Dia das Mães | Homenagem a "mães" de tecnologias e descobertas espaciais

Por Daniele Cavalcante | 10 de Maio de 2020 às 09h00

Não é nada fácil ser mãe. Exige muito trabalho e dedicação, e muitas mulheres não recebem ajuda alguma nessa tarefa. Por isso, o Dia das Mães também é oportunidade para reconhecer a luta de mulheres que se tornaram verdadeiras guerreiras com suas "crias". Neste 10 de maio de 2020, o Canaltech celebra não apenas as mulheres que dedicaram parte de suas vidas aos filhos, como também aquelas que "deram à luz" descobertas científicas e tecnologias espaciais que mudaram os rumos da ciência.

As mulheres mencionadas abaixo dedicaram suas carreiras e vidas para trazer um pouco mais de sabedoria e conhecimento ao mundo em que vivemos. A maioria delas precisou lutar contra preconceitos de gênero, ainda predominante no meio científico de suas épocas, para terem a oportunidade de comprovar suas descobertas e validar seus trabalhos. O legado delas é um eterno lembrete de que a ciência não tem gênero, e um incentivo para futuras cientistas que continuarão seu legado.

Grace Hopper, a "vovó do COBOL"

As avós também são mães, e devem ser igualmente homenageadas, certo? Então, nada mais justo que começar essa lista com Grace Hopper, conhecida por uma série de títulos honoríficos como “Rainha da Computação”, “Rainha da Codificação”, “Vovó do COBOL” e “Grande Dama do Software”. Embora não tenha exatamente participado da criação do COBOL, desenvolveu as bases para que isso fosse possível.

Essa base era a linguagem de programação Flow-Matic, que Hopper desenvolveu quando era uma analista de sistemas da Marinha dos Estados Unidos, durante as décadas de 1940 e 1950. Essa linguagem já está extinta, mas foi de grande importância por servir como base para o COBOL (Common Business Oriented Language), que é usado até os dias de hoje em processamento de bancos de dados comerciais.

Na década de 1950, Hopper tornou-se funcionária da Eckert-Mauchly Computer como matemática sênior da equipe de desenvolvimento do UNIVAC I (“Universal Automatic Computer”, ou “Computador Automático Universal”). Esse foi o primeiro computador comercial fabricado e comercializado nos Estados Unidos. Dez anos depois, o UNIVAC se tornaria uma peça fundamental para a NASA durante as missões do programa Apollo e para o primeiro pouso de seres humanos na Lua - e por isso Hopper entra nesta singela homenagem.

O legado de Grace Hopper está presente na vida de todos os que lidam com a computação, mesmo que não saibam disso. Por exemplo, ela é apontada como a criadora do termo “bug”, que usamos para mencionar uma falha em códigos-fonte.

Nancy Grace Roman, a "mãe do Hubble"

Foto: VOA

Nancy Grace Roman, falecida em 25 de dezembro de 2018, ficou conhecida por ser uma das idealizadoras do Telescópio Espacial Hubble e responsável pela maior parte do planejamento e conceitualização do projeto. Também foi a primeira mulher na NASA a ocupar um cargo executivo.

Nancy nasceu em 1925 no estado do no Tennessee, e já aos onze anos mostrou seu interesse na astronomia ao formar, com seus colegas de classe, um clube para aprender sobre as constelações. Passou a viver em Washington D.C. a partir de 1955, onde, além do trabalho, era ativa na Associação Americana de Mulheres Universitárias, criada em 1881 com o objetivo de buscar avanços para as mulheres nas áreas de ciência e tecnologia.

Entre seus trabalhos de destaque, ela liderou a primeira missão astronômica da NASA em 1962, a Orbiting Solar Observatory-1. Foi chefe de astronomia e física solar da agência entre os anos de 1961 a 1963, ocupando várias posições na agência espacial. Também planejou programas como o HEAO-1, programas de foguetes astronômicos, programas de medição do desvio da gravidade relativa e vários experimentos do Spacelab, Projeto Gemini, Programa Apollo e Skylab.

Seu último programa foi o desenvolvimento do Hubble, no qual se envolveu em tudo desde os primeiros planos - daí ganhou o apelido de "mãe do telescópio Hubble". Edward J. Weiler, um dos principais cientistas da NASA e cientista-chefe do Hubble entre 1979 a 1998, costuma reforçar a importância de Nancy, constantemente esquecida. “Foi Nancy, antes da Internet, do Google, do email e de todo o resto, que conseguiu vender a ideia do telescópio, contratou astrônomos e convenceu o Congresso a financiá-lo”, relata.

