Crítica | Lucicreide Vai Pra Marte gera risos, lágrimas e interesse pela ciência

Crítica | Lucicreide Vai Pra Marte gera risos, lágrimas e interesse pela ciência

Por Nathan Vieira | Editado por Jones Oliveira | 14 de Março de 2021 às 15h00
Divulgação/Downtown Filmes

Foi com muita leveza que Rodrigo César dirigiu a comédia Lucicreide Vai Pra Marte. Sob a premissa de entreter e ao mesmo tempo emocionar, o longa-metragem revisita uma personagem que o público já conhece não só do teatro e do Zorra Total, mas também da vida em si: Lucicreide, uma homenagem de Fabiana Karla a todas as fortes mulheres que lhe serviram de inspiração com o passar dos anos.

O filme acerta, já no começo, em trazer da televisão uma protagonista de automática identificação: nordestina, mãe de cinco filhos, abandonada pelo marido, humilde. Todos nós já convivemos ou ao menos conhecemos uma Lucicreide na vida. Esse foi um ponto crucial para tocar no coração do público em momentos pontuais.

De qualquer forma, o verdadeiro destaque do longa-metragem se dá por meio da relação com a ciência, uma vez que a história em si se desdobra a partir do momento em que Lucicreide, de uma maneira relativamente acidental, acaba num programa de seleção para uma missão espacial que visa levar o primeiro grupo de humanos a Marte.

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Cuidado! A partir daqui o texto pode conter spoilers sobre a trama do filme.

Compromisso com a ciência

Em Lucicreide Vai Pra Marte, os candidatos passam por treinamentos que remetem à realidade dos astronautas e das missões espaciais (Imagem: Divulgação/Downtown Filmes)

Um dos grandes destaques do filme é seu compromisso com a ciência: em vez de utilizar o humor para menosprezá-la de alguma forma, ou usar a ciência de maneira caricata, o roteiro a usa de uma forma muito madura, o que na verdade é até irônico, já que o estilo do humor é bem ingênuo, daqueles que se aproveita sem pensar muito. Acontece que, durante o treinamento para a missão a Marte, os candidatos são submetidos a processos que remetem à realidade dos astronautas da vida real. Além disso, há uma verdadeira chuva de referências científicas, um prato cheio para entusiastas do assunto.

A começar pelo próprio local onde o filme se desdobra em boa parte: o Kennedy Space Center, o centro de lançamentos da NASA, que fica na Florida, próximo a Orlando. De lá saíram as principais missões espaciais da história, como a missão Apollo 11, responsável por levar o Homem à lua pela primeira vez em 1969. O trabalho no Kennedy Space Center é feito em conjunto com a equipe do Johnson Space Center, este que fica na cidade de Houston, Texas. Enquanto o KSC é responsável por lançamentos, a equipe em Houston faz o controle das missões. Inclusive, o Canaltechconferiu de perto o Kennedy Space Center.

Outro fator que aponta o longa como cientificamente responsável é a participação especial do astronauta brasileiro Marcos Pontes, também Tenente-Coronel da Força Aérea Brasileira aposentado, além de engenheiro e, hoje, político. Pontes ficou conhecido por ser o primeiro astronauta brasileiro com a Missão Centenário, que o levou à Estação Espacial Internacional (ISS) em 2006, onde ele viveu por 10 dias e participou de alguns estudos científicos ao lado de astronautas russos e norte-americanos. Hoje, ele é Ministro da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, tendo assumido o cargo em 1º de janeiro de 2019. No filme, Pontes guiou os candidatos à missão em meio às instalações do Kennedy Space Center, mas também ajudou nos bastidores, como uma espécie de consultor da equipe.

As referências da ciência são inúmeras. Uma delas envolve vegetais sendo criados em laboratório para servirem de alimento em Marte, o que remete a estudos reais feitos tanto na NASA, em terra, quanto na própria ISS. Em novembro de 2019, por exemplo, as astronautas Jessica Meir e Christina Koch chegaram a provar algumas folhas de mizuna (mostarda japonesa) cultivada na órbita da Terra.

Lucicreide Vai Pra Marte é um filme cientificamente responsável, que faz humor sem menosprezar ou ridicularizar a ciência. Pelo contrário (Imagem: Divulgação/Downtown Filmes)

Mais do que isso, falando de Marte em si, é possível lembrar de março de 2020, em que Gioia D. Massa, cientista de plantas do Centro Espacial Kennedy, da NASA, e autora de um artigo publicado na revista Frontiers in Plant Science, declarou ter sido “muito bom” não ter encontrado “nada completamente surpreendente, louco ou estranho” nas plantações de alface romana vermelha de sua pesquisa. Recentemente, falamos também sobre a primeira safra de rabanetes cultivados 100% no ambiente espacial, e sobre os desafios e benefícios do cultivo de soja na ISS.

