Como a programação passou do pioneirismo feminino para o "clube do bolinha"

Por Patrícia Gnipper | 19 de Junho de 2017 às 17h40

O “clube do bolinha” que conhecemos como a indústria da informática e o universo da programação nem sempre foi uma área dominada pelos “cuecas”. Na verdade, esse mercado começou com o pioneirismo de várias mulheres, antes que o gênero masculino dominasse a indústria.

As “computadoras”

Jean Jennings Bartik foi uma mulher que estudou matemática na década de 1930, e trabalhou junto com outras mulheres como “computadora” durante e depois a Segunda Guerra Mundial. Bartik e suas colegas faziam cálculos complexos, como a trajetória de foguetes militares e o volume de artilharia de acordo com a quantidade de soldados levantando suas armas. Para se ter uma noção da complexidade do trabalho, cada um desses cálculos levava mais de 30 horas para ser completado.

Até que, em 1945, Bartik ficou sabendo de uma vaga de trabalho no ENIAC, que foi o primeiro computador eletrônico de larga escala já construído, sendo capaz de realizar cálculos de trajetórias muito mais rapidamente do que pelos métodos tradicionais. E, apesar do ENIAC ter sido construído por homens, foram mulheres que desenvolveram seus programas (sendo que essa tarefa considerada tediosa era comumente atribuída a mulheres). Pois é, enquanto homens preferiam trabalhar na criação de hardwares, mulheres ficavam com a parte matemática da coisa, fazendo um trabalho que, até então, não tinha lá muito prestígio e pagava pouco.

Jean Jennings Bartik e colega trabalhando no ENIAC (Reprodução: Divulgação)

Um exemplo da falta de reconhecimento que essas mulheres enfrentavam em seu trabalho se deu na primeira demonstração pública do ENIAC. Na noite anterior, a máquina apresentou um defeito em seu funcionamento, e Bartik, junto de outra “computadora” chamada Betty Jennings, conseguiram resolver o problema, fazendo com que a demonstração fosse um sucesso. No entanto, seus nomes sequer foram mencionados pela imprensa que divulgou o feito histórico, e a dupla também não foi convidada para o jantar de comemoração do projeto.

A criação do COBOL

Depois do final da segunda grande guerra, Bartik e suas colegas, que ficaram conhecidas como as “ENIAC Girls”, foram trabalhar na UNIVAC, onde conheceram Grace Hopper, que vinha estudando uma maneira mais fácil de programar computadores. Então, Hopper acabou desenvolvendo uma linguagem capaz de fornecer instruções às máquinas por meio de palavras em inglês, e foi aí que nasceu o COBOL, fazendo com que sua criadora ficasse conhecida como a “vovó do COBOL”. Sua criação é tão relevante que o COBOL ainda é utilizado nos dias de hoje, especialmente por instituições bancárias e órgãos governamentais.

Grace Hopper, que criou o COBOL (Reprodução: Divulgação)

Na época de seu desenvolvimento, cerca de 30 a 50% das pessoas que trabalhavam com algum tipo de programação eram mulheres. Mas já nos anos 1950 a coisa começava a mudar, à medida em que a programação passou a ser reconhecida como uma atividade intelectual e também enquanto os salários começavam a aumentar. Foi a partir daí que essa atividade começou a atrair o interesse de mais homens, que dominaram a indústria e passaram a desencorajar empresas a contratar mulheres para a função.

Nasceu, então, o “clube do bolinha”

A partir daí, até mesmo campanhas de publicidade passaram a estampar mulheres como seres intelectualmente inferiores, e diversos anúncios sexistas e machistas começaram a surgir, influenciando toda aquela geração, bem como as gerações que estavam por vir. Foi quando começou a surgir o estigma de que os melhores programadores eram aqueles anti sociais, característica que ficou associada ao gênero masculino uma vez que “mulheres falam demais”, de acordo com a errônea crença popular.

Então chegaram os anos 1980, década que ficou marcada como o início da era da computação pessoal. Apesar de mulheres terem se destacado nesse mercado, como Susan Kare, que revolucionou o design gráfico graças a seu trabalho pioneiro nos primeiros anos da Apple, o estereótipo do programador “estranhão” e extremamente nerd ficou cada vez mais marcado no imaginário popular, sendo reforçado pela ascenção de figuras como Steve Jobs e Bill Gates.

Steve Jobs e Bill Gates enquanto jovens, reforçando o estereótipo do nerd "estranhão" (Reprodução: Divulgação)

Até mesmo os primeiros videogames eram anunciados tendo o público masculino como alvo, como se mulheres e meninas não fossem se interessar pela novidade chamada jogos eletrônicos. Hoje em dia, as mulheres são a metade do público gamer, por exemplo.

O século XXI e a diversidade

Contudo, as coisas estão mudando e, atualmente, a sociedade tem visto um crescente aumento no número de mulheres que se interessam por ciência, tecnologia e games, tentando superar tantos preconceitos e estereótipos que foram construídos ao longo de tantas décadas. Enaltecer o trabalho histórico e pioneiro de mulheres como Jean Jennings Bartik e Grace Hopper faz parte dessa mudança, e já temos visto um número cada vez maior de pessoas do gênero feminino estudando e trabalhando com ciência e tecnologia.

Aos poucos, o “clube do bolinha” vai se desmanchando, dando espaço para um mercado tecnológico mais inclusivo, abrangente e diversificado — abrindo as portas, inclusive, para pessoas transexuais, bem como quebrando as barreiras do preconceito para com gays e lésbicas, e pessoas de etnias que vão além do padrão europeu e americano.

Com informações de Timeline/Josh O'Connor

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