Análise | A US$ 500, qual seria o preço do PlayStation 5 no Brasil?

Por Wagner Wakka | 15 de Junho de 2020 às 19h00
Reprodução/PlayStation
Tudo sobre

Saiba tudo sobre PlayStation 5

Ficha técnica

Na última quinta-feira (11), a Sony apresentou uma série de games e revelou como será o novo videogame. Contudo, uma informação-chave para o sucesso do videogame permanece em segredo: quanto vai custar o PlayStation 5?

A empresa ainda não deu nem indícios disso. Rumores e analistas de mercado apontam que o aparelho chegará às lojas por US$ 500 (aproximadamente R$ 2.500, na cotação atual). Contudo, o atual cenário pode tornar difícil para a Sony lançar seu novo videogame nessa faixa de preço. Desta forma, o que poderia influenciar a definição deste valor?

Como a Sony trabalha o preço dos seus consoles? 

Desde o lançamento do Playstation, precificar o aparelho é um ponto-chave para a gigante japonesa. Na E3 de 1995, a Sony fez uma apresentação histórica em que seu presidente, Steve Race, subiu ao palco e disse apenas: “299”, em alusão aos US$ 299 do preço do aparelho, muito abaixo do praticado pelo mercado. A frase se tornou memorável como estratégia de marketing contra a Sega, que havia revelado o Saturn na mesma E3 por US$ 399.

Os rumores eram de que o PlayStation seria muito mais caro que seus concorrentes. A história mostrou que o primeiro aparelho da Sony seria o sucesso, enquanto o Saturn amargaria vendas fracas e teria vida curta. De acordo com o VG Chartz, foram vendidos apenas 8,8 milhões de Saturn, uma fração dos 102 milhões de unidades do PlayStation original.

Indo para 2013, antes de lançar o PlayStation 4, a companhia não informou quanto ele custaria, mas disse que seria US$ 100 a menos que o Xbox One (o que de fato aconteceu). O PS4 chegou ao preço de US$ 399, em comparação aos US$ 499 do console da Microsoft, o que foi decisivo para a Sony disparar na disputa de consoles vendidos. Segundo o site VG Chartz, até 6 de junho de 2020, foram vendidos 111 milhões de unidades do PS4, contra 47,8 milhões de consoles Xbox One.

A empresa japonesa adotou essa postura porque, na geração anterior, apanhou feio por tentar fazer um aparelho caro demais. O PlayStation 3 foi lançado a US$ 599 e é o videogame de mesa menos vendido da história da companhia. Além disso, na disputa contra a Microsoft em número de unidades vendidas, deu empate técnico: segundo o IDC, foram 77 milhões de PS3 comercializados, contra 76 milhões de Xbox 360 — naquela geração, quem levou a melhor foi o então inovador Nintendo Wii, com mais de 100 milhões de unidades vendidas.

PlayStation 5: quanto custa para fazer o videogame? 

Ainda não se sabe ao certo qual será o custo de produção do novo console da Sony. Contudo, é possível olhar para o PS4 para tentar entender como o processo de precificação deve ocorrer.

Primeiro, é preciso deixar claro que não existem dados exatos de quanto custa produzir um PlayStation 4, somente estimativas de companhias de análise. A mais conceituada delas vem de um levantamento da consultoria IHS sobre a fabricação do videogame. Em 2013, ele custava cerca de US$ 380 para ser feito. A empresa desmontou o videogame para ver todos os seus componentes e, segundo a análise, somente a GPU e o processador custam, pelo menos, US$ 188. Ou seja, todos os outros elementos do aparelho somariam os outros US$193 para serem fabricados.

Em entrevista ao Eurogamer, em 2013, a Sony informou que perdia cerca de US$ 60 com cada aparelho vendido. O custo é relativo não só à produção, mas também envolve divulgação, logística e garantia do produto. Também segundo a IHS, o comportamento do jogador é de levar pelo menos um título para casa com o console (ao preço de US$ 60). Mesmo que nem todo o lucro de um game vá para a Sony (a não ser que este tenha sido desenvolvido pela própria companhia), isso ajuda a balancear o subsídio. Logo, a estratégia faz sentido a longo prazo.

Usando este mesmo raciocínio, é possível olhar para o PlayStation 5. O novo console vai contar com processador e GPU feitos sob medida em parceria com a AMD. As duas empresas não abrem os custos negociados entre si, mas sabe-se que os componentes serão de alta performance, mesmo se comparados aos melhores PCs gamers.

