Entenda por que a Netflix nunca vai ter todos os títulos que você quer

Por Joyce Macedo | 04.09.2015 às 10:14

No início desta semana, a Netflix anunciou o fim do seu contrato com o canal de televisão norte-americano Epix e aproveitou para deixar claro que não irá renová-lo. Para os clientes norte-americanos, isso implica na saída de filmes como "Jogos Vorazes", "Guerra Mundial Z" e "Transformers: A Era da Extinção" do catálogo do serviço de streaming. Mas, por outro lado, o movimento reafirma a pretensão da empresa de trabalhar apenas com conteúdo exclusivo.

Quando falamos em exclusividade, não restringimos o assunto apenas às produções originais da Netflix, mas também nos referimos à compra de conteúdo criado por outros estúdios, mas que não serão exibidos em nenhum outro lugar. E essa aposta na exclusividade tem um preço: US$ 5 bilhões. Esse é o valor que a companhia deve investir em conteúdo único em 2016.

No Brasil, nada vai mudar após o rompimento com a Epix, mas nos Estados Unidos, onde os usuários deixarão de ter acesso aos títulos em setembro, a notícia não foi bem recebida pelos assinantes. Isso porque as pessoas esperam que uma plataforma como a Netflix pegue todo tipo de conteúdo disponível, criado por diferentes estúdios, e os reúna no seu site. Talvez isso seja fruto do uso habitual de serviços como o Spotify, que oferecem bibliotecas quase infinitas de músicas.

Música vs Vídeo

Enquanto os serviços de streaming de música usam armas como preço, parcerias e qualidade de áudio em sua guerra, os serviços de streaming de vídeo por assinatura dependem basicamente do seu catálogo de títulos para sair na frente e ganhar o coração dos usuários.

Para entender melhor tudo isso, é preciso saber que empresas como a Netflix precisam de licenças para exibir filmes e séries de terceiros em sua plataforma. Elas podem conseguir isso diretamente com os estúdios ou então por meio de sublicenças obtidas a partir de contratos com emissoras de TV que detém direitos de transmissão.

Para a indústria cinematográfica, não existe uma grande vantagem em liberar seu conteúdo para exibição em diversas plataformas, mas também não é viável que haja um monopólio de transmissão. Ou seja, diferente da indústria da música, que enxergou nas mídias digitais uma salvação para o cada vez mais decadente mercado de venda de mídias físicas, os estúdios não estão tão desesperados assim.

Para eles, a concentração de poder nas mãos da Netflix não parece saudável e por isso não pestanejaram na hora de distribuir o pão com os concorrentes do serviço. Isso afeta diretamente a dinâmica do mercado, afinal, se ninguém vai conseguir reunir tudo o que as pessoas querem em um único lugar, é preciso destacar-se de outra forma.

Conteúdo exclusivo

A parceria com a Epix, por exemplo, durou cinco anos e levou até a Netflix títulos dos estúdios Paramount, MGM e Lionsgate. Essa parecia uma maneira muito interessante e rápida de abastecer o catálogo da plataforma e atrair assinantes. Mas o problema começou em 2012, quando a Epix decidiu que não manteria mais um contrato de exclusividade com a empresa, assinando também com a Amazon. Hoje, após o rompimento com a Netflix, os direitos do catálogo também estão nas mãos da Hulu.

Quem pensa que a Netflix está chorando lágrimas de sangue com isso, está muito enganado. Para a companhia, conteúdo não exclusivo é sinônimo de lugar comum, uma mercadoria que pode ser comercializada por quem quiser comprá-la – como acontece no streaming de música. Por outro lado, conteúdo exclusivo é sinônimo de diferencial.

“Sabemos que alguns de vocês ficarão desapontados com a expiração dos filmes Epix. Nosso objetivo é proporcionar grandes filmes e séries de TV para todos os gostos, que só estão disponíveis na Netflix. Estamos confiantes que vocês vão desfrutar de um catálogo cada vez melhor”, explicou a empresa em um comunicado.

