Reforço da vacina contra COVID-19 | Saiba tudo sobre a terceira dose

Reforço da vacina contra COVID-19 | Saiba tudo sobre a terceira dose

Por Fidel Forato | Editado por Luciana Zaramela | 31 de Agosto de 2021 às 10h39
Twenty20photos/Envato Elements

No combate ao coronavírus SARS-CoV-2, inúmeros países ao redor do globo já anunciaram planos de aplicar a terceira dose da vacina contra a COVID-19 em suas populações, principalmente nos idosos e nos pacientes imunossuprimidos. Entram nessa lista o Brasil, mas também Israel, Estados Unidos, Chile, Uruguai e inúmeros países europeus. No entanto, o reforço não é consenso.

Vale ressaltar que não são novas fórmulas pensadas para as variantes do coronavírus em circulação, como a Delta (B.1.671.2). Por exemplo, a farmacêutica AstraZeneca testa um imunizante turbinado a partir da variante Beta (B.1.351) do coronavírus no Brasil. Só que a fórmula experimental não deve integrar, neste momento, os planos de reforço contra a COVID-19.

Terceira dose da vacina contra COVID-19 poderá ser feita com marca diferente (Imagem: Reprodução/Davidpereiras/Envato Elements)

Na verdade, os reforços serão feitos com os mesmos imunizantes já usados na população, o que se propõe, em alguns casos, é a troca do fabricante. Se a primeira e a segunda dose foi X, a terceira será Y. Em outras palavras, é a vacinação heteróloga. No caso brasileiro, a vacina CoronaVac não será considerada para os reforços.

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Como será a terceira dose no Brasil?

De acordo com o Ministério da Saúde, a terceira dose começará a ser aplicada, nacionalmente, na segunda quinzena de setembro em idosos acima de 70 anos e pacientes imunossuprimidos, de forma escalonada. Isso significa que esses públicos devem ser selecionados por grupos etários, por exemplo, aqueles com mais de 90 anos. No entanto, algumas capitais do país, como São Luís, já iniciaram esse processo.

De acordo com a Saúde, a dose de reforço valerá para qualquer pessoa independente da vacina contra a COVID-19 que recebeu inicialmente. Por outro lado, a recomendação é de que o reforço deve ser "realizado, preferencialmente, com uma dose da Pfizer/BioNTech. Na falta desse imunizante, a alternativa deverá ser feita com as vacinas de vetor viral, Janssen ou Astazeneca".

Além disso, a dose de reforço para imunossuprimidos é orientada, a princípio, para pessoas que tomaram a segunda dose (ou dose única) há pelo menos 28 dias. Já para idosos, acima de 70 anos, é preciso ter concluído o esquema vacinal há pelo menos 6 meses.

Por que idosos e imunossuprimidos devem ser prioridade?

Idosos devem ser os primeiros a receberem o reforço das vacinas contra a COVID-19 (Imagem: Reprodução/Rido81/Envato Elements)

Com a aplicação de uma dose de qualquer imunizante, o organismo começa a preparar uma resposta imunológica contra aquele potencial invasor, como a produção de anticorpos (proteínas) neutralizantes e de outras células específicas de defesa — como os linfócitos ou células T de memória. Conforme os meses passam, o número de anticorpos neutralizantes — as primeiras defesas do organismo contra um invasor — caí.

De acordo com os estudos das farmacêuticas, essa diminuição é verificada tanto em idosos quanto em jovens. O possível problema é que as células responsáveis pela produção dessas proteínas, caso sejam necessárias, também morrem em pacientes com o sistema imunológico mais debilitado. Este acontecimento é conhecido como imunossenescência e afeta, principalmente, os idosos.

Em preprint — estudo científico não revisado por pares —, os níveis de proteção da AstraZeneca e da CoronaVac, literalmente, despencam na população brasileira com mias de 80 anos. "A proteção mostrou variar de acordo com a faixa etária", alertam os autores do estudo. Nesse cenário, "uma redução na eficácia [da CoronaVac] foi observada após os 80 anos, com apenas 35,4% de proteção contra morte observada em indivíduos com mais de 90 anos", afirmam. Em paralelo, a vacina da AstraZeneca obteve 70,5% no mesmo grupo etário.

"É razoável atribuir a redução observada na eficácia à imunossenescência, que é comumente associada a uma maior frequência de comorbidades e pode implicar em taxas de mortalidade mais altas", explicam os autores sobre o processo de enfraquecimento natural do sistema imunológico nesses indivíduos. "Considerando o cenário atual no Brasil, nossos achados demonstram a eventual necessidade de uma dose de reforço da vacina em indivíduos com 80 anos ou mais que receberam CoronaVac, bem como em indivíduos com mais de 90 anos imunizados com AstraZeneca", orientam.

Posicionamento da OMS

Mesmo que haja uma grande discussão e movimento pela terceira dose, a Organização Mundial da Saúde (OMS) mantém um posicionamento bastante claro sobre a questão: ainda é cedo. No entanto, o entendimento parece não ser mais consenso dentro da entidade com a última declaração da divisão europeia da OMS, após anúncio feito na segunda-feira (30).

