Crítica | Relatos do Mundo pode ser a vida como uma caixa de bombons vazia

Por Sihan Felix | 27 de Janeiro de 2021 às 18h30
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Faroestes, geralmente, parecem tentar nos fazer encaixar em seus universos. Por mais que às vezes possam ser graficamente violentos, multitemáticos, de ritmos variados e até disfarçados de um estático road movie (como o recente First Cow — de Kelly Reichardt), existe uma tentativa de uniformidade no que é visto. Relatos do Mundo, por outro lado, é uma aposta do contrário. O diretor Paul Greengrass (de Capitão Phillips, 2013) está muito mais interessado em repartir o filme esteticamente e unir seu público justamente em uma selva (ou deserto) desigual.

A dinâmica visual proposta pela direção, então, é de opostos. Se, inicialmente, Greengrass nos leva a um local fechado à noite e desenvolve a cena por meio de planos detalhes e closes iluminados por uma luz amarelada, na sequência vemos um plano geral azulado do amanhecer, logo iluminado pela então presença do sol. Isso acontece, inclusive, após a exposição de um porta-retratos com a foto da esposa do Captain Kidd (Tom Hanks). É um simbolismo que acaba corroborando a força da ideia de um diretor que optou pelo desconforto estético.

Um plano geral azulado do amanhecer... (Imagem: Divulgação/Universal Pictures)

Atenção! Esta crítica contém spoilers sobre o filme!

Da imagem ao som

Acontece que toda a inquietação na aparência de Relatos do Mundo não demora para encontrar força em cada detalhe do filme. Nesse sentido, a jovem alemã (interpretada por Helena Zengel) criada por indígenas de uma tribo Kiowa logo se mostra como o mote, a motivação para que tudo aconteça. Essa camada, apesar de ser a mais superficial e aparente do planejamento de conflito do diretor, também é a que vai, pouco a pouco, possibilitar que todas as outras nuances surjam.

Mas não é suficiente para o roteiro do próprio Greengrass e de Luke Davies (de Lion: Uma Jornada para Casa) que uma menina loira de olhos azuis fale na língua dos Kiowa. O conceito, aos poucos, vai se amarrando ao texto, com Johanna (Zengel) também sendo exposta como “órfã duas vezes”: dos pais alemães e dos pais nativos daquela terra. A visão de confronto, portanto, que parte do livro de Paulette Jiles (que dá origem ao filme), encontra força e sustentação em cada passo dado pelo filme.

Por essa perspectiva, a personagem de Hanks é quase que metalinguística. O pacífico leitor de notícias que trabalha de cidade em cidade pode acabar com três criminosos em um local e plantar a semente de uma revolução em outro. No primeiro caso, a vida do Captain Kidd mistura-se ao carisma e caráter do próprio ator, transformando o que se vê em uma das cenas mais tensas dos últimos anos. Inclusive, até mesmo aqui, há o sentido de oposição instituído por Greengrass: se, em um momento, a personagem de Hanks está no alto da colina e os bandidos sobem em sua direção; em outro, os opositores estão invertidos, com o protagonista abaixo de rochas e Almay (Michael Angelo Covino) logo acima.

No alto da colina. (Imagem: Divulgação/Universal Pictures)

O caráter de duplicidade estende-se da imagem ao som. Nessa última cena, por exemplo, todo o silêncio da tensão, até mesmo da total ausência de trilha musical, é quebrado pela opção do Captain em bater sua arma nas rochas para que, com isso, possa não somente dar um desfecho à situação, mas, igualmente, quebrar a necessidade de silêncio. Tanto que, em seguida, a conversa entre ele e Johanna é quase ininterrupta, além de trazer, mais uma vez, o contraste de opostos, com ela ensinando-o a língua Kiowa e ele a ensinando o inglês.

Como uma caixa de bombons

Relatos do Mundo, aliás, é carregado de subtextos para quem quiser ir além do universo do filme em si. Não é à toa que Johanna, em um primeiro momento sem fala alguma, tenha a sua primeira palavra dita como sendo História. Greengrass valoriza o momento, centralizando a menina em plano americano e quebrando o ritmo da cena para que ela seja observada — como, também, para que o espectador, de repente, sinta o impacto daquela palavra.

Hanks, por sinal, parece viver uma espécie de Forrest Gump sem fantasias, muito mais sério — claro — e sofrido. Captain Kidd não está ali para entreter sentado em um banco de praça; ele não se pretende para falar de seus feitos pessoais cheios de metáforas sobre a vida ser um caixa de bombons. É verdade, porém, que ele sabe que não dá para ter certeza se encontrará algo ou, caso encontre, sobre o que estará dentro — ou em seu caminho. Pensando nisso, sua função é a de informar e, com as informações, preparar seus ouvintes para o que quer que seja.

No final das contas, o personagem é tão forte e significativo que pode passar despercebido que ele mesmo escolhe o que os seus ouvintes devem ouvir. Apesar disso, fica evidente que suas escolhas fogem das notícias (geralmente mentirosas) que os poderosos querem que sejam comentadas — o que fica nítido quando, propositadamente, ele instaura uma pequena revolução na cidade do Mr. Farley (Thomas Francis Murphy).

É hora de instaurar uma revolução. (Imagem: Divulgação/Universal Pictures)

O inferno não são os outros

São tantos personagens repartidos durante Relatos do Mundo que, quando o filme chega ao fim, talvez nem se perceba que Captain Kidd passou por todo o road movie estando repartido pela saudade de sua esposa e que, ao final, o que quebra ao meio é seu próprio coração. Não por uma força humana, mas por um mal da época. A cólera (como a meningite — que também é comentada) encerra a possibilidade de o herói sentir-se em qualquer tipo de céu.

Para Greengrass, o inferno não são os outros, é, além da ausência, o acaso. E este é incontrolável, incontornável e pode encontrar lugar em cada um de nós. Assim como as notícias que chegam do mundo real não são tão boas, News of the World (no original) é pessimista e, no momento, pode ser que não exista outra forma de o ser.

Relatos do Mundo estará disponível no catálogo da Netflix a partir do dia 10 de fevereiro de 2021.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Canaltech

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