Gás do meio interestelar formou "nuvem órfã" solitária em aglomerado de galáxias

Gás do meio interestelar formou "nuvem órfã" solitária em aglomerado de galáxias

Por Danielle Cassita | Editado por Patrícia Gnipper | 29 de Junho de 2021 às 13h00
Ge et al (2021)

Em 2017, observações feitas com o telescópio Subaru, no Japão, revelaram uma nuvem de gás desconhecida no aglomerado Abell 1367, que conta com cerca de 70 galáxias. Depois, novas observações feitas com o telescópio XMM Newton, da Agência Espacial Europeia (ESA), revelaram que, na verdade, se trata de uma “nuvem órfã”, que existe sozinha em meio ao aglomerado. Essa é a primeira descoberta de uma nuvem do tipo, cujas emissões de raios X da nuvem indicam que ela é maior até do que a Via Láctea. 

Os aglomerados de galáxias podem abrigar de algumas dezenas a milhares delas, que ficam unidas pela ação da gravidade. Essas galáxias podem ter diferentes características, mas, geralmente, abrigam várias estrelas e planetas junto do material que preenche o meio entre as estrelas. Nisso, o meio entre aglomerados, aquele que existe entre as galáxias, é ocupado por gás quente — e o novo estudo mostrou que este gás pode ser arrancado da galáxia, indo parar em uma região isolada do aglomerado.

Estudos recentes de raios X mostraram que estes aglomerados podem ter “bolsas” de gás, que são, na verdade, o gás existente entre as estrelas das galáxias individuais. Já o gás entre os aglomerados atua como um vento forte, capaz de arrancar o gás interestelar da galáxia que se move pelo aglomerado. Mas, até agora, nunca houve observações que mostrassem que essas bolsas de gás são feitas do material interestelar “arrancado”. 

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Aqui, a nuvem órfã aparece em azul; a parte dela que foi descoberta em 2017, em vermelho, se sobrepõe aos raios X, na parte inferior (Imagem: Reprodução/Ge et al (2021)

Assim, a observação do gás quente evidencia que esta nuvem órfã veio de uma galáxia. Esta é a primeira vez em que uma formação assim, entre aglomerados, foi observada em raios X e pela luz emitida pelo gás quente que a forma. Além disso, a sobrevivência da nuvem é algo surpreendente por si só; afinal, ela está isolada e não tem associação com nenhuma galáxia, e mesmo assim segue flutuando no espaço entre as galáxias há bastante tempo. A nuvem é a formação azul na imagem acima, onde os raios X estão indicados em azul, o gás quente aparece em vermelho, e a região visível, em branco. 

O material interestelar é bem mais frio que o material entre os aglomerados e, além disso, a temperatura da nuvem corresponde àquela do gás entre as estrelas. Os pesquisadores descobriram que um campo magnético da própria nuvem pode ter ajudado ela a resistir às instabilidades causadas por diferenças de velocidade e densidade, e permitiu que resistisse por todo este tempo. Já as origens dela ainda guardam alguns mistérios, mas os pesquisadores do estudo estimam que a galáxia-mãe deve ser massiva, e observações futuras poderão identificar mais dados sobre ela e sobre o deslocamento misterioso entre os raios X e a luz do gás quente. 

Análises mais aprofundadas desta nuvem irão ajudar também na compreensão de como o meio interestelar “arrancado” evolui estando tão longe de sua galáxia original, funcionando como um grande laboratório para estudos de outras questões, como a turbulência e a condução do calor. Futuramente, outras pesquisas sobre gases quentes podem ser direcionadas a outras nuvens solitárias, como essa. 

O artigo com os resultados do estudo foi publicado na revista Monthly Notices of the Royal Astronomical Society.

Fonte: ESA

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