Crítica | Os 7 de Chicago é duro e expressivo em sua relação com a atualidade

Crítica | Os 7 de Chicago é duro e expressivo em sua relação com a atualidade

Por Sihan Felix | 19 de Outubro de 2020 às 10h30
Netflix

Não é comum um roteirista alcançar o status de autor praticamente ao nível da direção. No cinema, o roteiro pode até ser o princípio, mas a visão sobre o texto pode transformar praticamente tudo. Ela (a direção) acaba por ser o meio e o fim. Acontece que Os 7 de Chicago, um dos filmes mais aguardados do ano na Netflix, é escrito por Aaron Sorkin, um dos mais badalados escritores para cinema dos últimos muitos anos e, ainda, conta com sua própria direção.

Aliás, existe algo que pode marcar de fato um bom roteiro: os diálogos. Nesse caso, Sorkin talvez ultrapasse até mesmo a linha da excelência. Por essa perspectiva, os filmes escritos por ele geralmente são guiados, justamente, pelas palavras ditas. Cria-se, logo, quase que um paradoxo sobre o poder das imagens, sobre os diálogos serem necessários apenas quando o visual não puder falar, algo expresso até mesmo por Alfred Hithcock.

O poder de condução das falas escritas por Sorkin é tanto que praticamente não importa quão densa e recheada de informações é a história, porque é possível acompanhá-la sem nem mesmo entendê-la de maneira profunda. Parece que faz parte da experiência de assistir a um filme escrito por ele. A Rede Social (de David Fincher, 2010), por exemplo, por mais que seja dirigido por um dos diretores atuais de competência inquestionável e de domínio absoluto sobre as imagens, mantém essa aura sorkiniana, de que nada daquilo aconteceria com menos palavras.

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Atenção! Esta crítica contém spoilers sobre o filme!

Unidade consistente

Os 7 de Chicago, por sua vez, não foge dessa assinatura. São dezenas de informações despejadas pelos personagens a todo instante, todas necessárias a ponto de criar um grau de urgência e nervosismo inseparável do desenvolvimento. Pode-se esquecer o que foi dito, mas a sensação do que é escutado fica, o que demonstra um domínio pra lá de absurdo (no melhor sentido) do roteirista.

Em meio à profusão de elementos textuais, existe, então, o Sorkin diretor. É difícil dizer, só por ser seu segundo trabalho nesse posto, que se trata de um profissional inexperiente. Por estar no meio do cinema desde o início da década de 1990 — quando foi lançado Questão de Honra (de Rob Reiner, 1992), o primeiro filme roteirizado por ele —, há uma consciência estética e de linguagem inerente em seu trabalho. A prova disso é, exatamente, a sua primeira direção: A Grande Jogada (2017). No pouco comentado filme de três anos atrás, o ritmo imposto pelo diretor já se mostrava fluente e os planos utilizados diziam tanto quanto o que falavam as personagens de Jessica Chastain, Idris Elba e Kevin Costner.

Com o filme original da Netflix não é muito diferente, mas, se não é possível dizer da inexperiência de Sorkin, é necessário comentar sobre seu amadurecimento na cadeira da direção. Nesse sentido, cada elemento visual não está somente em um lugar capaz de causar sensações — por mais que estas sejam inconscientes e frutos da experiência de assistir —, mas existe uma unidade muito fechada e concreta nas escolhas estilísticas.

Um dos pontos mais importantes que revelam o quanto a direção de Sorkin já anda de mãos dadas com sua desenvoltura para a escrita é a forma com a qual as trocas de olhares e o gestual parecem complementar e enriquecer o todo. Em um dos pontos altos do filme, o monólogo proferido por Bobby Seale (Yahya Abdul-Mateen II) está bem longe de funcionar somente por causa do que é dito. A decupagem pensada pela direção é precisa, ora abrindo o plano para revelar o desconforto daquele homem observado por presentes e júri brancos, ora aproximando-se em closes pontuais que, filmados em contra-plongée (de baixo para cima), dão força e grandeza ao personagem histórico.

As trocas de olhares... (Imagem: Divulgação/Netflix)

Em meio à constante fundamentação da dita unidade, as atuações alcançam, igualmente, destaque. Ao mesmo tempo que Abdul-Mateen II consegue ser uma representação digna dos Panteras Negras, é provável que Mark Rylance (como William Kunstler) e, especialmente, Frank Langella (como o juiz Julius Hoffman) chamem a atenção tamanha as presenças em cena. Claro que suas grandezas são frutos não somente de suas competências individuais, mas da exposição proposta pelo diretor.

Uma representação digna dos Panteras Negras. (Imagem: Divulgação/Netflix)

Um libelo sócio-político

Sorkin, além disso, parece saber muito bem sobre o terreno que está lidando. Sendo Os 7 de Chicago baseado em eventos que aconteceram na década de 1960 — eventos estes que findaram em uma briga de grandes proporções entre manifestantes e órgãos contrários —, não existe somente a contação de uma história. O que acontece, no final das contas, é uma profunda visita ao passado para comentar o presente, o que faz o filme ser um libelo sócio-político que surge em um momento necessário.

Ainda, as presenças de Sacha Baron Cohen como Abbie Hoffman e Jeremy Strong como Jerry Rubin são tão significativas politicamente quanto poderiam. O contexto antiguerra e a mobilização jovem contra um governo autoritário parecem se encaixar bem à dupla, que é quase dois lados diferentes da mesma moeda. Assim como Hoffman e Rubin se encaixam, Sorkin promove uma ligação perfeccionista entre ficção e realidade, recortando passagens de noticiários daquele período e entrelaçando com a ficção — tal qual, despojadamente, tem feito Spike Lee.

Dois lados diferentes da mesma moeda. (Imagem: Divulgação/Netflix)

Longuíssimo prazo pela frente

Enfim, a aula de história recente dos EUA que é dada por Sorkin só é possível pela junção de todos os elementos fílmicos: se tudo estiver em comunhão, o resultado dificilmente não será um filme relevante. Pensando nisso, Os 7 de Chicago não é somente expressivo. Só o tempo dirá, claro, mas, ao resgatar fatos e trazer à tona uma realidade doente — e podre — da política de mais de meio século atrás com tanta competência, Sorkin consegue traçar um paralelo, também, com a obra-prima máxima de Sidney Lumet: 12 Homens e uma Sentença (de 1957).

Langella, poderoso. (Imagem: Divulgação/Netflix)

Isso não é uma comparação qualitativa; é, somente, a constatação do poder que a arte tem de tocar em temas complicados, duros e, a partir da linguagem, fazer refletir. Pensar o presente através de uma realidade que insiste em permanecer ativa, mesmo sendo tão desoladora — como o abuso de poder e a corrupção —, pode ser uma saída para o planejamento de um futuro melhor. Talvez seja necessário um pensamento a longuíssimo prazo porque, infelizmente, mais de 50 anos se passaram e, de repente, o discurso de Sorkin é bem atual.

Os 7 de Chicago pode ser assistido na Netflix.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Canaltech.

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