Para os consumidores, a saída de muitos títulos conhecidos do catálogo pode parecer uma perda dolorosa, mas grande parte deles poderá ser visto por outros meios, como canais de TV por assinatura e concorrentes. Olhando para o lado positivo, essa disputa crescente no mercado de streaming de vídeo promete mais conteúdo original e variedade de programas.

A Netflix, por exemplo, já prometeu filmes e séries originais com grandes nomes, como Brad Pitt, Ricky Gervais, Judd Apatow, Angelina Jolie, Sofia Coppola e Adam Sandler (não que esse seja sinônimo de felicidade). Também é preciso destacar que, até agora, a companhia ainda não decepcionou com suas produções originais de alta qualidade (vide Demolidor, Sense8, House of Cards, Orange is The New Black, entre outras). Sua parceria com a Disney também merece destaque, pois vai torná-lo o único serviço de streaming a receber lançamentos da Pixar, Lucasfilm e Marvel.

Esse anseio da Netflix por conteúdo exclusivo também está fazendo a empresa romper algumas antigas barreiras: uma das apostas da empresa para "amarrar" seus assinantes é o lançamento simultâneo de filmes originais na web e no cinema. Nem precisamos dizer que isso está deixando muita gente de cabelo em pé, principalmente as redes de exibição, como a Cinemark, uma vez que eles não acreditam que as pessoas vão até o cinema para assistir filmes que estão disponíveis na tela do computador.

Elas alegam que é necessário, no mínimo, 90 dias entre a estreia no cinema e a possibilidade do espectador ver o filme em sua casa para que o risco de baixa bilheteria seja amenizado. Mas a Netflix parece não temer possíveis boicotes e já anunciou que "Beasts of No Nation", o primeiro longa-metragem produzido por um serviço de streaming, deve chegar à internet e às salas de cinema em meados de outubro, doa a quem doer.

Conteúdo nacional

No Brasil, os serviços de vídeo sob demanda também estão enfrentando a fúria das empresas de telecomunicação. E não é para menos: se fosse uma operadora de TV paga, a Netflix seria a terceira maior do país, com mais de 2,5 milhões de usuários.

Enquanto por um lado algumas arriscam entradas no mercado de streaming com serviços como Vivo Play e NET Now, a grande maioria está batendo de frente e exigindo que a Netflix seja regulamentada e arque com a mesma carga tributária que elas. Para os usuários, isso poderia significar um aumento no preço da mensalidade. Basicamente, as empresas de telecomunicação estão para a Netflix, assim como os taxistas estão para o Uber.

Outro ponto que as empresas de telecomunicação pretendem mudar com a regulamentação é o fato da Netflix não ter a obrigatoriedade de exibir conteúdo nacional. Isso porque as emissoras de TV por assinatura são obrigadas por lei a transmitir uma cota pré-determinada de conteúdo brasileiro em sua programação. Agora, a Ancine (Agência Nacional do Cinema) também estuda aplicar essa lei para os serviços de vídeo sob demanda.

Na prática, isso significaria mais produções nacionais na Netflix, que já se prepara para o lançamento de "3%", sua primeira série original brasileira. O grande problema é que a participação de produções brasileiras no catálogo da plataforma ainda é muito baixa, pouco mais de 100 em meio a cerca de 3 mil títulos, e para alcançar a suposta meta de 30% da Ancine em um curto período de tempo a solução mais prática (e barata) seria reduzir os títulos estrangeiros disponíveis no país.

Por enquanto nada está definido, mas as coisas caminham para um cenário onde aqueles que reclamam da falta de diversidade – e quantidade – em catálogos de serviços de streaming terão ainda mais motivos para reclamar. Por outro lado, aqueles que apreciam novidades e conteúdos originais podem enxergar uma fase muito produtiva para esse mercado, onde cada vez mais produções de qualidade serão lançadas.

A soma de todos esses fatores nos mostra que a realidade é que enquanto não houver um grande movimento de toda a indústria de entretenimento para mudar a dinâmica da distribuição de conteúdo, ainda teremos que manter mais assinaturas de mais de um serviço para assistir nossos filmes e séries prediletos sem apelar para a pirataria.

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