Remédios para COVID-19: quais já foram testados e quais foram comprovados?

Por Fidel Forato | 19 de Julho de 2020 às 10h00
Christina Victoria/Unsplash

Desde os primeiros casos do novo coronavírus (SASR-CoV-2), pesquisadores do mundo todo investigam possíveis tratamentos para os pacientes da COVID-19 e até mesmo potenciais vacinas para imunização. Ainda sem um remédio específico, os casos mais graves, como os de pacientes internados em UTIs, são tratados de forma experimental com medicamentos off-label, ou seja, com um uso que se difere do que consta na bula.

No entanto, mesmo para redirecionar o uso de um medicamento, como buscam fazer para a COVID-19, os pesquisadores precisam demonstrar que a fórmula é eficaz e segura para o novo uso, afinal são diferentes agentes infecciosos. Para conter um novo vírus, por exemplo, as dosagens, provavelmente, são diferentes — e o quadro de saúde de quem vai receber a droga também pode ser outro. Nesse cenário, uma doença que causa insuficiência cardíaca não deveria ter como tratamento um remédio que, comprovadamente, altere o funcionamento do coração.

Pesquisadores investigam uma série de remédios contra o coronavírus, como ivermectina e remdesivir (Foto: HeungSoon/Pixabay)

Afinal, o que se faz tão necessário para a aprovação para o uso de um medicamento contra o novo coronavírus? Lembrando que os cientistas já investigam há mais de seis meses esse vírus. Só que isso, no universo das pesquisa científicas, é muito pouco e, fora do contexto da pandemia, levaria ao menos dois anos para a provação de uma droga para a COVID-19, como em um estudo clínico controlado e centenas de testes em milhares de pessoas.  

Diferença entre in vitro e in vivo

As pesquisas para o uso de um medicamento devem contar com experimentos in vitro, ou seja, em uma cultura de células, dentro de um laboratório, mas também in vivo, quando o composto é testado diretamente em pacientes biologicamente ativos, sejam animais ou seres humanos. Isso porque os resultados encontrados em um ambiente controlado podem ser muito diferentes dos encontrados em um organismo vivo.

Em outras palavras, o fato de uma substância funcionar contra o novo coronavírus num experimento in vitro não é uma prova de que ele também irá valer para o paciente com a COVID-19 e nem que ele seja seguro para um uso diferente daquelas dosagens e prescrições clínicas aprovadas anteriormente para outros fins. Isso implica em dois pontos: usos experimentais de um medicamento podem acontecer, desde que acordado entre médico e paciente, em estudos; e a automedicação quando feita, a partir de informações duvidosas, pode representar um grave risco à saúde.

A seguir, confira a lista com os principais remédios que são testados e prescritos, de forma experimental, para o tratamento de casos do novo coronavírus:

Ivermectina

Ivermectina é estudada no combate ao novo coronavírus (Foto: Luciana Zaramela/Canaltech)

Para que serve? A ivermectina é um remédio normalmente indicado para o combate de diferentes tipos de vermes e parasitas no corpo humano.

Qual a relação com o coronavírus? Pesquisas sugerem que o medicamento pode inibir a replicação do novo coronavírus in vitro. No entanto, um estudo do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP apontou para o fato da ivermectina ter atividade antiviral in vitro, mas não de forma não seletiva, ou seja: a droga pode eliminar o vírus das amostras, só que também mata as células portadoras.

Qual o status em agência reguladora? Segundo nota da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), "não existem estudos conclusivos que comprovem o uso desse medicamento para o tratamento da COVID-19, bem como não existem estudos que refutem esse uso". Além disso, a agência afirma: "o uso do medicamento para indicações não previstas na bula é de escolha e responsabilidade do médico prescritor". 

Uso comprovado contra COVID-19? Não.

Cloroquina e Hidroxicloroquina

Para que serve? Tanto a cloroquina quanto a hidroxicloroquina são dois medicamentos, atualmente, autorizados para tratamentos contra a malária e determinadas doenças autoimunes, como lúpus e artrite reumatoide. Embora sejam duas drogas "diferentes", a hidroxicloroquina é derivada da cloroquina.

Qual a relação com o coronavírus? No início da pandemia, a cloroquina e a hidroxicloroquina foram consideradas grandes apostas para o enfrentamento do novo coronavírus. Isso porque, em ensaios in vitro, a cloroquina se mostrou eficaz e seletiva contra o coronavírus, mas no organismo humano não se mostrou efetiva, de acordo com estudo do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP.

Qual o status nas agências reguladoras? Entre as recomendações do Ministério da Saúde está o uso da cloroquina ou da hidroxicloroquina, no tratamento precoce de pacientes com COVID-19, no Sistema Único de Saúde (SUS) — desde que acordado entre médico e paciente. No entanto, a Fiocruz se posicionou de forma contrária ao uso. Já a Anvisa afirma que "não existe ainda nenhum ensaio clínico concluído que comprove os benefícios da hidroxicloroquina no caso da COVID-19".

