Governo da China prefere encerrar o TikTok nos EUA do que ser forçado a vendê-lo

Por Redação | 11 de Setembro de 2020 às 20h15
Solen Feyissa/Pixabay
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Se muita gente estava achando a China meio passiva diante das repetidas ações de Donald Trump contra suas empresas, é melhor rever seus conceitos. Pouco a pouco, o país vem mostrando suas garras. Isso porque o governo chinês vem se mostrando contrário a uma venda forçada das operações do TikTok nos EUA pela sua controladora, a ByteDance. E, segundo fontes envolvidas no tema, as autoridades públicas chinesas preferem encerrar a plataforma em território norte-americano do que ser coagida a vendê-la. As informações são da agência de notícias Reuters.

Em agosto, Trump assinou uma ordem executiva que proíbe as atividades do TikTok nos EUA, sob a alegação de que a plataforma envia dados dos americanos ao governo chinês. Na sequência, o presidente exigiu que as operações do app deviam ser vendidas a uma empresa norte-americana, estipulando que o acordo seja finalizado até meados de setembro. Com isso, a ByteDance está em negociações para vender suas operações do TikTok no país. Entre os potenciais compradores, estão a Microsoft, o Walmart e a Oracle.

Mas há um governo chinês no meio do caminho

No entanto, as fontes citadas pela Reuters, afirmaram que as autoridades chinesas acreditam que uma venda forçada faria com que ByteDance e a China parecessem fracos diante da pressão de Trump. Duas delas disseram que o governo chinês está disposto a usar as revisões feitas em sua lista de exportações de tecnologia para atrasar qualquer acordo fechado pela ByteDance, se for necessário.

Basicamente, essa nova lista de tecnologias sob controle de exportação, anunciada em 28 de agosto, traz uma surpresa indigesta para os EUA. Isso porque ela determina que os algoritmos de recomendação, como os usados pelo TikTok, controlado pela ByteDance, agora fazem da relação e são considerados "exportações parcialmente restritas".

Xi Jinping: presidente da China não quer facilitar a venda das operações do TikTok nos EUA (Foto: Wikimedia / Creative Commons)

Em outras palavras, para que as operações norte-americanas do TikTok sejam vendidas, como determina a ordem executiva de Trump, agora é preciso uma autorização do governo chinês. Que, como você leu acima, não demonstra nenhuma vontade em ceder.

Jeitinho

A Reuters informou que os compradores em potencial da TikTok estavam discutindo com a ByteDance quatro maneiras de estruturar a aquisição do app. Em um deles, a controladora do app poderia avançar com a venda com os ativos da plataforma nos EUA sem a aprovação do ministério do comércio da China, mas incluir sem algoritmos-chave, como os de recomendação.

Feito nesse formato, a operação de venda não precisaria passar pelo governo chinês, já que apenas os algoritmos em questão fazem parte da lista de tecnologias que precisam da aprovação das autoridades da China.

Os reguladores chineses disseram na semana passada que as regras de exportação de tecnologias não eram direcionadas a empresas específicas, mas reafirmaram seu direito de aplicá-las. Já a ByteDance disse em um comunicado à Reuters que o governo chinês nunca sugeriu que fechasse a TikTok nos Estados Unidos ou em qualquer outro mercado.

Zhang Yiming, CEO da ByteDance: no meio do fogo cruzado entre os governos dos EUA e China (Foto: Divulgação)

Questionado nesta sexta-feira sobre Trump e TikTok, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Zhao Lijian, disse em uma coletiva de imprensa que os Estados Unidos estavam abusando do conceito de segurança nacional e instou-os a parar de oprimir empresas estrangeiras.

Trump também já deu "canetada" em negociações

Caso Trump resolva reclamar da intervenção do governo chinês em uma negociação de "livre mercado", alguém do seu staff precisará lembrá-lo de que ele não tem muita moral para isso. Isso porque, em março de 2018, ele deu uma "canetada", impedindo que a Qualcomm fosse comprada pela Broadcom, em uma negociação avaliada em US$ 140 bilhões.

