no livro é que mesmo os erros e os tropeços de Tim Cook, que geraram clara repercussão negativa à época, não foram suficientes para ofuscar a imagem de herói que ele tem do sucessor de Jobs.

A maçã ficou mais verde 

Se tem uma mudança positiva e inegável que o atual líder da Apple conseguiu consolidar na empresa foi a da sustentabilidade, atrelada à da diversidade. A obra trata com detalhes as manobras de Tim Cook em relação às fábricas diante de problemas ambientais recorrentes, já que constantemente a Apple aparecia liderando rankings de empresas mais poluentes e se metendo em encrenca com o Greenpeace e ONGs que saíam em defesa do meio-ambiente.

Cook partiu para a construção de plantas com energia renovável, à eliminação de materiais como PVC (das carcaças) e CRT (das telas), tentando reduzir a poluição e os resíduos tóxicos deixados pela empresa, principalmente na China.

O caso de San Bernardino

É claro que o incidente de San Bernardino, no qual um casal matou 14 pessoas e deixou outras 21 feridas em dezembro de 2015, não ficaria de fora do livro. Foi o momento mais marcante da gestão de Cook, pois ele se viu pressionado a decidir algo que desafiava o FBI. Um dos atiradores (abatido pela polícia) deixou no local do crime um iPhone 5c, mas que estava protegido por senha. De um lado, o FBI e a maioria dos americanos clamavam por justiça e pediam à Apple para que liberasse o acesso ao conteúdo do smartphone; de outro, a Maçã viu todo o seu trabalho colocado sobre segurança e privacidade em xeque. A decisão da alta cúpula da Apple foi desafiar a lei e não fornecer abertura, mesmo diante de um caso tão delicado.

Resultado: a Apple se negou a burlar o esquema de segurança do iPhone 5c e o FBI teve de "dar seus pulos" e contratar uma empresa terceirizada para desbloquear o smartphone do atirador. Com isso, temos que concordar com o autor: Tim Cook acertou na mosca e fez com que a imagem de segurança e inviolabilidade da Apple fosse elevada à "enésima" potência. Afinal, nem o FBI deu conta. O caso se deu como encerrado com o FBI afirmando que conseguiu acessar os dados do smartphone do atirador, mas sem detalhar como. O processo foi então arquivado e Cook redobrou suas apostas em privacidade depois dessa.

Saindo do armário

Ao afirmar abertamente em entrevista à Bloomberg que era gay, Tim Cook surpreendeu muita gente em 2014. E com isso, abriu portas para a diversidade dentro da Apple. O livro trata com muita naturalidade todo o processo de diversidade que o manda-chuva da Maçã instaurou na empresa e conta a diferença do ambiente de trabalho em comparação com o comando de Steve Jobs. Como Cook sabia como era viver sendo minoria, resolveu ampliar os horizontes dentro das políticas da Apple.

A empresa levantou o moral com a comunidade LGBTQ, Cook ganhou o prêmio de Personalidade do Ano pelo Financial Times e a inovação, marca registrada da Apple, também se estendeu rumo à igualdade e diversidade nos negócios da companhia — ainda que exista boa parte (a grande maioria) do quadro de funcionários composta por homens heterossexuais brancos, é possível perceber que a mudança aconteceu, e vem acontecendo.

Apple de hoje, Apple de amanhã

O livro não passeia pelos produtos mais novos como se esperava que passeasse, até porque a Apple ainda trabalha com upgrades de suas linhas desde que Steve Jobs deixou esse mundo. Apesar de ser um livro que fala majoritariamente sobre Tim Cook, não há detalhes nem muitas citações de como o executivo se relacionava, por exemplo, com Jony Ive — chefe de design da Maçã que ajudou Steve Jobs a delinear o primeiro iPhone, e que deixou a companhia recentemente. Também não sabemos como é a relação de Cook com outros nomes do alto escalão da Apple, como o chefe da divisão de hardware, Craig Federighi. As decisões de mudanças em serviços e produtos são deixadas de lado para dar à narrativa uma pegada mais biográfica, tangendo mais a pessoa de Tim Cook do que a Apple. Afinal, apesar de ser difícil falar de Cook sem falar da Apple, é isso que o autor busca fazer em grande parte dos trechos em que o descreve.

