Projeto Galileo vasculhará o espaço à procura de visitantes interestelares

Projeto Galileo vasculhará o espaço à procura de visitantes interestelares

Por Daniele Cavalcante | Editado por Patrícia Gnipper | 26 de Julho de 2021 às 14h00
MasterTux/Pixabay

Quando os astrônomos observaram pela primeira vez um objeto espacial que veio de fora do nosso Sistema Solar, toda a comunidade científica ficou surpresa com as características do visitante — ele não se parecia com nada que já havíamos visto antes. Infelizmente, ele foi embora antes que pudesse ser bem analisado, mas um novo projeto quer deixar tudo pronto para estudar o próximo objeto interestelar, assim que for detectado.

Batizado de 1I/ʻOumuamua, o objeto tinha um comportamento muito semelhante ao de um cometa, mas sem apresentar a característica cauda. Ele também tinha um formato esquisito, semelhante a uma grande panqueca espacial. Ninguém soube dizer o que ele poderia ser até o início de 2021, quando finalmente uma hipótese explicou todas as características do objeto: tratava-se de um pedaço de gelo arrancado de um “exoplutão”.

Embora o método científico diga que a proposta mais plausível deve sempre ter a preferência, até que ela falhe ao ser comparada com dados observacionais ou colocada à prova em experimentos, alguns pesquisadores ainda argumentam que o 1I/ʻOumuamua poderia ser uma nave alienígena. Entre estes, está Avi Loeb, professor na Universidade de Harvard que defende a hipótese de se tratar de objeto artificial em um livro publicado no início do ano.

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Quando publicou seu livro, Loeb ganhou a atenção da mídia e de interessados no assunto, em especial pessoas com dinheiro o suficiente para financiar a proposta de colocar telescópios para vigiar o céu constantemente, à procura do próximo visitante interestelar. Se pudermos encontrar um desses objetos antes que ele já esteja deixando o Sistema Solar, é possível que os cientistas descubram sua natureza, principalmente se for uma nave alienígena.

O provável formato do Oumuamua (Imagem: Reprodução/William Hartmann)

Projeto Galileo entra em cena

Assim, o Projeto Galileo foi anunciado, com seus lados positivos, assim como alguns questionamentos válidos. É sempre bom ter instrumentos monitorando o espaço para desvendar alguns mistérios, principalmente após a divulgação da filmagem de um OVNI feita pela Marinha dos Estados Unidos. Aliás, o projeto de Loeb também ficará de olho nos artefatos que possam ser encontrados aqui, abaixo da órbita terrestre. Mas não só isso, é claro — o Galileo usará telescópios adquiridos com financiamento privado e pretende também contar com instrumentos como o Observatório Vera Rubin em construção no Chile.

A comunidade científica, por outro lado, parece relativamente dividida. Há pessoas que apoiam a iniciativa, como Adam Frank, da Universidade de Rochester. “Vamos aprender muito sobre essas coisas, sejam elas o que forem”. Jason Wright, diretor do Penn State Extraterrestrial Intelligence Center, famoso por elaborar a hipótese de que a estrela de Taby seria uma megaestrutura alienígena, também apoia o Projeto Galileo. “Todos ficariam emocionados ao ver de perto algo como 'Oumuamua”, disse ele.

Ninguém discordaria de Wright e Frank, mas há quem questione a necessidade de colocar mais instrumentos procurando por vida alienígena. É que já existe, há quase 40 anos, o Instituto SETI, do qual Carl Sagan fez parte, dedicado à tarefa de buscar sinais de inteligência extraterrestre. Mas Loeb entrou em conflito com a organização no início deste ano quando elevou o tom ao falar com a Dra. Jill Tarter, uma das fundadoras do SETI, sobre pedido de financiamento em uma conferência online.

Esse não foi o único episódio em que Loeb criou tensão ao tratar do assunto com seus colegas, e isso fica claro em suas entrevistas, sempre marcadas pela palavra “conservadorismo”. É que Loeb acusa a comunidade científica por não demonstrar “mente aberta” quando o assunto é a possibilidade de o Oumuamua ser uma nave alienígena. À Dra. Jill Tarter, Loeb se queixou de sofrer “bullying” dos cientistas céticos.

A possível tragetória do Oumuamua, na hipótese do gelo de "exoplutão" (Imagem: Reprodução/Créditos: S. Selkirk/ASU)

Alan Fitzsimmons, da Queen's University Belfast, co-líder da equipe de investigação do 'Oumuamua organizada pelo International Space Science Institute, lembra que já existem redes de alerta para vasculhar os dados de telescópios, de hora em hora, em busca de objetos interestelares que se aproximam. Ele também acrescenta que a Agência Espacial Europeia está trabalhando em uma missão chamada Comet Interceptor, a ser lançada em 2028, para ficar em órbita esperando por um possível visitante interestelar.

A existência dessas iniciativas e do próprio SETI são prova de que os astrônomos, por mais conservadores que sejam, estão sempre atentos à qualquer oportunidade para encontrar sinais de vida alienígena. Prova disso é o episódio da suposta fosfina em Vênus, que logo ganhou destaque na própria comunidade científica, com muitos interessados em investigar melhor o assunto. Infelizmente, um novo estudo acabou por mostrar que, provavelmente, a substância encontrada na atmosfera venusiana era dióxido de enxofre — o que nos mostra mais uma vez que, para se fazer alegações extraordinárias, é preciso ter evidências extraordinárias. E é ótimo saber que Loeb está atrás de cumprir este requisito.

Fonte: Science Mag

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