Para justificar que a aquisição fosse em frente, Trump afirmou que tinha "provas críveis" de que o acordo "ameaça prejudicar a segurança nacional dos Estados Unidos". Naquela época, o governo norte-americano já estaria preocupado em proteger as companhias do país contra o crescimento das empresas chinesas, principalmente nos setores de semicondutores e também no de telefonia móvel - em 2018, a Huawei ainda não ocupava o posto de segunda maior fabricante de smartphones do mundo, o que só ocorreu neste ano, quando ela ultrapassou a Apple.

Donald Trump: presidente também já deu suas canetadas em negócios envolvendo empresas de seu próprio país (Foto: Andrea Hanks/Fotos) Públicas

Caso o negócio fosse concretizado, a união entre Qualcomm e Broadcom formaria uma empresa que seria a terceira maior do mundo no mercado de chips, atrás apenas de Intel e Samsung. Mas o fato é que, logo depois da intervenção de Trump, a Broadcom resolveu desistir da aquisição.

Ataque e contra-ataque

Além de meter o bedelho na Qualcomm, Broadcom e TikTok, Trump também mirou em outras companhias. A chinesa Huawei é a sua principal vítima. Sob a acusação - nunca provada - de que a fabricante vem usando sua infraestrutura para enviar dados dos cidadãos dos EUA para o governo chinês, Trump baniu os equipamentos da Huawei do país - principalmente aqueles que formarão a rede 5G em seu território. De quebra, ele vem pressionando para que nações aliadas façam o mesmo.

Além disso, além do 5G, Trump também atacou a divisão de smartphones da Huawei. Para atingi-la, o Departamento de Comércio norte-americano, criou em maio restrições com o objetivo de impedir que a fabricante chinesa obtenha semicondutores sem uma licença especial - e isso inclui chips feitos por empresas estrangeiras, mas que foram desenvolvidos ou produzidos com software ou qualquer outra tecnologia criada nos EUA.

O governo norte-americano também acrescentou 38 afiliadas da Huawei em 21 países à lista suja econômica do governo dos EUA, em resposta às supostas tentativas da fabricante de obter os chips disponíveis comercialmente se passando por terceiros. Com tantas restrições, há fortes rumores de que a Huawei deixará de fabricar seus chipsets Kirin já neste mês.

E para se proteger da intempestividade dos EUA, as autoridades chinesas estão planejando um amplo conjunto de novas políticas públicas para desenvolver sua indústria doméstica de semicondutores.

Huawei: o alvo preferido de Trump (Foto: divulgação)


Segundo uma reportagem do site de notícias Bloomberg, a evolução da indústria de chips chinesa ganhou o mesmo tipo de prioridade que o governo dedicou à construção de sua capacidade atômica. Pequim está preparando um amplo apoio para os chamados semicondutores de terceira geração para os próximos cinco anos - ou seja, até 2025, a China não quer mais depender de tecnologia estrangeira para desenvolver seus processadores, de acordo com pessoas, próximas às deliberações do governo local. ,

Para isso, um conjunto de medidas para fortalecer a pesquisa, educação e financiamento para a indústria foi adicionado a um esboço do 14º plano de cinco anos do país, que será apresentado aos principais líderes do país em outubro deste ano. É neste evento que as autoridades públicas se reúnem para traçar sua estratégia econômica para a próxima meia década, incluindo esforços para aumentar o consumo doméstico e internalizar a tecnologia considerada crítica.

O presidente Xi Jinping prometeu cerca de US $ 1,4 trilhão até 2025 para tecnologias que vão desde redes sem fio à inteligência artificial. Os semicondutores são fundamentais para praticamente todos os componentes das ambições tecnológicas da China - e uma administração Trump cada vez mais agressiva ameaça cortar seu fornecimento do exterior.

Fonte: Reuters  

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