OMS defende importância da vacinação global contra o coronavírus (Imagem: Reprodução/Dante Doria/Pixabay)

De forma geral, a OMS defende que as vacinas cheguem ao maior número de pessoas do globo, o que ainda não ocorre hoje, antes de países aplicarem a terceira dose e reduziram ainda mais o estoque de imunizantes disponíveis para os países mais pobres. Isso porque apenas 1,6% das pessoas em países de baixa renda receberam pelo menos uma dose, segundo dados da plataforma Our World in Data.

Nesse cenário de desigual ao acesso de vacinas contra a COVID-19, a terceira dose foi classificada, durante a semana passada, como um “erro técnico, moral e político” pelo diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus. Um dos argumentos é de que, sem o controle global da pandemia e da distribuição mais igualitária dos imunizantes, novas variantes do coronavírus vão surgir e, constantemente, ameaçarão as proteções fornecidas pelas vacinas.

Qual é a eficácia de uma dose de reforço?

Ainda não é possível afirmar quanta proteção uma dose de reforço pode fornecer, em termos de prevenção de casos da COVID-19, desde infecções até formas graves da doença ou morte. Nos testes em andamento, o que se observou foi um aumento significativo nos níveis de anticorpos após a terceira dose. Atualmente, os estudos necessários para responder a esta pergunta estão em andamento. Inclusive, o Ministério da Saúde realiza testes do tipo hoje.

Também há uma discussão em andamento sobre a mistura e a combinação de vacinas e como podem oferecer proteção adicional contra o coronavírus. A ideia é que, como os imunizantes funcionam de maneira diferente e usam tecnologias próprias, receber vários tipos pode ampliar a resposta imunológica dos pacientes. Além disso, a adoção de diferentes vacinas já é conhecida pela ciência.

Jovens precisam de uma dose de reforço?

Talvez, no futuro. Todas as vacinas disponíveis contra a COVID-19 protegem e são eficazes, mesmo muito meses após a segunda dose. O estudo, que verificou a queda da proteção em idosos, também verificou uma alta efetividade dos imunizantes — CoronaVac e AstraZeenca — no público mais jovem.

De acordo com o levantamento que usou dados de mais de 60 milhões de brasileiros, a fórmula da AstraZeneca tem uma efetividade de 70%, enquanto a da CoronaVac é de 54,2% para casos sintomáticos. Agora, as porcentagens melhoraram quando se observa a capacidade de reduzir riscos de hospitalizações, internações na UTI e óbitos. A proteção chega a 90% no caso da AstraZeneca, e a 75% no caso da CoronaVac.

Dessa forma, a possível recomendação futura para se receber um reforço não deve ocorrer porque o protocolo de vacinação atual não é eficaz. Sim, porque o caráter protetor das vacinas diminuem, naturalmente, com o tempo. Outra possibilidade é que, para este grupo, sejam usadas vacinas ainda em desenvolvimento, como as de segunda geração. No Brasil, pesquisadores trabalham na ButanVac.

Questão das células T

Outro ponto nessa discussão é que as defesas do organismo não podem se resumir aos anticorpos neutralizantes, afinal o sistema imunológico é complexo e depende de inúmeras variantes. Por exemplo, um dos aliados é a célula T de memória, que "lembram" de infecções passadas e ajudam a reativar as defesas do corpo.

"Após uma infecção [ou sensibilização de um agente infeccioso, como a vacina], algumas dessas células T permanecem como células T de memória que reconhecem especificamente os componentes do organismo invasor. Algumas permanecem circulando no sangue, mas a maioria se dirige a diversos tecidos do corpo, especialmente aos tecidos de entrada do vírus, e ali ficam, aguardando a existência de uma nova infecção pelo mesmo organismo", comenta o pesquisador Tiago Veit, do departamento de Microbiologia, Imunologia e Parasitologia da UFRGS.

Novas vacinas contra a COVID-19 ainda devem ser desenvolvidas (Imagem: Reprodução/FabrikaPhoto/Envato Elements)

Por outro lado, "essas células T de memória são muito mais difíceis de medir do que os anticorpos, até porque, uma vez nos órgãos, uma boa parte dessas células T de memória não voltará para o sangue, o que limita a análise dessas células de memória residentes", explica Veit. Em outras palavras, ainda são defesas quase prontas contra a COVID-19.

Futuro: igual vacina da gripe

É provável que, nos próximos anos, a vacinação contra a COVID-19 se assemelhe com a imunização anual contra a gripe. "Assim como a vacina da gripe precisa ser tomada todo ano, provavelmente, tomaremos a vacina contra a COVID-19 por um tempo", afirmou o diretor do Instituto Butantan, Dimas Covas, anteriormente.

"Na minha previsão, [a vacinação contra o coronavírus] será anual. Nos próximos dois ou três anos, certamente, vamos precisar ter um reforço vacinal para a COVID-19, um reforço que inclua as eventuais variantes que podem aparecer durante o ano", afirma o diretor do Butantan. Nesse sentido, o processo deve ser o mesmo dos imunizantes contra a gripe, onde se estima as cepas mais circulantes da influenza e, em seguida, desenvolvem-se as vacinas.

Fonte: Com informações: Ministério da Saúde, UFRGSPopular Science e Anvisa 

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