Os 5 melhores filmes de drama disponíveis na Netflix

Por Sihan Felix | 02 de Julho de 2019 às 23h00
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Em outra lista, escrevi: As expectativas raramente são benéficas quando se trata de cinema. Há, sempre, a necessidade se deixar levar por uma obra para que ela tenha a oportunidade de provar o seu valor. Preconceber julgamentos antes de ter contato real com o objeto pode ser um gesto que venha a desmerecer ou enaltecer o que, a partir de uma visão neutra, não passaria de merecedor de opiniões medianas, mornas.

Quando se trata de dramas, tudo ganha mais contornos. Isso porque um dos ganchos mais utilizados no cinema é a identificação – algo pensando já na escrita do roteiro. Se há o desejo de que o filme toque o público, é quase imprescindível que haja algum reconhecimento próprio no que se assiste. Não há, nesse sentido, imparcialidade. Todos temos histórias de vidas diferentes, particularidades intransferíveis... e tudo o que nos constrói acaba moldando essa assimilação.

É verdade que, para um julgamento crítico, é interessante que se faça o possível para que gostos pessoais não maculem o todo, mas jamais se pode deixar de lado o que se é. Se nos abrirmos para uma completa neutralidade, podemos nos tornar um tanto quanto robóticos e, no final das contas, acabamos criando a noção errada de que cinema – como arte que é – pode ser algo exato, quando, na verdade, é bem subjetivo.

Ao fazer uma lista, estamos invocando tanto aspectos objetivos e concretos (como a qualidade técnica, a competência da equipe) quanto os subjetivos (quem somos e o porquê de tais filmes serem marcantes em nós mesmos). E o drama tem uma carga enorme, visto que é, na prática, o gênero que mais diretamente reflete a vida como ela é – sempre tão dramática.

Ainda assim, para fazer a lista que exponho abaixo, procurei não ir aos filmes mais óbvios. A ideia foi trazer indicações que possam acrescentar. Então, dentro do catálogo da Netflix, podem ser encontrados outros tão bons quanto ou até objetivamente e particularmente melhores (como Um Sonho de Liberdade, O Pianista, A Lista de Schindler, Réquiem para um Sonho, Roma... e tantos outros). Isso só depende da observação individual de cada um de nós. Nada, aqui, tem a pretensão de ser uma verdade absoluta.

Dentro dessa abordagem, vamos à lista dos 5 melhores filmes de drama disponíveis na Netflix:

5. Com Amor, Van Gogh

Desde sua idealização, Com Amor, Van Gogh é um filme inovador. Há quem diga que o roteiro é superficial e que o filme se vale da técnica – sendo, frameframe, todo pintado a óleo. E pode ser verdade. Mas, simultaneamente, pode ser um dos maiores acertos. Isso porque me parece bastante complexo estar absorto na técnica de animação escolhida aqui e, ao mesmo tempo, conseguir se prender a qualquer história muito complexa.

Nesse sentido, a investigação de como se deu a morte de Van Gogh passa a ser um segundo plano. Pode ser um exagero (provavelmente é), mas como Fantasia o fez em 1940, trazendo a música como matéria-prima, aqui se trata da pintura muito mais do que da história contada. É um filme para apreciar a técnica, os traços, as pinceladas... com um roteiro que, se não fosse esses aparatos, poderia ser completamente descartável e banal.

Acima de tudo, ganha a história do cinema, ganha cada espectador apreciador de arte ao redor do planeta e ganha, com certeza, os amantes de Van Gogh.

4. Memórias Secretas

Com a ajuda de um companheiro sobrevivente de Auschwitz e uma carta manuscrita, um homem idoso e machucado pela idade sai em busca da pessoa que ele acredita ser responsável pela morte de sua família... para se vingar com as próprias mãos.

Protagonizado pela lenda Christopher Plummer (entre tantos papéis memoráveis, é quem dá a voz a Charles Muntz em Up: Altas Aventuras na versão americana), Memórias Secretas é daqueles filmes que podem bater bem fundo na gente. Com o suspense bem construído pelo diretor egípcio Atom Egoyam (de À Procura, 2014), o filme toca em elementos fundamentais da existência humana – como a dúvida – e rebate nas únicas certezas sobre a vida: todos iremos morrer e, se tivermos sorte, envelhecer antes disso.

Indicado ao Leão de Ouro no Festival de Veneza de 2015, Memórias Secretas ainda conta com o fantástico ator alemão Bruno Ganz (o Hitler de A Queda! As Últimas Horas de Hitler) e contorna todo o drama do protagonista com uma intrincada ação com pitadas de thriller.

3. Capitão Fantástico

Um pai dedicado a criar seus seis filhos com uma rigorosa educação é forçado a deixar seu paraíso – nas florestas do estado de Washington, nos EUA – e entrar no mundo dito civilizado, desafiando a ideia do que significa ser... pai.

Premiado ao redor do planeta, Capitão Fantástico traz reflexões sociais e religiosas de maneira muito aberta. Não é um filme que pretende abraçar a todos, podendo trazer algum desconforto em seus questionamentos para parte dos espectadores, mas, mesmo assim, talvez seja um tanto quanto impossível não estar acessível à sua qualidade geral. Permitir-se tocar pelo roteiro de Matt Ross (que também dirigiu o filme) e pelo seu conteúdo (às vezes bem ácido) é um caminho quase sem volta.

