As piores pandemias da história

Por Luciana Zaramela | 20 de Maio de 2020 às 13h36
Crisfotolux | Getty Images

Pandemia: por definição, por mais que já estejamos acostumados a ouvir esse termo após a propagação mundial da COVID-19, não custa reiterar. Segundo a Organização Mundial da Saúde, uma doença que se espalha em níveis mundiais pode ser considerada uma pandemia. Acontece quando um patógeno emerge em um local e consegue se espalhar, gerando um surto. Depois, toma proporções maiores, tornando-se uma epidemia naquele estado ou país de origem. E se ultrapassa as barreiras de uma região, "viaja" para vários territórios, de vários continentes, e afeta um número substancial de pessoas, torna-se uma afecção pandêmica.

Se formos escavar os autos da história, iremos encontrar registros de pandemias que assolaram multidões, e isso vai muito antes do século XIV, quando eclodiu a Peste Negra — a pandemia mais mortal de todas as registradas até o momento na história da humanidade, e também uma das mais lembradas até hoje.

O Canaltech conversou com Luís Bustamante, professor de História e médico pediatra, para ter mais embasamento sobre a origem e o contexto histórico das pandemias. Segundo ele, precisar onde tudo começou é muito difícil. "As pestes e epidemias começaram no período neolítico, há 10.000 anos, com a domesticação de animais e a invenção da agricultura. O contato com vírus selvagens e de animais domésticos levou às primeiras epidemias. O armazenamento de grãos em paióis favoreceu a proliferação de ratos que, por sua vez, transmitem doenças como a peste bubônica. As gripes se originaram de vírus endêmicos em galinhas, e o vírus da varíola humana resultou da mutação do vírus da varíola bovina", explica, elucidando que, por muitas vezes, essas doenças têm caráter de zoonose.

Antes de concretizar uma pandemia propriamente dita, de acordo com Bustamante, o primeiro registro histórico de uma grande epidemia foi a Peste de Atenas, no século V AC, durante a Guerra do Peloponeso. Estima-se que um terço da população desta cidade grega morreu. Era, provavelmente, febre tifoide, uma doença causada por uma bactéria chamada salmonela e que resulta em intensa diarreia com desidratação.

Afinal, quais foram as outras grandes mazelas que adoeceram e levaram tantas pessoas à morte?

Peste Antonina

  • Ano: 165 D.C.
  • Mortes: 5 milhões
  • Causa: desconhecida

Com início na Roma antiga e acometendo todo o mundo Romano, a Peste Antonina foi uma epidemia datada do inverno do ano 165 e que perdurou até 180. Recebeu esse nome devido à família que governava a região naquele tempo. Também conhecida como Peste de Galen, a doença afetou toda a região da Ásia Menor (Turquia), Egito, Grécia e Itália.

Era uma infecção viral que causava na pele pequenas feridas como catapora e sarampo, mas até hoje sua causa é desconhecida. Provavelmente, foi trazida a Roma após a chegada de soldados que vinham da Mesopotâmia por volta do ano 165, e, de alguma maneira, eles teriam espalhado o vírus — que matou cerca de cinco milhões de pessoas, dizimando o exército romano.

A praga matava mais de 2.000 pessoas por dia na cidade de Roma e possuía taxa de letalidade de 25% — um índice elevadíssimo, que significa que, dos doentes, um quarto morria. Algumas cidades até mesmo chegaram a perder até 30% de suas populações.

O Anjo da Morte golpeia a porta de Roma (por Jules-Élie Delaunay, obra restaurada digitalmente)

Praga de Justiniano

  • Ano: 541-542
  • Mortes: 25 milhões
  • Causa: Peste Bubônica

Outra pandemia antiga ocorreu no reinado do imperador Justiniano I, tendo sido creditada por muitos como a primeira da história. Ocorreu ainda no Império Bizantino, e é atribuída ao exército do imperador. Foi logo no período de transição da Antiguidade Tardia para a Idade Média, em 540, uma época bastante marcada por crescimento do feudalismo, conflitos entre nobrezas, fragmentação de poderes e regionalização.

Com a queda do Império Romano do Ocidente, Justiniano buscava restaurá-lo a todo custo — o que causou uma guerra que se espalhou por todo o continente. Transmitida por pulgas de ratos infectados vindos de navios, a peste surgiu no Egito, passou pelo Oriente Médio e desembarcou em Constantinopla, capital do Império Bizantino. Foi a primeira epidemia de peste bubônica de que se tem notícia, e assolou a população da cidade. Segundo estimativas, de 500 mil a 1 milhão de pessoas morreram na capital devido à doença, e a peste teria sido espalhada pelas tropas justinianas, que, inclusive, foram bastante afetadas. Até mesmo o imperador contraiu a peste, mas sobreviveu.