Além disso, a Organização Mundial da Saúde (OMS) suspendeu pesquisas relacionadas ao uso do medicamento e a Food and Drug Administration (FDA), agência norte-americana equivalente à Anvisa no país, também não autoriza mais o seu uso. 

Uso comprovado contra COVID-19? Não.

Azitromicina

Para que serve? A azitromicina é um antibiótico bastante conhecido e, normalmente, utilizado em humanos para o tratamento de infecções no trato respiratório.

Qual a relação com o coronavírus? O medicamento não é utilizado de forma isolada contra o novo coronavírus e, sim, de forma associada. Sua ação foi investigada quando associado à cloroquina e à hidroxicloroquina para pacientes da COVID-19.

Status nas agências reguladoras? O uso da azitromicina está, diretamente, ligado à liberação das drogas associadas.

Uso comprovado contra COVID-19? Não.

Nitazoxanida

Remédio Annita é investigado para o us contra a COVID-19 (Foto: Reprodução/ Fernando Bergamo)

Para que serve? A nitazoxanida, que é o princípio ativo dos antivirais mais conhecidos como Azox ou Annita, é indicada, na maioria dos casos, para combater parasitários e vermes.

Qual a relação com o coronavírus? As primeiras pesquisas apontaram que, após 48 horas de uso in vitro, o medicamento apresentou eficácia de 93,4% contra o coronavírus. No entanto, um recente estudo do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP observoiu que a fórmula tem atividade antiviral in vitro, mas não de forma não seletiva, ou seja: a droga pode eliminar o vírus das amostras, só que também mata as células portadoras.

Status nas agências reguladoras? Com o anúncio de estudos com a droga contra a COVID-19, a Anvisa passou a classificar a substância como de uso controlado, através de inclusão na Lista de Substâncias Entorpecentes, Psicotrópicas, Precursoras e Outras sob Controle Especial. No entanto, a agência ainda não se posicionou quanto ao uso. 

Uso comprovado contra COVID-19? Não.

Dexametasona

Esteroide dexametasona é investigado para tratamento da COVID-19 (Foto: Nati Harniki/ AP)

Para que serve? A dexametasona é um anti-inflamatório esteroide de uso bastante popular pelo mundo e é usado contra inflamações das mais variadas ordens. Por exemplo, é usadas para combater infecções fúngicas e bacterianas, como meningite e um tipo específico de pneumonia comum em pacientes com HIV.

Qual a relação com o coronavírus? A partir de uma pesquisa desenvolvida pela Universidade de Oxford, foi atribuído ao medicamento a melhora dos quadros graves de pacientes com COVID-19. Atualmente e antes da pandemia, hospitais costumam usar corticoides, como esse, para auxiliar nos quadros mias graves de infecção pulmonar.

Qual o status nas agências reguladoras? “Atualmente, existe um estudo aprovado e em desenvolvimento no Brasil para o uso de dexametasona no tratamento de COVID-19. O tempo para o desenvolvimento destes estudos depende do patrocinador da pesquisa e das instituições de pesquisa envolvidas”, afirma a Anvisa.

Uso comprovado contra COVID-19? Não.

Daclatasvir e Sofosbuvir

Para que serve? Tanto o daclatasvir quanto o sofosbuvir são dois medicamentos antivirais, normalmente receitados para o tratamento de pacientes diagnosticados com a hepatite C.

Qual a relação com o coronavírus? Os dois antivirais foram testados in vitro e se observou a capacidade de inibirem a replicação do novo coronavírus (SARS-CoV-2) em experimento realizado pela Fiocruz. Entre eles, os experimentos identificaram que o antiviral daclatasvir tem melhor potencial para conter o desenvolvimento da COVID-19. Ainda é necessária a validação dos medicamentos em estudos clínicos para eventual aprovação.

Qual o status nas agências reguladoras? Por se tratar de um estudo recente, a Anvisa ainda não se pronunciou sobre os medicamentos.

Uso comprovado contra COVID-19? Não.

Remdesivir

Para que serve? O remdesivir é um antiviral que já foi testado contra o Ebola e mostrou alguma eficácia para SARS (síndrome respiratória aguda grave) e MERS (síndrome respiratória do Oriente Médio).

Qual a relação com o coronavírus? Alguns estudos apontam para evidências de que o remdesivir pode acelerar o tempo de recuperação de pacientes graves.

Qual o status nas agências reguladoras? No contexto da pandemia, o medicamento recebeu autorização de uso emergencial para os pacientes contaminados, emitido pela Food and Drug Administration (FDA). A Agência Europeia de Medicamentos (EMA) também recomendou a autorização "condicional" do seu uso. No Brasil, a Anvisa afirmou estar em contato com a responsável pela fabricação para acompanhar a evolução dos estudos. Por enquanto, o remdesivir também não possui pedido de registro no Brasil.

Uso comprovado contra COVID-19? Não.

Fonte: Ministério da SaúdeJornal da USP, Estadão, ICTQ, Anvisa (1), (2) e (3)

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