"Nudes" no espaço? Entenda essa história maluca

"Nudes" no espaço? Entenda essa história maluca

Por Rafael Rigues | 11 de Maio de 2022 às 17h16
Nasa/JPL

Nos últimos dias, uma notícia meio estranha anda circulando por vários sites: a NASA estaria planejando mandar "nudes" para o espaço, numa tentativa de contato com civilizações alienígenas. Alguns foram mais além, alegando que a intenção seria "seduzir" os ETs com as imagens. Como se padrões de beleza, que não são universais nem mesmo aqui na Terra, fossem os mesmos em toda a nossa galáxia.

Mas por mais maluca que esta história possa parecer, há um fundo de verdade debaixo de muitas camadas de exagero. Sim, alguns cientistas estão sugerindo o envio de uma nova mensagem ao espaço em uma tentativa de contato com outras civilizações.

E sim, ela incluirá "nudes", mais especificamente duas representações de seres humanos nus, um homem e uma mulher. Não por safadeza, mas sim como resultado de uma série de considerações científicas sobre como nos apresentaríamos para criaturas que podem ser vastamente diferentes de nós.

Não é bem esse tipo de "nude" que a NASA quer enviar ao espaço. (Imagem: Reprodução / Paramount Pictures)

Surpresa: não é a primeira vez que mandamos nudes ao espaço

Entre 1972 e 1973 enviamos ao espaço duas espaçonaves, chamadas Pioneer 10 e Pioneer 11, com a missão de explorar Júpiter e Saturno. Eventualmente, suas trajetórias as levariam além dos limites do sistema solar, transformando-as no primeiro e segundo objetos feitos pela humanidade a deixar nosso "lar" na galáxia e eventualmente atingir o espaço interestelar.

Vendo uma oportunidade, o astrônomo Carl Sagan organizou uma campanha para que ambas as espaçonaves levassem uma mensagem da humanidade para as estrelas, uma espécie de cartão de visitas de nossa espécie para quaisquer "vizinhos" galácticos que as encontrassem.

Esta mensagem assumiu a forma de duas placas idênticas de alumínio revestido com ouro, medindo 22,8 por 15,2 cm, que ficaram conhecidas como as "Placas Pioneer". Gravadas nelas estão pictogramas (imagens) representando conceitos como o período de transição hiperfina do hidrogênio, a posição do Sol em nossa galáxia, a posição da Terra em nosso sistema estelar, uma silhueta da espaçonave e duas figuras humanas, um homem e uma mulher, ambos nus.

Reprodução da ilustração nas placas inclusas nas sondas Pioneer 10 e 11. (Imagem: NASA)
Reprodução da ilustração nas placas das espaçonaves Pioneer 10 e 11. (Imagem: NASA)

As figuras foram desenhadas por Linda Sagan, esposa de Carl, e estão nuas por dois motivos simples: ela não conseguiu encontrar roupas culturalmente adequadas para representar toda a humanidade (e não, nem todos usamos camiseta e calça jeans), e as figuras nuas seriam mais informativas, do ponto de vista anatômico, para eventuais extraterrestres. Afinal, sem contexto, como eles poderiam saber que uma saia é uma vestimenta, e não parte do corpo de uma mulher?

Mas nem todos os argumentos lógicos do mundo conseguem conter a fúria puritana: um jornal norte-americano reproduziu a imagem, mas omitiu os orgãos genitais masculinos. Outro omitiu os genitais masculinos e os mamilos (sempre polêmicos) da figura feminina. Alguns leitores escreveram para dizer que o conteúdo da placa era "imoral", enquanto outros escreveram para criticar quem se escandalizava com uma ilustração tão simples.

Soa familiar? Isso nos leva à mensagem atual

"Farol na Galáxia" vai procurar vida extraterrestre

Batizada de "Beacon in the Galaxy" (BitG, algo como "farol na galáxia"), a nova mensagem foi projetada por uma equipe liderada por Jonathan Jiang, do Laboratório de Propulsão a Jato da NASA, e contém informações introdutórias sobre matemática, física, química e biologia, com o intuito de estabelecer uma "base comum" de conhecimento para permitir a comunicação entre nós e eventuais alienígenas.