O PlayStation 5 trará uma CPU AMD Zen 2 octa-core e uma GPU baseada na Radeon Navi, também da AMD, com suporte a ray tracing. Se analisarmos os custos desses dois componentes no mercado, é razoável dizer que eles custarão mais que os US$ 188 de suas contrapartes no PS4. Para efeito de comparação, uma placa AMD Radeon 5600 XT, que também é baseada na arquitetura Navi e nem é a opção de alto desempenho da linha, custa, em média, US$ 280.

Claro que a Sony terá um custo muito menor, mas ainda assim não será surpresa se a companhia pagar mais caro no kit CPU/GPU, pelo menos enquanto o seu novo console não ganhar tração no mercado. Segundo análise da Bloomberg, o custo de fabricação, adicionando os custos de divulgação, logística e garantia do produto, fariam com que o PlayStation 5 custasse, pelo menos, US$ 470. Isso em uma análise bem otimista.

Uma análise dos componentes já anunciados do novo console, o Digital Trends também chegou a uma estimativa de custo de produção próxima a US$ 500. Ainda assim, trabalhar com essa expectativa é uma aposta bastante conservadora.

PlayStation 5 em duas versões

Na apresentação da última quinta-feira, a Sony também revelou que o PlayStation 5 contará com duas versões: uma tradicional com leitor de Blu-Ray e outra chamada Digital Edition, sem o leitor de disco. Essa estratégia pode apontar duas direções distintas.

A primeira é reduzir o custo de produção retirando o componente, o que daria ao usuário uma versão mais barata de compra. Assim, a companhia colocaria o modelo sem mídia física por US$ 450, por exemplo, e manteria a versão padrão com etiqueta de US$ 500 (suposição de redução de US$ 50 foi feita com base no Xbox One, cuja versão sem disco é US$ 50 mais barata que a completa).

Outra possibilidade seria de segurar o preço mínimo em US$ 500. Isto é, a Sony sabe que seu console vai ser caro e que pode custar acima desse valor, por exemplo. Assim, cria uma versão mais barata cujo preço de lançamento é a partir de US$ 500.

Assim, as opções seriam:

Cenário 1

  • PS5 com disco: US$ 500
  • PS5 sem disco: US$ 450

Cenário 2

  • PS5 com disco: US$ 550/US$ 600
  • PS5 sem disco: US$ 500

O fator COVID-19

Um dos entraves para o lançamento da nova geração é a pandemia do novo coronavírus (SARS-CoV-2). Os consoles são produzidos por companhias como a Foxconn, que tem sede na China e que já informou atrasos na sua linha de montagem. No começo do ano, por estar no epicentro da COVID-19, a empresa parou sua linha de montagem, retomando apenas em março.

Especialistas consultados pela Bloomberg disseram que se a pandemia se estendesse para além de abril, nem PlayStation 5, nem Xbox Series X poderiam ser lançados no final do ano como programado.

Embora a Foxconn tenha voltado aos trabalhos, isso não significa o fim dos problemas. A Sony pode não conseguir produzir unidades suficientes para atender a demanda do mercado, encarecendo o produto. Ou seja, é possível que o PlayStation 5 chegue aos jogadores no final do ano, mas número escasso de unidades. Pela lei da oferta e procura, o preço também deve subir.

PlayStation 5: SSD pode colocar o preço do console acima dos US$ 500

O SSD (Drive de Estado Sólido) será o grande pilar que norteará o funcionamento do PlayStation 5. Ele fará com que o carregamento e o desempenho dos jogos sejam muito rápidos — principalmente em games de mundo aberto, mais pesados —, já que a leitura de dados nesse padrão é consideravelmente mais veloz se comparado ao disco rígido tradicional. Para você ter uma ideia, dê uma olhada no vídeo abaixo, que mostra Marvel's Spider-Man rodando em um PS4 Pro, com HDD, e em um PS5, com SSD:

A diferença é notável. Porém, apesar de as unidades SSD oferecerem uma performance muito melhor, ainda não ganharam escala suficiente para serem tão baratas quanto um disco rígido tradicional.

Uma reportagem da Bloomberg mostra que o cenário é ainda mais complicado: ela afirma que os preços flutuantes das unidades de memória DRAM e NAND - essenciais para fazer com que o SSD rode melhor em máquinas de alto desempenho - são fatores importantes no preço final do PlayStation 5. Isso porque os valores desses componentes podem aumentar significativamente, já que eles são demandados por uma série de dispositivos de última geração, como PCs, smartphones, tablets e aparelhos de Internet das Coisas (IoT). Esses produtos geralmente precisam de uma dessas memórias ou, em muitos casos, de ambas.

