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1899 é plágio da HQ Black Silence? Especialistas comentam a polêmica

Por| Editado por Jones Oliveira | 25 de Novembro de 2022 às 22h10

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Reprodução/ Netflix
Reprodução/ Netflix
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Lançada como uma das principais apostas da Netflix para 2022, a série 1899 chamou a atenção do público por mesclar ficção científica, mistério e suspense. A produção é assinada por Jantje Friese e Baran bo Odar, os mesmo criadores de Dark, outro sucesso do streaming. Mas não foi só o enredo da série que repercurtiu entre os fãs. No dia 20 de novembro, a quadrinista Mary Cagnin publicou no Twitter que 1899 era, na verdade, um plágio da sua história em quadrinhos (HQ) Black Silence, publicada originalmente em 2016.

Por meio de várias postagem no microblog, Mary afirmou que a série é identica à sua HQ e apontou similiaridades entre as duas, como o uso de pirâmides, as mortes dentro do navio, os tripulantes de nacionalidades diversas, os símbolos que aparecem nos olhos dos personagens, as escritas em códigos, entre outros.

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Ela ainda afirmou que em 2017, um ano após a publicação de Black Silence, foi convidada pela Embaixada Brasileira a participar da Feira do Livro em Gotemburgo, onde distribuiu exemplares da sua obra para editores e pessoas do ramo, deu palestras e comentou sobre o plot twist.

Mary também disse acreditar ser fácil diluir todas as referências de uma obra curta como a sua em uma série de 12 horas de duração.

Após a publicação da quadrinista brasileira, muitas pessoas se manifestaram. Enquanto boa parte do público confiou na acusação dela, outros comentaram que uma obra não se assemelha à outra. Os autores de 1899 também se pronunciaram nas redes sociais e alegaram que nunca tinham tomado conhecimento de Black Silence.

Baran bo Odar compartilhou em sua conta no Instagram uma imagem com um trecho de um texto postado em um perfil de fãs da série e agradeceu ao apoio deles. Na legenda, ele diz:

"Obrigado @1899netflix por essas palavras gentis. Elas significam muito para nós. Como já mencionei em meu post anterior: infelizmente não conhecemos a artista, nem sua obra ou a HQ. Nós nunca roubaríamos de outros artistas porque nos sentimos artistas nós mesmos. Também entramos em contato com ela, então esperamos que ela retire essas acusações. A internet se tornou um lugar estranho. Por favor, mais amor em vez de ódio”.

Sobre o que é Black Silence?

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Black Silence é uma ficção científica futurística que mostra que a Terra está com os dias contados. Em consequência disso, um grupo de astronautas é convocado para fazer o reconhecimento de um outro planeta que pode ser a única chance de salvação dos seres humanos. Um desses astronautas é Lucas, um exobiólogo renomado cuja carreira está por um triz.

O destino o levará até Nee, uma militar com uma boa reputação que o faz uma proposta irrecusável. O que ele não sabe é que esta missão mudará tudo o que ele acreditou um dia ser verdade.

Vale lembrar que Black Silence foi o primeiro quadrinho sci-fi de Mary Cagnin, que já havia publicado dramas e romances. Ele teve financiamento coletivo pelo Catarse e recebeu o Troféu Angelo Agostini na categoria Melhor Desenhista, além de três indicações ao Prêmio HQMix. A autora disponibilizou a história completa em seu site oficial.

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Como é 1899, a série da Netflix acusada de plágio?

1899 também é uma ficção científica que mescla suspense e mistério, mas se afasta do terror, como garantiram os próprios criadores. A trama é ambientada no ano de 1899 e acompanha um grupo de imigrantes europeus de diferentes nacionalidades que embarcam em um navio a vapor rumo aos Estados Unidos para tentarem uma vida melhor.

Em um determinado momento, eles encontram o Prometheus, um navio de igual tamanho que está à deriva e já havia sido considerado desaparecido. No barco abandonado, todos os tripulantes estão mortos e apenas um menino é encontrado com vida. A partir de então, coisas estranhas começam a acontecer e a vida de todos fica em perigo.

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Como já era de se esperar, a série é repleta de simbolismos e pistas escondidas para atiçar a curiosidade do espectador. O elenco da produção contou com alguns nomes já conhecidos como Andreas Pietschmann (Dark), Emily Beecham (Cruella) e Miguel Bernardeau (Elite), além de outros atores como Lucas Lynggaard, Mathilde Ollivier, Clara Rosanger e Aneurin Barnard.

Os criadores Jantje e Baran revelaram que a série começou a ser escrita após o primeiro ano da estreia de Dark, ou seja, 2018, e que foi projetada para ter outras temporadas, a depender do sucesso que faça com a audiência.

Semelhanças entre 1899 e a HQ Black Silence

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O principal argumento de Mary para justificar o plágio da sua HQ foi que 1899 tem elementos idênticos à sua obra. Ela diz que ambas produções têm uma pirâmide negra que faz com que a tripulação — do navio, no caso de 1899, e da nave espacial, no caso de Black Silence — passe a agir de maneira estranha.

