Com a tecnologia atual, poderíamos coletar amostras de objetos como o Oumuamua?

Com a tecnologia atual, poderíamos coletar amostras de objetos como o Oumuamua?

Por Daniele Cavalcante | 26 de Agosto de 2020 às 22h15
ESA/Hubble; NASA; ESO; M. Kornmesser

Em outubro de 2017, um astrônomo descobriu o 1I/'Oumuamua, um objeto interestelar que visitava o Sistema Solar, deixando a comunidade científica bastante intrigada. Ninguém sabe dizer ao certo sua composição ou de onde ele veio, e já é tarde demais para observá-lo — o objeto é pequeno demais para ser observado mesmo por um supertelescópio e já avançou em velocidade acima do normal rumo às fronteiras do Sistema Solar. Outro visitante interestelar que nos pegou de surpresa por aqui foi o cometa 2l/Borisov, em agosto do ano passado. E podemos nos preparar para próximas visitas desse tipo.

A ideia de perseguir um objeto interestelar já apareceu em alguns estudos anteriores, como o conceito do Projeto Lyra, proposto em março por pesquisadores da Initiative for Interstellar Studies (I4IS). Agora, uma equipe internacional liderada por esta mesma iniciativa elaborou artigo que foi submetido à Planetary Science and Astrobiology Decadal Survey (uma pesquisa que ajudará a desenvolver ideias de estudos para a próxima década).

O texto da I4IS se chama Interstellar Now! Missions to and Sample Returns from Nearby Interstellar Objects (“Interestelar Agora! Missões e amostras de objetos interestelares próximos”, em tradução livre). Nele, os pesquisadores argumentam que os próximos grandes telescópios desenvolvidos para observar exoplanetas (mundos que orbitam estrelas que não o Sol) serão revolucionários, mas não o suficiente para entender o que se passa nesses lugares distantes. Ainda será necessário enviar sondas para observar os planetas de perto.

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No entanto, enviar missões a outros sistemas estelares ainda é algo extremamente caro e demorado. Andrea Hein, um dos autores do artigo, explica que a observação de exoplanetas a partir da Terra certamente irá melhorar no futuro, e poderemos dizer se algumas formas de vida existem neles. Mas isso não substituirá ir até lá e olhar para eles de perto. A principal limitação é que os sistemas exoplanetários estão incrivelmente distantes.

O sistema estelar mais próximo de nós, o Alpha Centauri, está a 4,3 anos-luz de distância. Significa que, se enviássemos uma nave na velocidade da luz — coisa que ainda nem é possível com nossa tecnologia atual —, ela levaria quase 4 anos e meio para chegar lá. As sondas Voyager são os objetos humanos que foram mais longe no espaço, e elas estão atualmente a apenas 0,06% dessa distância. Levou 42 anos para isso.

Bem, a ideia é desenvolver uma tecnologia inovadora para ir mais longe, em menos tempo. Uma das propostas é a Breakthrough Starshot, que seria uma minúscula espaçonave enviada a Alpha Centauri, usando uma vela solar e um laser poderoso. No entanto, Hein e seus colegas explicaram que esses tipos de naves só serão lançados em algum momento da década de 2050, de acordo com as estimativas mais recentes. Isso significa que os primeiros dados a serem recebidos dessas sondas só chegariam depois de 2070.

Assim, Hein e seus colegas tentam colocar as coisas em outra perspectiva: se há objetos interestelares no Sistema Solar, podemos nos preparar para quando avistarmos outro deles, assim estaremos prontos para estudá-lo, obtendo assim informações sobre outros sistemas estelares. Isso não foi feito com o Oumuamua ou com o Borisov porque não estávamos prontos para eles. Mas, se estivermos na próxima descoberta, poderemos fazer análises realmente úteis.

De fato, há muitos outros visitantes por aí. Ao avistar outros desses objetos passando perto da Terra, os cientistas poderão interceptá-los para estudá-los de perto. Para isso, será preciso já ter uma tecnologia capaz de fazer esse tipo de coisa, preparada para quando o dia chegar.

Ilustração fora de escala que ilustra a manobra da nave OSIRIS-REx para coletar amostras do asteroide Bennu (Imagem: Reprodução/NASA/Goddard/University of Arizona)

Nesse trabalho, a equipe do I4IS descreveu três tipos de perfis de missão que podem ser montadas usando a tecnologia atual. Isso incluiu sobrevoos, encontros e missões para trazer amostras à Terra. A vantagem é que todas essas abordagens podem ser feitas com tecnologias atuais.

No caso dos sobrevoos, seria uma missão semelhante ao que a espaçonave da New Horizons realizou em Plutão e Arrokoth. Ou seja, a sonda não precisaria desacelerar ou pousar — apenas coletaria imagens e dados enquanto passa pelo objeto interestelar. Opcionalmente, pode haver uma sub-sonda pequena que colide com o objeto para criar uma nuvem de poeira, que poderia então ser coletada e estudada pela própria nave com um espectrômetro a bordo. Isso também já é feito atualmente, como foi o caso da sonda lunar indiana Chandrayaan-1.

Já na missão de encontro, a equipe sugere algo tecnicamente mais desafiador, pois a nave teria que desacelerar para orbitar o objeto, ou pousar nele. A vantagem é que a sonda teria mais tempo para estudar o corpo celeste, coletando amostras e tirando fotos de vários ângulos. Por fim, há a possibilidade de uma missão de coleta de amostras para trazê-las à Terra, sendo estudadas por aqui mesmo. Isso está sendo feito atualmente pelas sondas OSIRIS-REx, da NASA (que se prepara para coletar amostras do asteroide Bennu) e Hayabusa-2, da japonesa JAXA (que trará amostras do asteroide Ryugu em dezembro deste ano).

Entre as vantagens que esse tipo de pesquisa podem trazer, estão possíveis descobertas sobre os vários mecanismos pelos quais os objetos interestelares são formados e ejetados de seus sistemas de origem, a composição química presente nesses sistemas planetários, e as interações dos objetos interestelares com o meio interestelar e raios cósmicos galácticos durante sua jornada, de acordo com Hein. E, claro, podemos procurar por sinais da presença de alguma forma de vida alienígena nesses objetos.

Fonte: Universe Today

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