Com isso, segundo a reportagem, o preço dessas memórias elevou o custo por unidade do PS5 para US$ 450, um valor 18% maior se comparado ao PS4 original, cujo valor inicial de fabricação foi de US$ 381. Contudo, a escalabilidade pode diminuir esses preços, mas isso leva tempo. O PS4 Pro, lançado em 2016 (quase três anos depois do PS4 original), teve um custo inicial estimado em US$ 317 quando começou a ser comercializado.

E para além dos custos das memórias DRAM e NAND, temos outro ponto mais complexo (e caro): qual SSD o PlayStation 5 trará?

A Sony não pode oferecer uma unidade SSD com capacidade reduzida no PS5, como fazem, por exemplo, fabricantes de notebooks ou de smartphones. Isso porque os jogos para essa nova geração de consoles exigirão um espaço brutal de armazenamento. A empresa já informou que o SSD terá 825 GB de espaço interno e componentes com essa capacidade tendem a ser mais caros. Com isso, também seria razoável dizer que o preço do PS5 pode ultrapassar os US$ 500, chegando a US$ 600. A não ser que a Sony tenha feito o melhor acordo do mundo na compra desse tipo de dispositivo ou esteja disposta a perder dinheiro, pelo menos em um primeiro momento.

PlayStation 5: e o preço no Brasil?

Por enquanto, estamos falando em preço do videogame em dólares, o que não é exatamente o praticado aqui no Brasil por conta de uma série de impostos e taxas do governo sob importação, além da margem de lucro dos revendedores. Assim sendo, para calcular o preço de lançamento do aparelho por aqui, novamente é preciso olhar para o PlayStation 4.

O console chegou em 2013 às lojas brasileiras pelo pesado valor de R$ 4 mil. Isso porque a Sony ainda estava ajustando negociações com o varejo e buscando incentivos fiscais com o governo para ter um produto competitivo no mercado.

Diante disso, é possível fazer uma conta simples para saber qual foi o imposto e margem de lucro sobre os R$ 4 mil aplicados no PlayStation 4.

Tomemos como base o preço original do console (P) x cotação do dólar (C) + % de impostos e margem sob preço em reais (I). Isso leva à fórmula:

P x C + I(P x C) = (1 + I) x P x C

Considerando o lançamento em R$ 4 mil, preço original em US$ 399 e dólar a R$ 2,30 naquela época, temos:

4000 = 399 x 2,30 x (1 +I)

I = 3,35 de taxa e margem sob o preço original. Ou seja, o console chegou aqui 3,35 vezes mais caro sob preço original em reais.

Supondo que I seja o mesmo (ou seja, mantendo impostos e margem), é possível fazer a mesma conta para o lançamento do PlayStation 5 (com lançamento a US$ 500 e dólar a R$ 5):

X = (1 + I) x P x C = (1+3,35) x 500 x 5 = 10.875

Assim, com as mudanças de preço e cotação do dólar, caso as empresas mantenham no lançamento a margem de lucro e taxas em 3,35 vezes do preço original, o aparelho chegaria ao Brasil por mais de R$ 10 mil.

Vale lembrar que o preço do PlayStation 4 estacionou em R$ 2.500 no país cerca de seis meses depois do lançamento em 2013, um custo condizente com o preço nos Estados Unidos.

Realizando a mesma conta, isso levaria a uma margem de 72% (1,72) em cima do preço original em reais. Assim sendo, o PlayStation 5 poderia chegar aqui por:

X = (1 + I) x P x C = (1+1,72) X 500 x 5 = 6.800

Desta forma, o preço mais possível estacionário depois da febre de lançamento seria de cerca de R$ 6.800.

