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Armas de longa distância foram inventadas 10.000 anos antes do que se pensava

Por| Editado por Luciana Zaramela | 07 de Novembro de 2023 às 17h10

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TraceoLab/Universidade de Liège
TraceoLab/Universidade de Liège

Análise de artefatos arqueológicos encontrados no rio Haine, no sul da Bélgica, mostram que os caçadores-coletores de 31.000 anos atrás já usavam atiradores de lança em atividades de caça, data cerca de 10.000 anos antes do que se acreditava no passado. O resultado é fruto de um estudo feito pela Universidade de Liège, que verificou o dano causado nas pontas de pedra de diversas armas da antiguidade para descobrir a qual delas pertenciam diversos objetos antigos encontrados na região.

O sítio arqueológico em questão é Maisières-Canal, e a descoberta foi publicada no periódico científico Scientific Reports. Atiradores de lança, também chamados de propulsores, estólica (no Brasil) e atlatl (na América Central) são ferramentas ou armas usadas para atirar dardos, um tipo de lança semelhante a uma enorme flecha, com cerca de dois metros de comprimento. A inovação podia jogar a arma de caça a uma distância de até 80 metros, revolucionando as práticas primitivas de caça.

Caça à distância e a evolução humana

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Apesar de parecer simples nos dias de hoje, a invenção das armas de longo alcance e seu uso na caça teve consequências muito significativas para a evolução dos Homo sapiens no passado. As práticas de caça foram modificadas e a dinâmica entre humanos e suas presas mudou, assim como a dieta e a organização social dos caçadores-coletores. Por conta disso, a ciência busca, há muito tempo, descobrir a data de criação e espalhamento de tecnologias como essa, estando sempre presente no debate arqueológico.

É difícil detectar armas primitivas em sítios arqueológicos por conta de seus componentes orgânicos, que raramente ficam preservados na natureza. O que sobra geralmente são as pontas de pedra que encabeçavam os projéteis, mas que, no entanto, são difíceis de se associar a armas específicas com precisão.

A maioria dos artigos tratando de atiradores de lança e arcos na Europa e África se baseia no tamanho da ponta dos projéteis para definir qual arma os atirava, o que foi amplamente questionado por revisões etnográficas e testes experimentais. Pontas de flechas ou lanças podem variar muito mais do que poderíamos definir.

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Para investigar melhor os projéteis, os pesquisadores se juntaram com o laboratório TraceoLab e seus arqueólogos, que utilizaram análise balística e mecânica de fraturas para observar como seriam produzidas as gasturas nas pontas de pedra. Em um experimento de larga escala, foram produzidas réplicas dos projéteis paleolíticos, que, por sua vez, foram atirados por réplicas de arcos e propulsores de lança.

Ao observar, então, as fraturas deixadas nas pontas de pedra, descobriu-se como cada arma afeta as cabeças de flecha/lança quando estas atingem o alvo, dando características bastante diferentes às marcas. Comparando os achados com os objetos arqueológicos encontrados na Bélgica, foi possível descobrir que eles foram usados em atiradores de lança. É como identificar uma arma de fogo a partir das marcas que o cano deixa na bala, como na ciência forense, por exemplo.

O encaixe excelente entre a amostra gerada pelo propulsor do experimento e os projéteis de Maisières-Canal mostra que os caçadores ocupando a região realmente usaram essas armas, com uma tecnologia que agora sabemos ser 10.000 anos mais antiga do que os restos preservados diziam à ciência. O método deverá ser usado, agora, em outros locais, descobrindo quão antigas são as primeiras armas de longa distância criadas pela humanidade.

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Fonte: Scientific Reports