Mas em vez de ser gravada em uma placa de metal, a mensagem foi projetada para ser transmitida ao espaço usando alguns de nossos radiotelescópios mais poderosos. Uma opção é o Allen Telescope Array, na Califórnia, e outra é o radiotelescópio Five-Hundred-Meter Aperture Spherical Radio Telescope (FAST), na China.

Radiotelescópio FAST, na China. O maior do mundo, e um dos candidatos para envio da nova mensagem. ((Imagem: Reprodução/Ou Dongqu/Xinhua)

Jiang reconhece que ambos foram projetados para “escutar” o universo, não “conversar” com seres nele, e que será necessário instalar equipamentos em qualquer um dos dois para transmitir a mensagem. A tarefa não será fácil, mas é possível — e ele já está em discussões com pesquisadores do FAST para descobrir como colocá-la em prática.

A Beacon in the Galaxy foi projetada como uma sucessora da "mensagem de Arecibo", a primeira mensagem propositalmente criada para comunicação extraterrestre, enviada ao espaço em 1974 na direção do aglomerado estelar M13, a 25 mil anos-luz de nós. Mas enquanto a mensagem de Arecibo continha apenas 1.679 bits de dados (30 vezes menos informação que o texto deste artigo), a BitG tem muito mais informações.

Entre elas temos conceitos de matemática, física e química, ilustrações do sistema solar e de nosso planeta, detalhes de estruturas de DNA que compõem toda a vida na Terra e, para terminar, um pedido de resposta e os tais "nudes": uma versão pixelizada das imagens criadas para as Pioneer na década de 70, com alguns pequenos ajustes.

Mensagem de Arecibo, enviada ao espaço em 1974. (Imagem: Frank Drake / Projeto SETI)

Por que enviar nudes?

Segundo os autores, "a consequência lógica do envio de informações sobre a composição básica dos seres humanos é uma representação de nossa forma física, além de dados básicos como altura média de um indivíduo e população no momento da transmissão […] Esta informação é parte da expectativa básica de qualquer mensagem para uma inteligência extra-terrestre, já que permite o reconhecimento de nossa aparência - um detalhe desta civilização que seria sem dúvida de nosso interesse, e certamente revelante caso mais comunicação seja estabelecida, ou caso possamos, algum dia, nos encontrar fisicamente".

Imagine o seguinte: você está contando ao seu melhor amigo(a) que encontrou uma pessoa interessante. Aposto que uma das primeiras perguntas que vai ouvir é "como ele/ela é?". Certamente, faríamos a mesma pergunta sobre quaisquer alienígenas, e eles sobre nós, em um primeiro contato. Quantas pernas eles têm? Qual a altura? São humanoides? Tem orelhas pontudas, sangue verde e uma vida longa e próspera?

Figuras humanas na mensagem Beacon in the Galaxy (Imagem: Jonathan Jiang)

Vale lembrar que a nova mensagem não passa, por enquanto, de uma bem-elaborada proposta, e como tal está sujeita a alterações. Uma sugestão de que "nudes" sejam inclusos não quer necessariamente dizer que iremos enviá-los caso o plano seja colocado em prática.

E quando isso poderá acontecer? Não sabemos. A proposta não sugere uma data precisa para transmissão (algo que depende de limitações técnicas e de orçamento), mas indica que, com base nas duas antenas selecionadas, o "período" de maior visibilidade da transmissão seria entre os meses de março e outubro.

A única certeza é a de que não devemos ter uma resposta tão cedo. Cálculos de um estudo recente estimam que poderíamos ter de esperar entre 2 mil e 400 mil anos por uma resposta a uma mensagem enviada hoje, dependendo da quantidade de civilizações existentes em nossa galáxia. Quem sabe até lá possamos chegar a um consenso sobre o que é ou não obsceno?

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