Vera Rubin, a "mãe da matéria escura"

Foto: Science Springs

A astrônoma Vera Rubin ficou conhecida por seu trabalho revolucionário que confirmou a existência de matéria escura, um conceito inicialmente teorizado por Fritz Zeicky no início da década de 1930, ao observar o movimento das galáxias em um aglomerado chamado Coma Cluster.

Em 1938, Rubin tinha apenas 10 anos. Sua família mudou-se da Filadélfia para Washington D.C., onde ela ganhou uma janela em seu quarto voltada para o norte. Lá, ela observava o céu noturno girar, fascinada pela sensação do movimento da Terra. Quatro anos depois, ela construiu seu próprio telescópio com o pai e começou a participar de reuniões de astrônomos amadores.

Em 1954, escreveu sua tese de doutorado, que abriu novos caminhos sobre a distribuição espacial das galáxias. Em 1965, ela se tornou a primeira mulher legalmente autorizada a usar o Observatório Palomar no sul da Califórnia, o que lhe permitiu voltar a estudar os movimentos estelares nas galáxias. Suas observações de estrelas orbitando nos arredores das galáxias ajudaram a desencadear uma descoberta notável: a maioria da matéria é invisível.

Quando Zwicky observou o Coma Cluster e o movimento de suas galáxias, concluiu que deveria haver um ingrediente oculto para manter o agrupamento unido. Ele chamou isso de "matéria escura". Décadas depois, Rubin estudou centenas de galáxias, acumulando ainda mais evidências da existência dessa matéria invisível.

Embora a matéria escura ainda seja um mistério nos dias de hoje, é um dos assuntos mais importantes da cosmologia moderna. Estima-se que ela represente 84,5% da matéria total do universo. Em homenagem à pesquisa pioneira de Rubin, o Large Synoptic Survey Telescope, ainda em construção no Chile, mudou seu nome para Vera C. Rubin Observatory.

Cecilia Payne, a "mãe da atmosfera estelar"

Foto: Wikimedia Commons

Cecilia Payne-Gaposchkin tinha apenas 25 anos quando revolucionou a astronomia, dizendo do que são feitas as estrelas. Mas, antes, teve de enfrentar o machismo do meio científico da época. Por exemplo, ela completou os estudos de Física e Química no começo da década de 1920, na Universidade de Cambridge, Inglaterra, mas na época as mulheres não tinham direito a um título universitário oficial.

Decidiu então estudar nos Estados Unidos em busca de oportunidades na astronomia e, em 1923, chegou ao Observatório de Harvard. Lá, tornou-se uma das “mulheres computadores”, com a função de estudar fotografias de estrelas feitas em placas de vidro.

Durante a pesquisa para seu doutorado, a astrônoma chegou à conclusão de que as estrelas são compostas de hidrogênio e hélio. A proposta foi contestada, até mesmo ridicularizada, pelos colegas na época, pois a crença era de que as estrelas tinham uma composição química similar à da Terra.

O famoso astrônomo Henry Norris Russell disse que a conclusão de Payne-Gaposchkin era "claramente impossível", mas em 1929 teve que admitir que ela estava certa. Os atrônomos Otto Struve e Velta Zebergs classificaram a tese de Payne-Gaposchkin como "a mais brilhante já escrita na astronomia". Mais tarde, a tese foi publicada como um livro chamado Stellar Atmospheres (Atmosferas Estelares, em tradução livre).

Amy Davy, curadora do museu de ciências de Londres, escreveu que "o trabalho de Cecilia Payne-Gaposchkin foi inegavelmente importante para nossa compreensão das estrelas e da astronomia. Porém, devido ao seu gênero, teve que trabalhar muito mais para lutar pelo reconhecimento que merecia".

Jocelyn Bell Burnell, a "mãe das pulsares"

Jocelyn também teve que lutar contra um ambiente dominado pelo machismo, dessa vez no meio da astrofísica. Nascida em Belfast, capital da Irlanda do Norte, em 1943, foi descrita como "mansa" por um colega do sexo masculino. Mas ela provou suas capacidades ao vencer inúmeros prêmios, tornando-se uma Dama do Império Britânico, e apontada como a primeira mulher presidente do Instituto de Física.

Seu maior legado, no entanto, foi a descoberta das pulsares - uma estrela pequena, super densa e giratória, que se forma a partir do núcleo colapsado de uma estrela grande como o Sol. Essa foi uma das descobertas astronômicas mais importantes do século XX, porque confirmou ainda mais a Teoria Geral da Relatividade de Einstein.

Como parte de seu doutorado, Burnell ajudou a construir um enorme radiotelescópio, do tamanho de 57 quadras de tênis, projetado para medir quasares - objetos massivos raros que emitem grandes quantidades de energia. Após a conclusão do equipamento em 1967, Burnell foi encarregada de analisar seus dados e viu uma pequena mancha que não se encaixava nos padrões geralmente produzidos pelos quasares.