Melhores e piores cenários

É preciso lembrar ainda que a Sony não revelou o preço do PlayStation 5. As análises descritas aqui apontam novamente para um leque de US$ 450 (na melhor das hipóteses, na versão sem leitor de disco) e US$ 600 (na pior das hipóteses na versão com leitor de disco). Nesses casos, pode-se fazer o mesmo cálculo descrito acima para tentar identificar o preço do PlayStation 5 no lançamento no Brasil e depois de passada a febre. Vamos a eles (lembrando dólar a R$ 5):

Melhor cenário (US$ 450)

  • Lançamento: X = (1 + I) x P x C = (1+3,35) X 450 x 5 = R$ 9.787,50
  • Passada a febre: X = (1 + I) x P x C = (1+1,72) X 450 x 5 = R$ 6.120

Pior cenário (US$ 600)

  • Lançamento: X = (1 + I) x P x C = (1+3,35) X 600 x 5 = R$ 13.050
  • Passada a febre: X = (1 + I) x P x C = (1+1,72) X 600 x 5 = R$ 8.160

Dentro do cenário apresentado, o PlayStation 5 pode chegar ao mercado brasileiro custando entre R$ 9.787,50 e R$ 13.050, com queda para a faixa de R$ 6.120 e R$ 8.160 passada a febre do lançamento, caso não haja mudança em margem nem cotação do dólar.

Há opção? 

Embora a Sony venda os aparelhos oficialmente aqui no Brasil, o console também entra no país via importação, principalmente através do Paraguai. Por lá, o PlayStation 5 deve custar, acima dos R$ 2.500, caso o console custe US$ 500. Contudo, há um problema. O Canaltech conversou com dois lojistas que trabalham com este caminho de importação, os quais relatam um problema atual do setor.

Atualmente, o país está com as fronteiras fechadas por conta da COVID-19. Desta forma, os revendedores que compram do Paraguai para abastecer o mercado paralelo não conseguem atuar. A tendência é que, até o final do ano, isso se modifique e o país volte a ter relações com o país vizinho. Contudo, caso o fechamento da fronteira se mantenha, esta opção não deve existir.

Outra alternativa seria a compra direta em viagem aos Estados Unidos, comprando o aparelho diretamente em dólar. Novamente, o custo seria próximo de R$ 2.500 (com o dólar a R$ 5 e o console a US$ 500), mas com um custo de viagem e estadia no exterior. Contudo, também vale lembrar que o país norte-americano fechou a fronteira para visitantes brasileiros por conta da COVID-19. Em caso de manutenção disso até o final do ano, esta opção também não existiria.

Seja US$ 500 ou US$600, a Sony pode pagar a conta?

Como já foi citado nesta análise, a Sony tem o histórico de subsidiar parte do preço de seus consoles, principalmente no lançamento para segurar o custo na prateleira. Isso porque o modelo de negócios da companhia envolve ganhar mais com games e serviços dentro de sua plataforma do que exatamente com a venda de hardware em si.

Ou seja, o prejuízo da empresa em fazer os jogadores comprarem seu console compensa quando os jogadores compram games e assinam serviços na plataforma. Segundo relatório do ano fiscal da Sony apresentado em março de 2020, somente 30% da receita anual do setor de games veio de venda de consoles. No ano passado, esta fatia foi de 32,2%, queda natural por conta do fim da geração do console. Contudo, os números mostram que dois terços do lucro do braço de games da Sony vêm de venda de games e serviços. Assim, ter uma base instalada de PlayStation 5 é o caminho para engordar a receita no longo prazo.

A Sony tem condições de diminuir o preço do aparelho com o tempo também. Isso porque, na medida em que o console desempenha bem no mercado, a companhia se sente mais confortável para negociar grandes quantidades de componentes, tornando o produto mais barato.

Analisando o relatório fiscal de 2013, quando a Sony lançou o PS4, fica evidente que a empresa começou a produção com alto custo e depois conseguiu diminuir esse investimento. Na parte do relatório relativo a previsões para o início de 2014, ela aponta que a receita seria maior “por conta de redução de custo do hardware do PS4”. O mesmo deve acontecer com o PlayStation 5, com a Sony bancando o início de fabricação e, depois, ajeitando custos para começar a lucrar com o aparelho. Com o tempo, as empresas terceirizadas que fabricam os consoles já estão mais adaptadas, sendo que o custo de fabricação também acaba sendo menor.

Há outro fator mais prevalente no Brasil. O Canaltech conversou com lojistas que trabalham com a venda do PlayStation 4. Eles relatam que, com o tempo, o governo oferece incentivos que ajudam a derrubar o preço do console em relação ao custo inicial. Assim, revendedores conseguem oferecer melhores opções a lojistas, o que também reverte no preço para o consumido final.

A Sony ainda não disse quando vai anunciar o preço final do console de nova geração. O PlayStation 5 deve chegar ao mercado no final de 2020.

Fonte: EurogamerEngagetSony, Bloomberg, Digital Trends, VGChartz  

Gostou dessa matéria?

Inscreva seu email no Canaltech para receber atualizações diárias com as últimas notícias do mundo da tecnologia.