Pastiche, paródia, plágio ou só uma cópia mesmo?

Pastiche, paródia, plágio ou só uma cópia mesmo?

Por Laísa Trojaike | Editado por Jones Oliveira | 31 de Julho de 2021 às 21h00
OksaLy/Envato

O que é uma obra original? Ideias que ligam originalidade ao “inventado (não copiado, nem imitado ou traduzido)”, como nos indica um dos significados do verbete no dicionário Priberam, dominaram a arte por muito tempo até que o pop bagunçou tudo. Embora as raízes do pop datem dos anos 1930, é nos anos 1950, com Elvis Presley, que o pop ficou pop. E não há nada mais original do que Elvis, não?

Sim e não. Elvis é tão polêmico quanto o assunto em si: defendido por James Brown e atacado pelo Public Enemy, há quem diga que Elvis se apropriou da arte alheia, mas também há quem diga que sua música ajudou a combater a segregação racial nos EUA. Em ambas as versões, o reconhecimento de que o rock and roll nasce do blues, da cultura afro-americana, algo que o próprio Elvis nunca escondeu. Enquanto Elvis segue sendo chamado de Rei, muitos atentam que o trono, na verdade, é de Chuck Berry.

Seria possível realizar "Com Amor, Van Gogh" sem a arte da cópia? (Imagem: Reprodução/Odra Film)

Embora pareça recente a ideia de que tudo se repete, de fato a arte pop atingiu com a internet um nível global nunca antes visto em nenhuma forma de arte, possibilitando o surgimento de movimentos como o k-pop, por exemplo. Muito antes do BTS soar como cópia, renascentistas como Leonardo da Vinci, Rafael, Donatello e Michelangelo já faziam isso com a arte grega e, para quem não tem muito contato com esculturas gregas e renascentistas, por exemplo, não dá para saber o que é grego e o que é das Tartarugas Ninjas. Uma prova disso é que Michelangelo vendia falsificações de obras gregas quando adolescente, peças que ele mesmo esculpia, enterrava e depois fazia de conta que havia descoberto, vendendo a obra por um preço muito maior.

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A cópia está em todo canto e a arte é um enorme banquete canibalista, mas esse ritual de apropriação pode ganhar sentidos diferentes, em contextos e tempos diferentes. E é por isso que este é um assunto bem polêmico e podemos dizer que algumas cópias não devem ser feitas, como é o caso da apropriação-cultural. Difícil, não? Mas vamos tentar dar uma luz sobre possíveis caminhos de pensamento para refletirmos.

Plágio

O dicionário é direto ao dizer que plágio é uma "imitação ou cópia fraudulenta" e o negócio é tão sério que esta é uma ação que pode ser enquadrada como crime, dependendo do contexto. O plágio é, grosso modo, a cópia que se passa por original; acontece quando o trabalho é de um artista, mas outra pessoa tira vantagem proposital, geralmente financeira, daquela obra.

Para dizermos que aconteceu um plágio, precisamos ter certeza absoluta de que o artista não cedeu ou vendeu os direitos da sua obra para que outra pessoa utilizasse. Uma das maiores dificuldades de análises desses casos é que eles não são claros à primeira vista e, às vezes, é necessário vasculhar a fundo para saber o que aconteceu — e ainda corremos o risco de ficar sem saber.

Yojimbo e Por Um Punhado de Dólares (Imagem: Reprodução/Kurosawa Production Co./Jolly Film)

Acusar um artista de plágio é algo muito sério e, dependendo da origem da acusação, toda uma carreira pode ser destruída, então é preciso ter responsabilidade com esse tipo de julgamento, sobretudo porque nem sempre a cópia descarada de outro artista é um plágio — mesmo que o "ladrão" esteja lucrando com isso.

