O que falta para os Moto G da Motorola voltarem a empolgar?

O que falta para os Moto G da Motorola voltarem a empolgar?

Por Diego Sousa | Editado por Léo Müller | 24 de Março de 2022 às 14h25
Eric Mockaitis/Canaltech

Ainda que bem atrás da Samsung, a Motorola segue firme como segunda maior marca de celulares do Brasil. Segundo dados da Statcounter, a fabricante fechou o último ano de 2021 com 21,39% de participação, enquanto a Apple terminou em 3º lugar, com 15,08%.

No entanto, se analisarmos ano a ano, o crescimento da Motorola foi tímido, com menos de 1%. E como os Moto G são o carro-chefe da marca, será que eles deixaram de empolgar os consumidores nas últimas gerações? O que falta para eles voltarem a gozar do status que já tiveram no passado?

A Samsung pode não ter muito a ver com isso, sendo que a coreana vem perdendo market share (participação de mercado) com a ascensão da chinesa Xiaomi por aqui. Sendo assim, o que poderia explicar esse crescimento mínimo da Motorola no mercado brasileiro?

Ela mudou bastante sua estratégia desde 2019, fazendo o seu retorno no segmento premium com a linha Edge, além do lançamento de muitos celulares Moto G para conquistar os "viúvos" fãs da LG.

Só para você ter uma noção, eu apurei que, só em 2021, a Motorola lançou 18 smartphones no Brasil, sendo 11 modelos Moto G, três Moto E, três Edge e um gamer, sob o nome Lenovo Legion Duel.

Para responder às perguntas acima, conversei com alguns colegas profissionais da área de tecnologia no Brasil para tentar entender em que departamentos a Motorola tem deixado a desejar em relação aos concorrentes, e também citar algumas características não que podem faltar em um aparelho atualmente.

Renovação da linha Moto G

Não é novidade para ninguém que a linha Moto G é uma das mais populares do mundo — e, talvez, a mais famosa no Brasil. Dados de 2020 revelaram que a família de intermediários ultrapassou a marca de 100 milhões de unidades vendidas, sendo 40 milhões somente no nosso país.

Na época, em conversa com o Canaltech, o chefe de Produtos da Motorola no Brasil, Thiago Masuchette, nos disse que o sucesso da família de aparelhos se deu principalmente por “oferecer recursos premium a preços a acessíveis, trazendo inovação a cada nova geração”.

De fato, a família Moto G8 foi muito bem-sucedida no nosso mercado, inclusive vencendo na categoria “Campeões de venda Magalu”, da 4ª edição do Prêmio Canaltech, a mais importante premiação do mercado de Tecnologia do Brasil.

Linha Moto G8 foi campeã de vendas no Magalu (Imagem: Felipe Junqueira/Canaltech)

Bom, mas não é muito difícil apontar alguns possíveis motivos pelos quais a linha G deixou de empolgar após o tão acertado Moto G8. Após o Moto G9 (2020), a empresa optou por uma reestruturação na nomenclatura, trocando o “G-X” (que indicava a geração atual) por “G-XX” (quanto menor o número, mais básico).

Esse novo modo de nomear os aparelhos, apesar de confuso para o usuário, permite explorar mais o nome da marca e assim, lançar mais produtos — atualmente, a Samsung faz o mesmo com as linhas Galaxy A e M, ambas focadas no segmento básico e intermediário.

O problema é que, diferentemente dos aparelhos da Samsung, os quais conseguimos distingui-los em seus setores pelas características, na Motorola temos modelos que se perdem na sua própria família.

Por exemplo, em março de 2021, a Motorola apresentou o Moto G30 ao mercado brasileiro. Basicamente, ela reaproveitou as especificações do antigo G9 Play, adicionando apenas um novo visual e uma tela mais fluida, algo muito pedido pelos consumidores.

Alguns meses depois, a marca lançou o Moto G20, que teoricamente deveria ser menos potente que o G30, mas apresenta um hardware ligeiramente melhor, sendo inferior apenas nas câmeras de menor resolução e nas atualizações do Android.

Moto G30 é menos potente que o G20 e vai receber uma atualização do Android (Imagem: Divulgação/Motorola)

Outro exemplo mais recente que chamou bastante atenção foi o lançamento do Moto G200, o Moto G mais potente da Motorola até o momento.

Apesar de oferecer alto desempenho, o smartphone deixou a desejar por não trazer uma tela de brilho mais forte, resistência contra água e poeira, alto-falante estéreo e mais atualizações do Android. Além disso, seu preço sugerido era alto no lançamento: R$ 4.999.

Simultaneamente, tivemos a apresentação dos Moto G31 e G71, ambos consideravelmente menos potentes que o irmão maior, porém trazendo uma tela OLED de maior qualidade, algo que muitos dispositivos mais caros já possuem.

Felipe Junqueira, analista de Produtos do Canaltech, lembra que a Motorola foi a primeira a lançar um intermediário bom e barato, com promessa de atualizações por mais tempo que a concorrência. Não se passaram nem dez anos que o primeiro Moto G foi apresentado, e a empresa se deixou ultrapassar por todas as concorrentes.

“Na minha opinião, a venda para a Lenovo mudou muito os rumos da Motorola. A empresa ainda está para trás em qualidade de câmeras, e já não está mais tão à frente dos outros em fluidez. Nem mesmo os preços são mais vantajosos se compararmos à concorrência.”

Comparação com os concorrentes

A Motorola compete com a Samsung em todos os segmentos — mais recentemente, no de topo de linha —, e é perceptível que os aparelhos da norte-americana deixam a desejar em relação à rival.

