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Pandemia que aconteceu há 100 anos é um mistério até hoje

Por| Editado por Luciana Zaramela | 01 de Março de 2023 às 15h50

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Wavebreakmedia/Envato
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Com o primeiro caso diagnosticado em 1916, a encefalite letárgica é, muito provavelmente, o maior mistério na área da medicina que assolou médicos e cientistas no século XX. Até hoje, a causa da pandemia do sono que, segundo estimativas, pode ter afetado mais de quatro milhões de pessoas em todo o mundo continua a ser desconhecida. Passados mais de 100 anos, também não se sabe como a condição era transmitida e nem como desapareceu.

A pandemia coincide com a Primeira Guerra Mundial e médicos que estavam em lados opostos no fronte chegaram a um conjunto de sintomas da encefalite letárgica semelhantes: Jean-René Cruchet, da França, e Constantin von Economo, da Áustria. O principal marcador era o sono excessivo entre os pacientes, além de sintomas neurológicos incomuns. De forma tão misteriosa quanto chegou, os casos foram rareando até desaparecerem por completo. Hoje, a doença não é mais diagnosticada.

Sintomas da doença mais misteriosa da história

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Inicialmente, os pacientes com a encefalite letárgica receberam diferentes diagnósticos incorretos, como meningite, esclerose múltipla ou ainda delirium. No entanto, alguns médicos da época, como Crunchet e Von Economo, desconfiavam de que aqueles sintomas e o comportamento da doença estavam relacionados a um quadro até então desconhecido pela ciência.

Em artigo para a revista científica Brain, pesquisadores da Escola de Medicina da Universidade de Indiana, nos Estados Unidos, revisaram os relatos da pandemia do sono e explicam que a encefalite letárgica se manifestava, em um primeiro momento, como uma gripe. Nesta fase da doença, os pacientes apresentavam:

  • Mal-estar;
  • Febre baixa;
  • Faringite;
  • Tremores;
  • Dor de cabeça;
  • Vertigem;
  • Náuseas (vômitos).

Após este período inicial, os pacientes passavam a desenvolver os sintomas incomuns da condição, como sonolência excessiva e estranhos movimentos oculares — como tiques nervosos e visão dupla —, além da rigidez muscular. Neste estágio, alguns indivíduos continuavam febris.

Outro ponto desafiador para a medicina da época era a inexistência de cura para a doença. Aparentemente, alguns pacientes apresentavam períodos de melhora, como se o quadro estivesse dormente, mas, eventualmente, poderiam apresentar complicações associadas a esse tipo de encefalite. Por exemplo, as pessoas que sobreviviam podiam desenvolver Parkinson ou extrema rigidez nos movimentos, de nível quase paralisante.

Quem era mais afetado pela encefalite letárgica?

Vale observar que, segundo o levantamento norte-americano, a doença afetava especialmente as crianças e os mais jovens. "Embora a encefalite letárgica afetasse todas as idades, indivíduos entre 10 e 45 anos eram mais suscetíveis, com 50% dos casos ocorrendo entre os 10 e 30 anos", pontuam os cientistas.

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Qual é a origem da epidemia mais misteriosa da história?

O que ninguém sabe com certeza é o que teria provocado a onda de casos globais da encefalite letárgica. Para o médico Von Economo, a principal hipótese era de que a condição marcada pelo sono excessivo era desencadeada por uma infecção viral.

Mais especificamente, o quadro estaria associado com uma cepa específica do vírus da gripe (influenza), que circulava na época. "A gripe poderia predispor uma pessoa à infecção por encefalite letárgica, possivelmente por aumentar a permeabilidade das membranas das mucosas nasais, permitindo a entrada mais fácil do vírus encefalítico", afirmam os pesquisadores dos EUA.

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A hipótese nunca foi comprovada, mas explicaria o porquê da doença ter sumido misteriosamente. Isso considerando que a cepa da gripe que circulava na época foi, oportunamente, substituída por outras que não sensibilizam o corpo da mesma forma.

Hipóteses contemporâneas para explicar o surto da doença do sono

Em 2012, cientistas da Universidade Metropolitana de Londres, no Reino Unido, apresentaram uma nova hipótese: a doença misteriosa foi causada por um enterovírus, como um poliovírus. Hoje, este tipo de agente infeccioso é bastante conhecido. Afinal, é o responsável por causar a poliomielite (pólio), doença associada à paralisia em crianças.

Publicado na revista BMC Infectious Diseases, o estudo contemporâneo que buscou a causa da encefalite letárgica se baseou em três possíveis casos modernos da condição. A questão é que o diagnóstico desses quadros mais recentes é questionável, já que a doença praticamente sumiu do mapa e classificação pode não ser tão segura. Desde 1940, foram feitos cerca de 80 relatos do tipo.

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Como a doença se espalhou pelo mundo?

Como não há consenso sobre a origem da encefalite letárgica, também não há sobre as formas de transmissão da condição. No entanto, uma das hipóteses é que o salto das epidemias "isoladas" observadas na Europa para a pandemia ocorreu com o movimento das tropas militares durante a Primeira Guerra Mundial.

Os primeiros diagnósticos conhecidos datam entre 1916 e 1917, na Áustria. No ano de 1918, a doença já se disseminava entre a França e a Inglaterra. Em 1919, chegou em inúmeros países europeus, além dos EUA, Canadá, América Central e Índia. O último pico da doença misteriosa ocorreu em 1924.

Encefalite letárgica no mundo pop

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É lógico que a pandemia do sono, tão enigmática e curiosa, serviria como base ou inspiração para diferentes obras ficção. Sem dúvidas, a mais conhecida é a HQ Sandman, do inglês Neil Gaiman. Atualmente, o Netflix está adaptando toda a saga do Rei dos Sonhos, Morpheus, para o streaminga primeira temporada já está disponível.

Logo no primeiro episódio da série, Morpheus (Tom Sturridge) é aprisionado por um grupo de ocultistas e esta prisão é a "verdadeira" origem para a pandemia do sono, que afeta a saúde de centenas de milhares de humanos, na ficção criada por Gaiman.

O neurologista e químico Oliver Sacks também se debruçou sobre o tema, escrevendo um livro sobre os pacientes que sobreviveram à encefalite letárgica. A obra Tempo de despertar deu origem a um filme homônimo, marcado pelas interpretações de Robert De Niro e Robin Williams. Atualmente, a produção está disponível para aluguel no YouTube, Google Play Filmes e Apple TV.

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Fonte: BMC Infectious DiseasesBrain e BBC