Um caso histórico é o da comparação acima, em que Por Um Punhado de Dólares (1964), de Sérgio Leone, é acusado de plágio por Akira Kurosawa, com quem acabou fazendo um acordo e, hoje, fala-se de um "remake não-autorizado" do filme japonês Yojimbo, o Guarda-Costas (1961). O diretor de faroeste espaguete, por outro lado, lembra que, apesar de ter sido inspirado pelo silêncio dos filmes de Kurosawa, Yojimbo não é original, tendo sido inspirado no romance Colheita Sangrenta (1929), do estadunidense Dashiell Hammett, enquanto este livro teria raiz em Servidor de Dois Amos (1743), do italiano Carlo Goldoni, colocando Leone mais próximo das raizes do filme "plagiado" do que o próprio Kurosawa. Mas sabemos que o problema é muito mais complexo do que isso.

Pastiche

"Nada se cria, tudo se copia". Esse é um dos lemas de muitos artistas — mesmo dos que jamais irão admitir isso. A cópia está na essência da arte, que, se não copia outro artista, copia/reproduz as formas da natureza. Isso acontece porque a arte não é algo que brota naturalmente na cabeça do artista, mas é um árduo trabalho de estudo, de tentativa e erro e, sobretudo, de repetição. A insistência e a resiliência formam grandes artistas, o que significa que há uma constante troca entre o indivíduo-artista e o mundo que o cerca: a vida imita a arte e a arte imita a vida. Tem sido assim desde que começamos a marcar as paredes das cavernas.

Em algum momento, um ancestral nosso marcou uma pedra, como vemos no exclente documentário A Caverna dos Sonhos Esqucidos. A primeira obra de arte não está muito distante do pixo. Outro humano viu isso e o que fez? Copiou. E aí viralizou, virou meme na caverna. Mãozinhas vermelhas na parede eram efemeridades que, hoje, chamamos de “eternizadas”. Quando a primeira marca na parede foi realizada, algo original se fez, proposital ou acidentalmente (e a arte é feita de inúmeros acidentes).

Quando alguém copia, mesmo no ato da cópia, já há uma ação nova: se eu e você colocarmos nossa mão em uma lata de tinta e depois marcarmos uma parede, o movimento pode até ser idêntico e sincronizado, mas as marcas serão diferentes, porque somos diferentes, temos formatos e tamanhos diferentes de mãos, por exemplo. Apesar de aparentemente iguais, as marcas serão sutilmente originais pela ação dos nossos corpos, pensamentos, épocas, contextos...

É nessa sutileza que reside o pastiche, uma apropriação proposital e que não é escondida, mas que visa homenagear, referenciar ou reconhecer a importância de outro artista — originalidade que, por sua vez, não se livra do conceito de cópia, sempre entendida como uma re-produção, porque, mesmo na cópia, há um novo processo de produção. Nesse sentido, o pastiche é e não é uma cópia descarada.

Um excelente exemplo disso é o Psicose de 1998, dirigido por Gus Van Sant, que reproduziu quase que quadro a quadro o clássico “irremakeável” de Alfred Hitchcock: os filmes são idênticos, mas com atores diferentes, equipes diferentes e uma direção diferente, que teve a ideia de trazer o colorido de volta para a história, enquanto o original era preto e branco para não chocar a audiência com o sangue, não correndo o risco de deixar o filme gore demais para o público da época.

O que muita gente passou a chamar de “tarantinesco”, na verdade nada mais é que um tremendo pastiche de filmes antigos mais antigos e ignorados por muitos fãs, reunidos em uma trama sob a direção de Quentin Tarantino. Quando ele faz um filme como Kill Bill, ele está reunindo todas as suas referências em uma história, misturando elementos artísticos e propostas conceituais de movimentos como o pop, o hip-hop e o punk, que têm em sua essência a ressignificação de ícones ao longo dos tempos.

A amostra mais extrema que temos dessa mistura na contemporaneidade talvez seja justamente o K-Pop, que retorna às raizes do hip-hop como um método criativo e uma arte política, abraçando o pop para a viralização do conteúdo proposto. As músicas, por sua vez, pulam de um pastiche para o outro em questão de segundos, trazendo diversas referências em uma única música, como nos mostra o excelente episódio da série Explicando sobre o tema.

