ESG: o que é e por que as big techs estão de olho nisto?

Por Stephanie Kohn | 05 de Agosto de 2020 às 17h28

Se você acompanha as notícias do mercado financeiro já teve ter ouvido falar de ESG, mas se nunca ouviu o termo, fique tranquilo, vamos explicar. Estas três siglas têm sido utilizadas por consultores financeiros, bancos e fundos de investimento para avaliar empresas de acordo com seus impactos e desempenho em três áreas: Meio Ambiente, Social e Governança Corporativa, ou, em inglês: Environment, Social and Governance (ESG).

Os critérios do ESG abastecem o mercado com mais informações sobre as companhias. As métricas ambientais ajudam a entender o relacionamento da empresa com o mundo natural e a sua dependência de recursos naturais. As sociais revelam potenciais preocupações com os direitos humanos, relações trabalhistas, comunidades e público. E a boa governança tornam as empresas mais confiáveis e menos propensas a ceder a corrupção ou coerção.

"O ESG está ligado a processos e não a produtos. São processos que uma empresa cria para ter uma melhor governança, cuidar do meio ambiente e da sociedade - seja dentro ou fora da companhia. É uma cultura que se estabelece da porta para dentro da empresa e que não pode se restringir ao conselho ou diretoria da corporação", explica Fabio Alperowitch, diretor da FAMA Investimentos.

E o que isso tem a ver com tecnologia, você deve estar se perguntando. Bom, como mencionado acima, investidores, especialmente de fora do Brasil, têm olhado para esses atributos em uma empresa antes de alocar seu dinheiro nelas e, portanto, companhias de capital aberto estão se engajando nestas áreas para atrair mais investimentos. Sendo assim, as empresas de tecnologia não estão ficando para trás.

Vale lembrar que as cinco maiores empresas do setor – Apple, Microsoft, Amazon, Google e Facebook – juntas representam hoje cerca de 25% do S&P500, índice composto por ativos das bolsa de valores NYSE (Nova Iorque) e NASDAQ, que reúne as 500 maiores empresas dos Estados Unidos.

Sendo assim, nos últimos anos, especialmente nos últimos meses, as big techs têm surfado a onda ESG e anunciado compromissos globais com o meio ambiente, iniciativas para ajudar a comunidade a sua volta, e metas para aumentar a diversidade de seus colaboradores. Isso demonstra que o setor de tecnologia está empenhado em aplicar práticas e a cultura ESG em suas operações.

Apple e Microsoft, por exemplo, anunciaram nas últimas semanas que querem se tornar neutras em carbono até 2030. A Amazon declarou que, até 2040, não irá mais emitir CO2 e terá até 2025 para substituir toda energia de suas operações para renováveis. A Intel pretende ter 40% de mulheres em posições técnicas até 2030 e a SAP quer ter 30% de mulheres em cargos de liderança em cinco anos. HP, Dell, Google, IBM e outras também se mostraram engajadas com os temas, cada uma a sua maneira.

Velho Capitalismo x Novo Capitalismo

Antigamente o que era visto como uma boa empresa para se investir era uma corporação que apenas maximizava os lucros e o instrumento para isso era apertar os fornecedores, reduzir custos, colocar o colaborador para trabalhar mais e etc. Contudo, a maneira como as empresas tentavam aumentar os ganhos onerava todos a sua volta e uma hora o modelo se esgotou.

"O turnover [substituição] de funcionários era grande, a relação com o fornecedor era ruim. Tudo aquilo que parecia ser redutor de lucro se mostrou justamente o contrário. Com menos trocas de funcionários, havia mais produtividade, os clientes e fornecedores ficavam mais felizes e o lucro aumentava. Eles entenderam que esse jogo é mais bem jogado", ressalta o gestor.

Assim, aos poucos foram surgindo empresas que antagonizam com o capitalismo tradicional. As corporações começaram a entender que, ao contemplar todos os stekeholders [todas as partes interessadas na empresa], tudo melhora, especialmente os resultados.

"ESG é sobre treinar pessoas, tratar clientes, fornecedores e colaboradores bem, ajudar a comunidade a sua volta, criar um bom ambiente de trabalho, não comprometer a natureza. É uma virada de chave que muda da velha economia para a nova", completa.

O comentário de Fabio corrobora com um estudo realizado pela Nielsen, feito há cinco anos. A consultoria entrevistou cerca de 30 mil pessoas de 60 países diferentes e descobriu que 66% dos entrevistados estavam dispostos a pagar mais por produtos e serviços de companhias responsáveis - seja em relação ao meio ambiente ou social. Quer dizer, não são somente os investidores que estão cobrando as companhias por mais engajamento, mas a demanda vem dos próprios clientes.

"O consumidor tem o maior poder. E com a troca geracional esse poder será ainda maior. O poder das redes sociais, da conversa… Se a escuta das empresas for genuína, se a área pública conseguir escutar as demandas, vai entender o que deve ser feito. E se a empresa não escutar os consumidores já é prenúncio de que não entenderam muito bem", finaliza o gestor.

Para explorar mais esta tendência que veio para ficar, o Canaltech falou com grandes empresas do setor e vai apresentar, em uma série inédita, os projetos de cada uma delas nos segmentos mencionados (Meio Ambiente, Social e Governança). Não deixe de nos acompanhar para conhecer mais profundamente as estratégias das companhias que fazem parte do nosso dia a dia. No primeiro episódio, mostraremos as propostas da SAP. Até lá!

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