Além disso, ela afirma que acontecem mortes sem explicação dentro do navio e da nave e que o triângulo que aparece nos olhos dos seus personagens é replicado na série alemã. Ela também aponta a semelhança entre a tripulação multicultural e algumas cenas que aparecem em seus desenhos e na série.

Entre as várias réplicas que Mary teve em seu Twitter, no entanto, muitas delas afirmavam que tais elementos também estão presentes em outras obras de terror e ficção científica já publicadas, como no longa The Void dos diretores Steven Kostanski e Jeremy Gillespie, e os filmes Alien vs Predador e Stargate.

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É importante ressaltar que embora o autor da postagem acima tenha citado que The Void também se inspirou em H.P Lovecraft, as obras do escritor estadunidense estão em domínio público.

Até o momento da publicação desta reportagem, a quadrinista Mary Cagnin não havia se posicionado sobre tais questionamentos recebidos em suas redes sociais.

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O que caracteriza o plágio?

O plágio é uma forma de cópia integral ou parcial de um texto, ideia, produto audiovisual, etc. Ele pode acontecer de diferentes formas, desde citações sem mencionar o autor original até o uso de conceitos desenvolvidos por terceiros e apresentados como inéditos ou próprios.

A advogada Ana Paula Borges Martins, especialista em propriedade intelectual ouvida pelo Canaltech, garante que o plágio não tem estipulação legal, apenas doutrinária. O que existe é a Lei 9.610/98, que trata dos direitos autorais e assegura ao autor e/ou titular o direito ao uso e distribuição da sua obra.

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Ela ainda diferencia plágio e inspiração, sendo o primeiro caracterizado como o uso mal-intencionado da propriedade intelectual de um terceiro sem a sua devida autorização, enquanto inspiração é a base para produzir um conteúdo original que pode ter ou não elementos comuns de domínio público.

A série 1899 plagiou a HQ de Mary Cagnin?

Procurado pela reportagem do Canaltech, o advogado Miguel Rosa Teixeira Mendes comentou o assunto e disse que o caso precisa ser analisado com atenção, uma vez que se trata de uma questão de intermidialidade, ou seja, adaptação entre mídias — enquanto Black Silence é uma história em quadrinhos, 1899 é um produto audiovisual.

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Em casos como este, fica inviável analisar quantos porcento uma obra é similiar à outra. Desse modo, ele afirma que para a autora conseguir sucesso na sua acusação precisaria reunir mais provas e conversar com um profissional especialista em direitos autorais para analisar os pormenores.

Ana Paula Borges Martins concorda com o colega e garante que apenas avaliando as duas obras por completo é possível saber se realmente houve plágio.:

"A propriedade intelectual e os direitos autorais não tem limites muito definidos da propriedade exclusiva de cada indivíduo, pois as obras de arte em geral se valem de muitas inspirações do meio artístico de domínio público ou não, e hoje em dia com o aumento de produções, tanto musicais como audiovisuais, o grau de originalidade das obras num geral caiu muito. Infelizmente vemos casos de grandes coincidências mesmo, que pode ter acontecido nesse caso em análise, não só nos direitos autorais mas nos direitos de marcas. Por isso sempre recomendamos proteger seus ativos de propriedade intelectual o quanto antes."

Ela ainda defende que Mary deveria ter consultado um profissional de propriedade intelectual ou direitos autorais antes de expor a questão ao público, pois pode ter problemas se tiver uma acusação sem provas o suficiente:

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“A relação que o autor tem com sua obra é um elo muito forte, então é normal enxergar aproximações e associações com uma lente de aumento. Precisamos analisar ambas as obras por completo e não apenas os pontos estéticos em comum apontados pela autora, para ter uma posição mais conclusiva.”

Já o advogado Anderson do Patrocínio, também ouvido pela reportagem do Canaltech, considera que pode ter havido plágio, uma vez que para isso não há necessidade de ser uma cópia idêntica:

“Considerando que plágio não significa necessariamente uma cópia idêntica e que os elementos que ela apresentou como sendo de sua autoria estão presentes em conjunto na série da Netflix, entendo que houve plágio quanto à composição destes elementos, embora o roteiro não se enquadre em plágio.”

O que fazer nesses casos?

Caso um autor ou artista desconfie de que sua obra sofreu plágio, o melhor caminho é reunir todas as provas possíveis e procurar um especialista na área. Ana Paula diz que ainda há poucos profissionais que realmente atuam com esse tema, mas que o mercado tem se expandido por conta do aumento de fluxo de obras por meio da internet.

O Canaltech procurou a quadrinista Mary Cagnin para falar sobre o caso, mas ela não respondeu às tentativas de contato. A Netflix também afirmou que não irá se pronunciar.