Tim Cook envia e-mail para funcionários da Apple esclarecendo caso contra o FBI

Por Redação | 22 de Fevereiro de 2016 às 12h45
photo_camera Divulgação

Na manhã desta segunda-feira (22), o CEO da Apple enviou um memorando para os funcionários da empresa agradecendo o apoio no impasse contínuo entre a Maçã e o FBI. O executivo também aproveitou para reiterar a sua posição contra a criação de um backdoor para dar acesso a um iPhone usado por terroristas do Massacre de San Bernardino.

O e-mail de Tim Cook diz ainda que a Apple não está recuando em sua resistência à ordem judicial para desbloquear o iPhone em questão, alegando que a concessão estabeleceria um "precedente perigoso que ameaça as liberdades civis de todos".

Um link no e-mail de Cook também aponta os funcionários para uma nova página pública que fornece perguntas e respostas detalhadas que respondem a várias perguntas sobre a posição da Apple e o caso em geral.

Confira o e-mail de Tim Cook na íntegra:

"Equipe,

Na semana passada, convidamos os nossos clientes e pessoas de todos os Estados Unidos para participar de um diálogo público sobre questões importantes para o nosso país. Desde aquela carta, eu sou grato pela reflexão e discussão que tenho lido e ouvido, assim como a manifestação de apoio que recebemos de toda a América.

Como indivíduos e como uma empresa, não temos tolerância ou simpatia por terroristas. Quando eles cometem atos indizíveis, como os ataques trágicos em San Bernardino, trabalhamos para ajudar as autoridades a buscar a justiça para as vítimas. E isso é exatamente o que fizemos.

Este caso é muito mais do que um único smartphone ou uma única investigação, por isso, quando recebemos o pedido do governo sabíamos que tínhamos de falar. Está em jogo a segurança de dados de centenas de milhões de pessoas que cumprem a lei, e estabelecendo um precedente perigoso que ameaça as liberdades civis de todos.

Como você sabe, nós usamos a criptografia para proteger os nossos clientes – cujos dados estão sitiados. Nós trabalhamos duro para melhorar a segurança a cada versão do software porque as ameaças estão se tornando mais frequentes e mais sofisticadas o tempo todo.

Alguns defensores da ordem do governo querem reverter a proteção de dados do iOS 7, que nós lançamos em setembro de 2013. A partir do iOS 8, começamos a criptografar os dados de uma forma que nem mesmo o próprio iPhone pode ler sem a senha do usuário, portanto, se ele for perdido ou roubado, nossos dados pessoais, conversas, informações financeiras e de saúde estão muito mai seguras. Todos nós sabemos que reverter o progresso seria uma péssima ideia.

Os nossos concidadãos sabem disso, também. Durante a semana passada eu recebi mensagens de milhares de pessoas de todos os 50 estados, e a esmagadora maioria está escrevendo para expressar seu forte apoio. Um dos e-mails era de um jovem desenvolvedor de aplicativos de 13 anos que nos agradeceu por estar levantando-se para 'todas as gerações futuras'. E um veterano do exército me disse: 'Assim como a minha liberdade, eu sempre considerei minha privacidade como um tesouro'.

Eu também ouvi de muitos de vocês e estou especialmente grato por seu apoio. Muitas pessoas ainda têm dúvidas sobre o caso e nós queremos fazer com que elas entendam os fatos. Então, hoje estamos postando respostas sobre o assunto no apple.com/customer-letter/answers/ para fornecer mais informações sobre esta questão. Encorajo-vos a lê-las.

A Apple é uma empresa exclusivamente americana. Não parece certo para ela estar no lado oposto do governo em um caso centrado nos direitos e liberdades que o governo pretende proteger.

O nosso país sempre fica mais forte quando estamos juntos. Nós sentimos que o melhor caminho a seguir seria o governo retirar suas reivindicações ao abrigo da All Writs Act e, como alguns do Congresso propuseram, formar uma comissão ou outro painel para discutir as implicações da aplicação da lei, segurança nacional, privacidade e as liberdades pessoais. A Apple iria participar de bom grado de tal esforço.

As pessoas confiam na Apple para manter os seus dados seguros, e os dados são cada vez mais uma parte importante da vida de todos. Vocês fazem um trabalho incrível protegendo-os com os recursos que projetamos em nossos produtos. Obrigado.

Tim"

Entenda o caso

A investigação do FBI quanto ao massacre de San Bernardino, que deixou 14 mortos no estado da Califórnia (Estados Unidos) em dezembro do ano passado, vem rendendo uma bela dor de cabeça para a Apple.

A justiça do país norte-americano determinou que a Maçã crie um software capaz de desligar a função de destruir dados por completo em iPhones, facilitando a vida da Agência Federal de Investigação (FBI) na hora de quebrar a senha que protege o gadget a fim de descriptografar os dados ali armazenados.

A Apple se negou a cumprir a ordem judicial e recebeu o apoio de diversas outras companhias do setor. A decisão da Apple de lutar contra a ordem judicial dividiu Washington e o Vale do Silício. De um lado, um grupo formado principalmente por executivos de tecnologia enxerga o pedido como uma violação fundamental da privacidade dos consumidores. Do outro, legisladores consideram a recusa da empresa como um obstáculo sério na luta contra o terrorismo.

Entre as empresas que se posicionaram a favor da decisão de Tim Cook estão gigantes como Google, Facebook, Twitter e Microsoft. "Não podemos permitir que este precedente perigoso seja definido. Hoje a nossa liberdade está em jogo", disse Jan Koum, CEO do WhatsApp, em uma publicação no Facebook.

John McAfee, o criador de um dos principais antivírus do mercado e especialista em proteção online, também se manifestou a respeito do assunto – de uma forma mais polêmica, como já era de se esperar. Para ele, a criação de um backdoor no iPhone pela Apple é semelhante a entregar as chaves do armamento nuclear americano aos inimigos. Por mais que o FBI garanta que pode proteger essa tecnologia e que ela seria utilizada uma única vez, isso não é nada seguro, e basta que a ferramenta exista para que pessoal-chave comece a ser subornado e receba ofertas de encher os olhos.

Tim Cook já havia falado sobre o perigo de criar o backdoor solicitado pelo FBI em outra carta aberta. "Especificamente, o FBI quer que nós criemos uma nova versão do sistema operacional driblando vários recursos importantes de segurança e instale-a em um iPhone recuperado durante as investigações [do massacre de San Bernardino]. Nas mãos erradas, este software — que atualmente não existe – poderia ter a capacidade de destravar qualquer iPhone que tenha em mãos".

O ex-funcionário da Agência de Segurança Nacional dos EUA (NSA) e ativista da privacidade na internet, Edward Snowden, também escolheu um dos lados no embate entre a Apple e as demandas da justiça federal dos EUA. Snowden manifestou apoio à decisão do CEO da Apple, Tim Cook, dizendo que a batalha por segurança da Maçã de "o caso tecnológico mais importante da última década".

“O FBI está criando um mundo no qual os cidadãos confiam na Apple para defender seus direitos, em vez de ser o oposto”, disse ele na primeira de uma série de mensagens sobre o embate emitidas via Twitter.

Com informações do Tech Crunch

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