Quando ela relatou a anomalia ao seu supervisor, ele não achou que fosse algo digno de atenção, e disse que deveria ser uma interferência causada pelo homem. Ela levou meses repetindo testes até que conseguiu comprovar que havia descoberto pulsares. Graças à sua insistência, sabemos hoje que pulsares giram em imensas velocidades, enviando raios de radiação eletromagnética que podem ser detectados quando estão de frente para a Terra - e foi isso que o telescópio de Burnell captou.

Em 1968, suas descobertas foram publicadas na revista Nature, mas a reação em geral não foi o que esperaríamos. Em uma entrevista, Burnell relembrou um artigo intitulado "Garota descobre pequenos homens verdes", que falou sobre sua altura, peito, cintura e quadril. "Eles não sabiam o que fazer com uma jovem cientista", diz ela.

Infelizmente, embora a descoberta tenha ganho o Prêmio Nobel de 1974, Jocelyn Bell Burnell não foi uma das premiadas. Os homenageados foram apenas os supervisores Anthony Hewish e Martin Ryle.

Joan Feynman, a "mãe das auroras"

Foto: BBC

Nascida em 1927 na cidade de Nova York, Joan foi incentivada desde cedo a se dedicar à curiosidade e à ciência. Uma noite, quando Joan era bem jovem, seu irmão Richard a levou pela rua até um campo de golfe nas proximidades e lhe mostrou as cores brilhantes da aurora boreal. Esse fenômeno foi o objeto de estudo de Joan, que futuramente permitira compreender as auroras.

Uma de suas primeiras descobertas foi o fato de que a magnetosfera da Terra é aberta, e não fechada como acreditavam os astrofísicos da época. Ela também mostrou que a magnetosterra terrestre tem uma cauda longa no lado oposto ao Sol, onde o vento solar não sopra. Vários anos depois, no Laboratório de Propulsão a Jato (JPL), da NASA, Joan conseguiu demonstrar que a aurora acontece quando partículas solares penetram na magnetosfera. À medida que essas partículas se misturam com as da magnetosfera, as colisões se manifestam como cores brilhantes.

Ela também estudou ciclos de manchas solares e ejeção de massa coronal (EMC), tempestades solares que podem afetar bastante a magnetosfera e são capazes de desativar satélites e interromper as comunicações terrestres. Na época, os EMCs eram difíceis de identificar. A pesquisa de Joan mostrou que, onde quer que haja EMCs, também haverá um aumento significativo de hélio no vento solar.

Joan se aposentou do JPL em 2002 e passou a estudar o efeito das variações do ciclo solar nas mudanças climáticas e nas anomalias históricas do clima. Aos 93 anos, ela ainda é dedicada a entender as coisas que o Sol faz por aqui, e continua determinada a encontrar explicações para mistérios ainda não solucionados.

Bônus: Hipácia de Alexandria, a "mãe da ciência"

Escolhemos Hipácia de Alexandria como “mãe da ciência” por ter sido a primeira mulher cientista conhecida em nossa História. Ela foi filha de Theon, diretor da famosa Biblioteca de Alexandria, e viveu entre os anos de 355 e 415 d.C.

Hipácia se dedicou ao conhecimento da matemática, astronomia, filosofia, religião, poesia e artes, tornou-se chefe da escola platônica e lecionou filosofia e astronomia, e foi autora de diversas obras literárias que fizeram parte do gigantesco acervo da Biblioteca de Alexandria. Nunca saberemos com exatidão a extensão de sua obra, já que a célebre biblioteca foi destruída em um enorme incêndio.

Mesmo assim, citações sobre seus trabalhos garantiram que seu nome tivesse seu lugar na História. Hipácia foi uma cientista famosa por ser ótima em solucionar problemas matemáticos, e a ela é atribuída a invenção de um hidrômetro aprimorado, do astrolábio (um instrumento naval que era usado para medir a altura dos astros acima do horizonte) e de um instrumento para destilar água.

Em março de 415, Hipácia foi atacada por uma multidão de cristãos, arrastada violentamente pelas ruas de Alexandria, e levada a uma igreja onde foi torturada e assassinada por ser considerada “herege”. Seu corpo foi jogado em uma fogueira e, para os estudiosos, este foi o marco do fim da Antiguidade Clássica e do início da queda da vida intelectual em Alexandria.

Hipácia foi uma mulher solteira dedicada às ciências - costumava dizer que era “casada com a verdade” quando questionada a respeito de nunca ter se casado com um homem. Por este e outros motivos, foi morta por aqueles que desejaram apagar sua existência e tudo o que representou. Mas sua memória permanece, assim como seu legado, levado adiante por outras mulheres da ciência até os dias de hoje.

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