Crítica Quanto Vale? │ Uma vida não cabe em uma equação

Crítica Quanto Vale? │ Uma vida não cabe em uma equação

Por Durval Ramos | Editado por Jones Oliveira | 09 de Setembro de 2021 às 18h10
Divulgação/Netflix

Ao longo dos últimos 20 anos, vimos uma infinidade de filmes sobre a tragédia do 11 de Setembro. São produções que abordaram o ataque terrorista ao World Trade Center, suas causas, o que aconteceu naquele dia, o momento da queda e até mesmo os impactos da sociedade americana a partir dali. Por ser um dos eventos mais marcantes do século, é natural que seja revisitado de diferentes formas. E, mesmo assim, Quanto Vale? encontra uma forma de contar essa história de uma forma um tanto quanto inesperada.

O longa protagonizado por Michael Keaton retrata o impacto do atentado na vida das famílias das vítimas sob uma perspectiva mais econômica, usando como gancho a indenização que o governo dos EUA pagou como forma de compensar as perdas e ajudar quem ficou a recomeçar. Mas existe um valor que seja suficiente para pagar a ausência de alguém que se foi de forma tão traumática assim? Como precificar a vida humana?

Essa é a grande questão que o filme carrega já em seu título e que serve de justificativa para contar tanto as histórias de quem se foi naquela fatídica terça-feira quanto a situação de quem ficou. Para isso, a trama acompanha a saga de Ken Feinberg (Keaton), um advogado especializado em acordos indenizatórios que se voluntaria para comandar a equipe que vai definir o valor pago às famílias.

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É aí que a pergunta passa a fazer sentido, já que logo de cara fica claro que as vidas perdidas têm valores diferentes. A vida de um executivo vale mais do que a de um zelador, sendo que ambos foram vítimas das mesmas circunstâncias? Como explicar isso para quem ficou e luta para recomeçar?

Para chegar a uma resposta, Ken e sua equipe montam uma fórmula matemática. E é aí que entra a figura de Charles Wolf (Stanley Tucci), um líder comunitário que inicia um movimento para questionar os critérios usados para a composição desse fundo e que se levanta, principalmente, para lembrar a todos que as pessoas não são números, mas indivíduos com rostos, nomes e histórias únicos que não cabem em uma equação.

Atenção! Este texto pode conter spoilers!

O despertar da humanidade

Esse é o grande mérito de Quanto Vale?, que consegue partir de uma situação extremamente burocrática e criar uma história em torno capaz de destacar aquilo que há de mais impactante no pós-11 de Setembro: as feridas que ficaram abertas na sociedade americana. Não se trata apenas de contar a história das vítimas, mas de mostrar como as suas famílias tiveram lutar para provar que quem se foi não era apenas um dado em uma planilha.

Filme é uma jornada de um advogado para enxergar a humanidade por trás dos números de uma tragédia (Imagem: Reprodução/Netflix)

Isso acontece principalmente a partir da jornada de transformação pela qual o personagem de Keaton passa. Ele é construído inicialmente como o clássico advogado sem alma que o cinema adora retratar e que, apesar de ter se comovido com a tragédia dos atentados, acredita que sempre é possível chegar a um valor que vai deixar as partes contentes e resolver o problema.

Tanto que, para ele, o desafio é justamente fazer com que as pessoas aceitem o fundo e não a discussão sobre o que é ou não justo — a ponto de ele não se incomodar com o fato de a família de um executivo receber US$ 14 milhões de indenização enquanto a de um faxineiro ficar com apenas US$ 300 mil. 

Para isso, Ken Feinberg é retratado como alguém completamente sem tato — de forma até um bem irreal em alguns momentos — e que não esconde o seu desconforto ao ter que lidar com aquelas pessoas cujo futuro está na ponta de sua caneta. Para ele, tudo se resume a uma equação, sem se dar conta que essa matemática ofusca toda a humanidade por trás de um evento dessa magnitude.

O personagem de Michael Keaton é retratado inicialmente como esse alguém sem tato que quer só resolver o problema, mas é confrontado pela realidade (Imagem: Divulgação/Netflix)

Assim, a partir de seu confronto com a realidade, vemos sua transformação, que passa a ser também a mudança da lógica do próprio fundo. Não se trata mais apenas do que diz a letra fria da lei e os números de uma equação. Cada indivíduo é único e, por isso, as variáveis são infinitas — e é aí que vemos os dramas individuais de quem ficou e as particularidades envolvidas.

O curioso, no entanto, é que parece que Quanto Vale? tem medo de se aprofundar de fato nessas histórias e acaba passando por elas apenas de forma quase superficial para mostrar o quanto elas mexeram com o personagem de Michael Keaton. Em uma trama que se propõe a mostrar o lado humano por trás dos números de uma tragédia, o roteiro é muito comedido na hora de aprofundar essas situações. 

Personagem de Stanley Tucci é o principal responsável por questionar os cálculos e trazer à luz as histórias pessoais das vítimas (Imagem: Divulgação/Netflix)

Tanto que é difícil até mesmo pontuar qual foi o momento de virada, quando Feinberg deixa de ser o advogado que vê pessoas como dígitos e encara essas individualidades. Por um lado, isso deixa a história mais crível. Por outro, a impressão que fica é que o filme dá um tempo muito maior de tela aos jogos de poder e influência de advogados e governo que querem pagar mais aos mais ricos do que realmente desenvolvendo e aprofundando a situação das pessoas.

Passando pano

Isso tudo faz com que, apesar de discursar sobre o lado humano da situação, o filme escancare muito mais a frieza da realpolitik dos escritórios governamentais e de advocacia em situações como essa. Por mais que seja muito bonita a transformação do protagonista, o que está por trás de toda essa ação é o que mais chama a atenção — e em como Quanto Vale? parece não se importar com isso.

Apesar de todo o discurso sobre o lado humano da tragédia, filme ignora as próprias contradições ao dizer que vidas têm preços diferentes (Imagem: Divulgação/Netflix)

Ao construir essa imagem do advogado pragmático, o longa apresenta que o fundo não foi criado como uma forma benevolente para ajudar as pessoas, mas para evitar ações judiciais por parte das famílias contra as companhias aéreas, o que poderia quebrá-las e afetar a economia do país. Nesse ponto, eles deixam claro que algumas vidas valem mais do que outras e que não há como comparar um executivo de uma multinacional com um entregador que morreu ali por acaso. A tal equação nasce dessa distinção.

Só que essa é uma discussão que é rapidamente deixada de lado pelo longa, como se ele aceitasse que as coisas são assim mesmo. Tanto que em momento algum ele questiona essa lógica, mudando o foco para a tensão e discussão sobre a justiça dos pagamentos indenizatórios aos mais ricos que querem ganhar ainda mais.

Isso torna tudo bem contraditório, uma vez que o roteiro responde a pergunta do título com um sonoro “depende”, deixando claro que uma vida vale mais do que a outra — o que vai na contramão da jornada bonitinha apresentada pelo personagem de Keaton e que faz com que toda  a questão da humanidade por trás dos números vá só até a página dois. 

Quanto Vale? está disponível no catálogo da Netflix para seus assinantes.

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