As atuações, por sinal – especialmente a de Viggo Mortensen (o Aragorn da trilogia O Senhor dos Anéis) – são um espetáculo à parte. E uma das mensagens que ficam é a da necessidade do amor, sendo o ódio relegado a uma função coadjuvante e totalmente antagônica.

2. Frida

Há dramas biográficos fantásticos na Netflix. Há dramas com um poder de identificação enorme para muitos e de alcance público imenso (como o recente O Menino que Descobriu o Vento). Há outros que, apesar de terem sido relativamente bem badalados, acabaram caindo a um segundo plano. Não nas malhas do esquecimento, mas foram apenas deixados um pouco de lado. Frida, então, está nesse segundo grupo e talvez seja uma injustiça enorme.

Dirigido pela fantástica Julie Taymor (que dirigiria ainda, no mínimo, mais um escanteado – o belíssimo Across the Universe), Frida é muito mais do que uma cinebiografia, é uma lição de vida, de amor, de fúria, de força. A história de uma mulher que canalizou a sua dor em seu trabalho e se transformou em um ícone. É a visão de uma mulher sofrida, mas livre e consciente através do olhar de uma diretora de muita competência.

Além disso, conta com uma atuação hipnótica de Salma Hayek (do recente Dupla Explosiva) que, por si só, vale cada minuto do filme.

1. A Ganha-Pão

Em 2001, o Afeganistão está sob o controle do Talibã. No meio desse contexto, uma jovem determinada se disfarça de menino para sustentar sua família quando seu pai é capturado.

A Ganha-Pão não é somente uma animação dolorosa e assustadoramente real. Ela é daquelas que tocam tão fundo na gente que, por mais de um motivo, podem despertar a nossa empatia – algo tão necessário nos dias de hoje.

Dirigido pela diretora Nora Twomey, que havia realizado antes os lindíssimos curtas-metragens From Darkness (de 2002) e Cúilín Dualach (de 2004), e com Angelina Jolie como produtora executiva, a história é, talvez, a que tem a maior possibilidade de fazer chorar dessa lista, tamanha a sensibilidade de Twomey e do roteiro da ucraniana Anita Doron (roteirista e diretora do ótimo The Lesser Blessed, de 2012)

Bônus Adam Sandler: Os Meyerowitz: Família Não Se Escolhe

Repleto de diálogos realistas e, ao mesmo tempo, estranhos, Os Meyerowitz: Família Não Se Escolhe é de uma precisão cirúrgica na concepção da relação entre um pai e seus filhos. Muito bem alicerçado nas atuações de Dustin Hoffmann (Harold), Ben Stiller (Matthew) e Adam Sandler (Danny), o diretor e roteirista Noah Baumbach (indicado ao Oscar pelo roteiro de A Lula e a Baleia, em 2006) fundamenta um filme cheio de humanidade, capaz de causar confusão, felicidade, acessos de raiva... sempre de uma maneira muito genuína e por meio da criação de sintonia entre filme e espectador.

Os Meyerowitz: Família Não Se Escolhe é, também, uma prova dupla: para os fãs e para os não-adeptos da carreira de Adam Sandler. Aqui, eles podem encontrar o ator em uma das suas atuações mais relevantes (ao lado de Reine Sobre Mim e Embriagado de Amor), tanto que o ator, merecidamente, foi ovacionado no Festival de Cannes. Apesar do humor meio amargo do personagem coincidir com muito do que Sandler já fez, há detalhes que o levam muito além, são camadas e mais camadas de um homem que jamais desistiu de ser feliz, mas, mesmo assim, sente-se fracassado.

ps: É a segunda vez que esse mesmo filme se encaixa no bônus Adam Sandler.

Menções honrosas

Devido ao grande número de dramas de altíssima qualidade no catálogo atual da Netflix, talvez seja injusto eu listar algumas menções honrosas de fato. Sendo assim, farei as menções a seguir em tom de indicação, do mesmo modo que fiz a lista principal:

1. Frances Ha: porque é dirigido lindamente por um dos diretores do momento (ele novamente – Noam Baumbach), é protagonizado por Greta Gerwig e é uma história sobre entrar de cabeça nos nossos sonhos.
2. Julieta: poderia ser, somente, porque é um Almodóvar, mas, para não cair em qualquer espécie de argumento de autoridade, é das histórias mais sensíveis (sem deixar de ser filmada com humor) do diretor e roteirista espanhol.
3. La Bamba: porque “para bailar La Bamba se necessita una poca de gracia”. É uma história biográfica de ascensão bombástica e queda trágica que merece ser conhecida.
4. Amor Além da Vida: porque o romantismo não pode morrer, porque tem abertura para questionamentos religiosos pouco comentados no cinema hollywoodiano (sendo a doutrina espírita o foco), porque é sensível, porque tem uma interação entre homem e arte lindíssima; e porque... Robin Williams.
5. Cinema, Aspirinas e Urubus: porque, além de ser um filme dos mais bem conceituados do cinema nacional no século XXI, coescrito pelo recém-premiado em Cannes Karim Aïnouz (por A Vida Invisível de Eurídice Gusmão), uma sinopse oficial (a que está no IMDb) diz (em tradução livre): “Um road movie sobre um alemão que foi para o Nordeste do Brasil em 1942 para vender aspirina.”

Ficam, então, as indicações e o espaço dos comentários para acréscimos e tudo o que desejarem. Sem dúvida, como sempre ao fazer uma lista, foi dolorido, mas tenho certeza que vocês conseguirão complementar e enriquecer tudo o que está aí.

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