Não tem como falar da ciência presente no longa-metragem sem mencionar a cena em que os candidatos se submetem a uma experiência de microgravidade — popularmente chamada de gravidade zero. Em ambientes fechados, como naves espaciais, por exemplo, não existe gravidade exatamente zero, porque a massa dos objetos presentes, das pessoas e da própria nave exerce alguma atração gravitacional, ainda que mínima. Cientificamente falando o termo microgravidade é o correto, mas o nome gravidade zero ganhou popularidade porque a sensação é exatamente essa: ausência de gravidade.

A cena é entretenimento puro, principalmente considerando que os atores estão ali em sua pureza. Cada riso, cada olhar nervoso é uma denúncia do que o próprio elenco está sentindo naquele momento. E o mais legal de tudo é que a empresa que aparece fazendo isso no filme é real. Inclusive, é a mesma que levou Stephen Hawking para fazer a mesma experiência em 2007.

Stephen Hawking em uma experiência de microgravidade de 2007, com a mesma empresa do filme Lucicreide Vai Pra Marte (Imagem: Zero Gravity Corp)

No entanto, a microgravidade não é a única experiência que o elenco de Lucicreide Vai Pra Marte vivencia ao longo do treinamento. Os candidatos à missão participam de treinamentos idênticos aos que astronautas realmente fazem, como o de resistência às forças extremas, por exemplo. Vale lembrar que no ano passado, a NASA chegou a abrir vagas para um processo seletivo real: os candidatos são submetidos a testes de resistência intensivos e até simulações em realidade virtual, assim como é exposto no filme.

Outro aspecto da realidade de um astronauta explorado no longa-metragem de forma humorística é a hora de ir ao banheiro. Isso porque, no treinamento, quando eles precisam usar o banheiro, trata-se de uma réplica do banheiro da ISS. O primeiro banheiro espacial projetado custou US$ 50 mil (o que hoje equivale a cerca de R$ 276 mil) e foi chamado de Waste Collection System (“sistema de coleta de resíduos”). Basicamente, era uma privada com cerca de um quarto o tamanho de um vaso comum, e os astronautas tinham que treinar a mira na Terra antes de se aventurar a liberar seus dejetos no espaço, algo bem parecido com a realidade que o longa traz.

Mas, justiça seja feita: nem tudo o que o filme aborda é fiel à realidade. O que não tem problema algum, é claro, considerando a liberdade artística. O último teste feito antes de o missionário de Marte ser escolhido, por exemplo, é simplesmente uma fantasia. No entanto, com a exceção desses detalhes pontuais, a ideia de usar a ciência como um mecanismo diferenciado para trazer o humor acaba agradando os dois mundos: para quem já é um fã da ciência, é um puro deleite, e para quem não tem conhecimento nenhum, é um convite.

Mensagem forte e positiva

Lucicreide é uma mulher forte, que cuida de seus cinco filhos sozinha, e destemida, que encara qualquer desafio à sua frente (Imagem: Divulgação/Downtown Filmes)

Mas se tem algo que fala mais alto que a ciência no filme é a própria Lucicreide, que veste o manto das principais mensagens. Em sua essência, como já dito, a protagonista é aquela mulher forte e destemida que todos nós conhecemos, ou até mesmo nos inspiramos a ser. Além da própria personagem, também é fácil se identificar com suas angústias no início da trama: o desgaste de lidar com o acúmulo de problemas e a vontade de sumir, o que acaba sendo perfeitamente traduzido por meio dessa ida a Marte, que funciona quase como uma metáfora.

E a mensagem por trás dessa metáfora é o reconhecimento de que os problemas podem existir, mas deve-se enfrentá-los e absorver o que há de melhor na situação. É algo que Lucicreide faz não apenas durante os treinamentos para a missão, mas também na própria conclusão, em que decide retornar para o seio de sua família. Vê-la desistir da missão (que, no fim das contas, era sem volta) para voltar aos filhos é o tipo de cena que, apesar da leveza, toca em pontos especiais e gera reflexão.

Impossível não mencionar, também, as demais mensagens espalhadas durante o desenvolvimento do longa, com a própria Lucicreide agindo como uma conselheira para seus colegas de treinamento, fornecendo uma sabedoria dentro da humildade. Com um jeito delicado, o roteiro distribui essas lições de grande impacto, como a autoaceitação, e elas funcionam, basicamente, como um tapa com luva de pelica no preconceito, em especial a transfobia.

O longa-metragem tem seus pecados, como o decorrer de alguns acontecimentos, que, como já é de se esperar em comédias desse estilo, acabam se distanciando do verossímil e proporcionam uma sensação de estranhamento, como quando a patroa de Lucicreide aparece em sua casa, ou o patrão simplesmente não tomando nenhuma providência ao vê-la dentre os candidatos à missão, puramente por uma questão de orgulho. Mas nada supera o amargor que dá quando o ex-marido de Lucicreide volta para casa. Os motivos que o filme encontra para seu desaparecimento não convencem, algo desnecessário que chega até a ferir a mensagem principal do filme, que é a força da protagonista.

De qualquer maneira, são poucos erros em um mar de acertos. Lucicreide Vai Pra Marte gera risos, lágrimas e, de quebra, um interesse genuíno pela ciência.

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