Desde que assumiu a empresa, seu valor de mercado e suas ações elevaram-se a níveis estratosféricos. Hoje, a Apple é a única companhia do mundo a valer 1 trilhão de dólares. Teria Steve Jobs mantido o carro-chefe de venda da companhia até chegar no modelo atual, o iPhone X? Ou será que isso é puramente mérito de Cook? Lendo o livro, fica óbvia a segunda opção.

Vira e mexe, a Apple está envolvida em rumores sobre carros inteligentes (sem motorista), como é o caso do Projeto Titan, que vai e vem à tona o tempo todo. Afinal, o que Tim Cook está planejando para os próximos anos ninguém sabe, muito menos Kahney, porém as apostas de que a inteligência artificial ditarão novos rumos da empresa ficam claras, palpite que, aliás, não é difícil arriscar.

O autor também cita o Apple Park e o último modelo de smartphone da empresa lançado até a data da publicação da obra, o iPhone X — que marca uma década do telefone que revolucionou a indústria. Aliás, esse é o produto a que o autor mais dedica espaço em seu livro, inclusive citando que Cook convidou Phil Schiller a subir ao palco para mostrar o aparelho — que não foi ovacionado pelo público no último evento de lançamento da Maçã.

Sobre Cook, mas não por Cook

É interessante observar como Kahney conseguiu entrevistar tanta gente atrelada a Tim Cook de alguma maneira, mas nunca entrevistou o executivo no tète-a-tète. Ele sempre traz pontos de vista de vários ex-colegas, vizinhos e conhecidos desde a época das escolas até sua vida atual, mas nunca uma aspa vem direto de Cook.

O livro pode ser dividido em três partes. A primeira traz um insight muito valioso sobre os valores e a essência de Tim Cook enquanto ser humano, já que diz muito sobre sua vida enquanto jovem e executivo de primeira viagem. A segunda e a terceira partes do livro trazem a inevitável recontagem de fatos que, quem já é familiarizado com a Apple, conhece. Alguns trechos, inclusive, parecem releases de imprensa recém saídos da Newsroom da empresa. Mas, convenhamos: é difícil entrevistar Tim Cook, e é ainda mais difícil conseguir detalhes sobre sua estratégia de negócios.

Não há menção aprofundada sobre os serviços da Apple que surgiram na gestão de Tim Cook, como o Apple Music, o Apple Arcade, o Apple TV+ e congêneres, até porque o livro mal foca em produtos, portanto não é de se espantar que não foque também em serviços, certo? Também não sabemos pelo livro como é a vida pessoal de Tim Cook atualmente, como se relaciona com as pessoas fora da Maçã, com quem tem envolvimentos afetivos, como é sua família.

A narrativa toda é fácil de ler — basta uma sentada, ou duas tardes, para arrematar o livro inteiro, que possui 335 páginas. Porém, o tempo todo nota-se uma sardinha forçosamente sendo puxada na direção de Cook — que, indiscutivelmente, é um excelente líder, mas será que rumo a empresa teria tomado caso Jobs escolhesse Jony Ive, por exemplo? Seria ele também chamado de gênio se tivesse conduzido a Apple por mais cinco, seis, sete anos? Kahney também pouco descreve o dia a dia de Cook como líder, ou como é trabalhar recebendo suas ordens, ou ainda como ele gerencia suas equipes.

Apesar de o autor raramente apontar defeitos na forma de liderança de Cook e de enaltecê-lo do início ao fim do livro como um CEO melhor que Steve Jobs — o que nos deixa dúvidas, apesar de mostrar o quão ético, maduro e firme o atual chefe da Apple é —, o livro é rico em detalhes e é uma ótima pedida para quem gosta de conhecer melhor o histórico de grandes corporações e, sobretudo, a trajetória de grandes líderes.

Tim Cook - o gênio que mudou o futuro da Apple está à venda na Amazon. O livro está saindo de R$ 49,89 por R$ 39,89 (na data de publicação desta resenha). E quem assina Amazon Prime (R$ 9,90 ao mês), tem frete grátis. Você pode fazer seu teste por 30 dias.

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