O Moto G200, principal smartphone da linha atualmente, é um grande exemplo disso. Ele chegou ao mercado brasileiro chamando atenção pelo chipset Snapdragon 888 Plus, mas deixou de lado grandes departamentos, como atualização de software e câmera.

O Moto G200 aposta em alto desempenho, porém deixa a desejar em outros departamentos (Imagem: Ivo Meneghel Jr./Canaltech)

Esses dois tópicos são muito citados por profissionais da área e usuários como os principais pontos negativos dos dispositivos da marca norte-americana. Afinal, faz sentido você ter um smartphone extremamente potente sabendo que não poderá aproveitar novos recursos do Android por muito tempo?

Por que um dispositivo tão potente — e caro, diga-se — como Moto G200 não tem garantia de atualização para o Android 13, enquanto celulares intermediários da Samsung, como os Galaxy A52 e A72, muito mais baratos, receberão upgrades geracionais até o futuro Android 14?

É unanimidade que a Motorola nunca foi referência em câmeras, mas chama atenção que, conforme os anos passam, a qualidade das fotos dos smartphones da empresa não apresenta uma melhora tão visível, como acontece em modelos concorrentes.

Aqui, sairei da esfera Moto G e contarei um pouco da minha experiência com o Edge 30 Pro, celular mais premium da Motorola até o momento.

Ele chegou ao Brasil com números de câmera impressionantes, incluindo dois sensores traseiros de 50 MP e uma frontal de inéditos 60 MP.

O Edge 30 Pro veio com números de câmera impressionantes, incluindo uma câmera frontal de 60 MP (Imagem: Ivo Meneghel Jr./Canaltech)

No entanto, na prática, o conjunto fotográfico ficou aquém do esperado para um aparelho desta categoria: a câmera ultrawide é extremamente limitada, não oferecendo nem gravação em 4K.

Quando perguntada pelo Canaltech sobre essa limitação nas câmeras do Edge 30 Pro, a Motorola afirmou que não incluiu essa possibilidade no aparelho por não ver “usabilidade e necessidade”.

Em contrapartida, empresa também nos contou que incluiu um sensor de profundidade de 2 MP — pouco útil — porque a lente teleobjetiva do Edge 20 Pro foi pouco utilizada, e os usuários “prefeririam outras coisas”.

Enquanto isso, na concorrência, temos o Samsung Galaxy S22+, que não poupa recursos e oferece quatro updates geracionais e cinco anos de atualização de segurança do Android, além de gravação em 4K/60 fps com todas as câmeras. Se o usuário não quiser usar, tudo bem, pelo menos saiba que a possibilidade existe. Ah, e os preços de ambos são equivalentes.

Darlan Helder, jornalista e analista do Tecnoblog, analisa que, ao acompanhar o feedback dos consumidores, sobretudo aqueles mais exigentes, fica ainda mais evidente a falta de cuidado em algumas áreas. A política tímida de atualizações do Android e a ausência de recursos avançados em celulares topos de linha são alguns dos problemas.

"Enquanto Samsung, Realme e Xiaomi se mostram confortáveis em praticamente todas as categorias, a empresa estadunidense tem acertado apenas na faixa de intermediários premium e, ainda assim, com algumas ressalvas."

O que falta para os Moto G (e a Motorola) voltarem a empolgar?

Não dá para simplesmente pedir que a Motorola retorne às origens e lance celulares “bons e baratos”. O preço médio dos aparelhos aumentou bastante nos últimos anos e, atualmente, aparelhos básicos ultrapassam a faixa de R$ 1.500; e intermediários, dos R$ 3.000.

Ainda assim, acredito ser possível fazer um aparelho com conjunto equilibrado que bata de frente com os concorrentes. No caso dos modelos mais caros da família Moto G, já passou da hora de oferecer som estéreo, algo tão básico e presente em muitos celulares simples.

O Galaxy A72 já oferece som estéreo e resistência a água e poeira (Imagem: Ivo Meneghel Jr./Canaltech)

Além disso, mesmo mantendo uma construção mais simples, incluir um corpo mais resistente a água e poeira que não seja o já datado “revestimento repelente à água” também adicionaria uma camada extra de valor aos aparelhos, pois é algo que os Galaxy A mais caros já possuem.

Já o departamento fotográfico precisa de uma maior atenção por parte da Motorola. A qualidade das imagens segue abaixo dos concorrentes, os quais vêm focando cada vez mais em criação de conteúdo, e isso acaba afastando os usuários que procuram aparelhos com boas câmeras.

Para Felipe Junqueira, uma possível estratégia para Motorola seria se aceitar como alternativa acessível e reduzir os preços, pois, a partir daí, o usuário decide se quiser gastar para ter mais recursos ou não.

Além disso, entregar mais atualizações de sistema é algo imprescindível em aparelhos de alto nível. A Samsung dificultou ainda mais para concorrentes ao anunciar incríveis quatro anos a alguns modelos, portanto um ano para os Moto G e dois para os Edge ficaram ainda mais tímidos.

Por fim, Daniel Justino, criador do canal do YouTube EpicGeek, diz que a Motorola tem buscado, nos últimos anos, mudar a imagem de que é uma fabricante apenas de aparelhos básicos e intermediários avançando gradativamente com lançamentos visando o público premium. Mas a caminhada é longa.

“Ela precisa entregar mais aos usuários e correr atrás de diminuir a distância da sua principal concorrente, a Samsung. Investir em mais atualizações, implementar resistência contra água e poeira, e recursos adicionais no campo das câmeras, já é um bom começo.”

E para você, o que falta para os Moto G (e a Motorola) voltarem a empolgar no nosso mercado? Deixe seu comentário nas nossas redes sociais!

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