No terror, o pastiche é entendido como homenagem há muito tempo e os easter eggs e referências chagam a funcionar como um pastiche-spoiler no microcosmo da sequência. Quando Um Clássico Filme de Terror (2021) inicia mostrando a imagem da cabeça de um veado empalhada na parede, a cópia não é um plágio descarado de Uma Noite Alucinante: A Morte do Demônio (1981) ou de O Segredo da Cabana (2011). Nesse caso, a sensação é de que os diretores inseriram um código que, para os fãs, indicam os possíveis caminhos da trama como uma homenagem ao terror slasher de Sam Raimi, origem da ramificação temática cujos filmes sempre mostram um grupo de pessoas presas (e morrendo uma a uma) em ums cabana na floresta.

Paródia

Assim como o pastiche, a paródia também não esconde suas referências e se diferencia do outro caso por não ser uma homenagem, mas sim uma sátira. Por geralmente tornar risível uma arte que se apresenta como séria, a paródia é quase sempre uma comédia, exceto quando os limites do conceito são explorados, como no caso da paródia publicitária ou dos jingles de campanhas políticas. Apesar das possibilidades de exceção, podemos assumir que, essencialmente, a paródia é uma cópia que faz comédia com outra arte.

Embora a palavra seja mais utilizada com relação à música, o cinema também teve suas grandes franquias de paródias e conta com títulos como S.O.S. - Tem um Louco Solto no Espaço, inspirado em Star Wars, ou Todo Mundo em Pânico, inspirado em, claro, Pânico.

E agora?

No final das contas, parece que todo mundo está só copiando e colocando o seu temperinho mesmo. É preciso analisar caso a caso, atentar para o artista, conhecer as propostas da sua arte, do seu gênero artístico. Todo artista tem uma intenção quando faz arte, ainda que essa intenção seja ganhar dinheiro. Não apenas o cinema, mas todas as artes se reciclam o tempo todo em uma constante evolução e, nesse percurso, há maravilhas e vergonhas históricas.

Isso significa que temos que nos habituar a consumir a mesma coisa o tempo todo? Sim e não. É preciso definir para si quais são as cópias que valem a pena e que trazem algo construtivo, e quais não fazem isso. Não raramente, achamos que uma cópia é o original, o que significa que precisamos estar mais atentos às obras que consumimos. Por outro lado, quando já sabemos que é uma cópia, podemos usar a arte para ver como uma mesma fórmula reflete a sociedade do seu tempo. Duvida?

Fanfare d'amour, Ritmos de Amor, Quanto Mais Quente Melhor e As Branquelas (Imagem: Reprodução/Solar-Films/NDF/Ashton Productions/Wayans Bros.)

Você provavelmente já assistiu a paixão nacional As Branquelas, de 2004, um filme bastante original e icônico dos irmãos Wayans, que deixou impresso um registro crítico do início dos anos 2000. Essa história, no entanto, já foi contada antes: Fanfare d'amour (1935), Ritmos de Amor (1951) e Quanto Mais Quente Melhor (1959).

Em cada um deles, podemos ver, por exemplo, como evoluiu a moda, os costumes, as piadas, o cinema, etc. Um detalhe, no entanto, se destaca pelo foco da trama: o modo como são vistas as mulheres e os homens (héteros e cis) travestidos ao longo das décadas (e através da óptica desses artistas). Como serão esses "homens disfarçados entre as mulheres" nas próximas cópias? Que tipo de reflexão essa trama vai trazer para um espectador que não é o mesmo de 2004? Se tivermos essa curiosidade, podemos parar de odiar remakes, reboots e retcons e passar a amá-los (sem deixar o pensamento crítico de lado, claro).

Paras quem quer ficar ainda mais bugado com o assunto, vale a pena procurar pelo documentário Saída pela Loja de Presentes, do grafiteiro Banksy.

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