Marcos Pontes: de guia turístico a entusiasta brasileiro do turismo espacial

Por Wagner Wakka | 27 de Agosto de 2018 às 22h35
Agência Marcos Pontes

Marcos Pontes se acostumou à função de garoto propaganda. Mesmo no auge de seus 55 anos, o primeiro (e, até o momento, único) astronauta brasileiro sabe o que representa. Filho de dona Zuleika (com ele mesmo lembra), escriturária da Rede Ferroviária Federal em Bauru, e de seu Virgílio, servente de serviços gerais, Pontes sabe que a sua história fica ainda mais rara com o toque de superação: do menino pobre que tinha um riquíssimo sonho.

Para isso, o que ele quer, atualmente, é incentivar que outras pessoas, sobretudo crianças, se apaixonem pelo mesmo espaço que ele visitou. “Quando eu tirei as luvas lá no espaço e as vi flutuando, assim, na minha frente, foi neste momento que eu vi que realizei meu sonho. É isso que eu quero, mostrar que as coisas são possíveis”, contou em coletiva, realizada em São Paulo, na última quinta-feira (23).

Hoje, Marcos Pontes encabeça uma série de projetos, em sua grande parte com a iniciativa privada, para convencer pessoas a conhecerem mais sobre o que há além da nossa atmosfera. Pontes estava lá à convite do Kennedy Space Center, um dos polos de lançamento e desenvolvimento de foguetes com sede na Flórida.

Kennedy Space Center

Parte do espaço é aberta a visitantes. O que acontece é que, longe da corrida espacial e da Guerra Fria, pesquisas da NASA passaram a ficar muito caras para serem justificadas apenas pelo teor científico e de curiosidade do ser humano. Assim, foi preciso transformar o universo em negócio.

No Kennedy Space Center, há dois ambientes, conforme explica Pontes. Um deles é técnico, no qual se faz o desenvolvimento e lançamento de grande parte dos foguetes recém-lançados. O Falcon Heavy, maior empreitada da Space X e que enviou um carro da Tesla para o espaço, foi lançado de lá, por sinal. Outras empresas como Virgin Galactic, Boeing e a Blue Origin também estão no local, desenvolvendo seus projetos privados ou em parceria com a NASA.

Lá, também há um ambiente turístico, onde Pontes passa a maior parte de seu tempo. O astronauta brasileiro trabalha como uma espécie de guia para o local em algumas épocas do ano. Sobretudo na alta temporada, ele passa algumas semanas apresentando as atrações do ambiente para, em sua maioria, brasileiros que visitam o local. Atualmente, o Brasil é o maior público do complexo espacial localizado a 40 minutos de carro do centro de Orlando, na Flórida.

Mas aí você se pergunta: por que colocar um astronauta real como guia turístico? Bom, este é um do motes do local, pois tudo que é apresentado aos visitantes é original. Ou seja: foguetes, cápsulas, computadores, roupas e até pedras da Lua apresentados aos visitantes foram, um dia, usados em alguma missão espacial de verdade. Com a proposta de divulgação científica e aproximação do público com o que é feito lá, a intenção é realmente permitir que visitantes vejam a realidade de perto, por vezes podendo até tocá-la.

Claro que não somente Pontes é o guia oficial do local. Muito outros astronautas são convidados para a mesma função. “Há uma lista divulgada no site pelo Kennedy Space Center uns meses antes. Dá para buscar e saber quem será a pessoa quando você quiser viajar”, conta o astronauta.

No local, é possível, por exemplo, ter a experiência do Mars Base 1. Aqui, os visitantes são convidados a viver uma simulação de como é controlar um rover em Marte, com óculos de realidade virtual, e realizar pequenos experimentos científicos e tarefas de engenharia, pelas quais astronautas passam por lá.

Marcos Pontes em palestra no Kennedy Space Center (Foto: Divulgação/Facebook)

Outra atração forte do Kennedy Space Center é o ATX (sigla em inglês para Experiências de Treinamento de Astronautas). Neste local, há um pequeno treinamento de cinco horas, em que o visitante é colocado em um ambiente imersivo para suportar algumas situações reais de astronautas e ter o gostinho utilizar as tecnologias reais da NASA. “Como eu, o menino que achava que tudo era muito distante e impossível, outras crianças podem sonhar com este lugar. O que a gente quer é que elas não deixem este sonho morrer”, levanta Pontes.

Viagem lá fora

Mas não só de sonhos vive o astronauta brasileiro. Longe do mundo da Lua, Marcos Pontes mantém seus pés bem firmes no chão com negócios voltados ao turismo. Como garoto propaganda, ele agora quer ir além da Flórida e da NASA.

Em parceria com a Virgin Galactic, é ele quem está implantando a ideia em brasileiros de que o espaço é a nova fronteira do turismo. “A iniciativa privada já tem alguns projetos muito interessantes e avançados. A proposta é que, já no ano que vem, tenhamos viagens espaciais” comerciais, conta.

Embora esta seja uma previsão bastante otimista, testes já estão sendo feitas por empresas nos Estados Unidos. A viagem negociada pela agência de Marcos Pontes no Brasil é com a VSS Unity, da Virgin Galactic. No valor de US$ 250 mil a passagem, já foram vendidos cerca de 700 passeios de acordo com a companhia. Segundo Pontes, no Brasil “já há bastante gente interessada e algumas viagens já compradas”.

"Pode ser que eu ainda voe novamente", acredita pontes (Foto: Divulgação/Facebook)

No valor mencionado, estão incluídos não somente a viagem em si, mas também treinamento e exame médico para garantir que tudo ocorra bem. “No final, é uma experiência de ser astronauta também”, ele brinca.

O passeio funciona da seguinte forma: a VSS deve sair do espaço-porto criado pela Virgin no Novo México, nos Estados Unidos. Diferente das outras cápsulas que serão enviadas por meio de foguetes, este veículo voa como um avião supersônico. A nave levanta o voo, faz uma trajetória suborbital e desce em queda livre, momento este em que os passageiros poderão ter a sensação de microgravidade (como acontece na Estação Espacial Internacional) por 7 minutos, de acordo com Pontes. A nave, então, vai voltar em segurança para a Terra.

Veja também: Estas são as naves que um dia levarão turistas e astronautas ao espaço

A participação de Pontes nesta equação não é técnico, nem mesmo de treinamento, mas sim de, mais uma vez, dar o ar de segurança para o projeto. Como ele mesmo reforça em um momento, “o espaço não colabora com a gente” e, logo, garantir a segurança de uma empreitada destas por módicos US$ 250 mil não é fácil.

A missão de Pontes, portanto, é dar ares de confiança para a viagem da Virgin. “Ele [Pontes] fará questão de conhecê-lo pessoalmente e explicar em detalhes como tudo funciona. Esta é mais uma garantia que damos para realizar sua viagem dos sonhos com quem mais entende do assunto, desta forma garantindo sua segurança e sua realização”, é o que descreve o site da agência do astronauta.

Ele mesmo não sabe nem se verá o espaço de novo. “Pode ser que eu voe novamente, ainda não sei”, deixando a dúvida no ar.

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