Tomando proporções ainda maiores, a praga se espalhou pela Síria, Europa e Ásia Menor. A bactéria chamada Y. pestis, carreada por pulgas de roedores infectados (após contato ou picadura), ataca o organismo e provoca uma reação dos nódulos linfáticos das axilias, virilhas e pescoço, que incham e formam enormes bolhas de pus, conhecidas como bubões. Além disso, as extremidades do corpo começam a se necrosar, causando um aspecto terrível nos doentes, como se fossem degenerados vivos.

Resguardadas as devidas proporções de população e data, Bustamante acredita que a Praga de Justiniano foi ainda mais avassaladora que a Peste Negra, apesar do número absoluto de mortos ser comparativamente menor. "Em termos relativos, provavelmente a Praga de Justiniano matou relativamente mais pessoas, algo em torno de metade da população de regiões da Europa", compara o professor.

O Imperador Justiniano, cercado por membros de sua corte, em mosaico da Basílica de San Vital, em Ravenna, Itália. (Imagem via Getty)

Peste Negra

  • Ano: 1346 a 1353
  • Mortes: 75 milhões a 200 milhões
  • Causa: Peste Bubônica

A mais avassaladora das pandemias da história, em termos absolutos. A Peste Negra talvez seja a primeira que venha à sua mente quando falamos do histórico das doenças que mais mataram no mundo todo, e de fato, sua importância serve até hoje para determinar alguns traços de transmissão de patógenos e comportamento de moléstias infecciosas. A Peste acometeu toda a região da Europa, África e Ásia, levando a óbito cerca de 75 milhões a até 200 milhões de pessoas em pleno século XIV.

Provavelmente originada na Ásia, a Peste Negra "pulou" de um continente para outro ao viajar em pulgas de ratos que viviam nos navios mercantes. Essas pulgas eram vetores de bactérias e, se picassem seres humanos, transmitiam a doença. Outra forma de contágio pode ser pelo contato da pele com excrementos de roedores infectados. Os epicentros eram os portos, que também eram grandes centros urbanos da época, sempre lotados e com alta circulação de pessoas. Com várias iguarias e produtos, navios desembarcando e pessoas entrando e saindo das fronteiras marítimas, a propagação chegou a níveis aterradores.

Arqueólogos desenterraram 48 indivíduos enterrados em valas comunitárias em Londres. 27 deles eram crianças, e todos vítimas da Peste Negra (Imagem: Universidade de Sheffield)

Os sintomas da Peste Negra eram (e ainda são, pois a peste bubônica não foi extinta) avassaladores e bastante agudos. Além disso, causava necrose nas extremidades, devido às endotoxinas bacterianas sobre os vasos sanguíneos. "A Peste Negra, assim como a Praga de Justiniano, era de uma doença causada por uma bactéria chamada Yersinia pestis, transmitida pela picada das pulgas que parasitam os ratos. Ocorreu no século XIV e matou um terço da população da Europa. A doença causa febre e o aparecimento de grandes tumorações purulentas sob a pele (bubões), que são os linfonodos abcedados. Hoje essa doença é tratável com o uso de uma simples penicilina", conta Bustamante.

Representação do surto na Europa, quando eclodiu a Peste Negra: aldeões carregam caixões de vítimas da peste (Foto: Photo12, Universal Images Group/Getty)

A essa época, principalmente na Itália, os médicos utilizavam vestimentas um tanto sinistras para se protegerem da doença ao examinarem e cuidarem de seus pacientes: a roupa os cobria da cabeça aos pés e, como parte da indumentária, eles usavam uma característica máscara com formato de bico de pássaro (com apenas dois furos para respirar) e uma vara para afastar os doentes. Acredita-se que o formato do bico e toda a proteção sobre o corpo protegia os doutores do miasma — substância que exala da matéria orgânica em decomposição e causa fortes odores —, já que, até o ar passar por ele, daria tempo de ser absorvido por um composto de ervas e aromatizantes, contido no interior desse bico. Apesar de sua origem não ter sido bem documentada, a máscara tornou-se um ícone utilizado até hoje em fantasias de carnaval — ou de terror.

Jan van Grevenbroeck (1731 - 1807) foi um médico veneziano que atuou durante a Peste Negra. Pintura feita com caneta, tinta e aquarela sobre papel (Museo Correr, Veneza/Domínio Público)

Terceira Pandemia de Cólera

  • Ano: 1852 a 1860
  • Mortes: 1 milhão
  • Causa: cólera

De uma lista de sete pandemias causadas por cólera, a terceira é geralmente considerada a pior. Datada do século XIX, a pandemia durou de 1852 a 1860, e assim como a primeira e a segunda, teve origem na Índia e, pelo rio Ganges, chegou até a Ásia, Europa, América do Norte e África, exterminando cerca de um milhão de pessoas pelos continentes.

A cólera é uma infecção do intestino delgado, e é causada por bactérias (vibrião colérico) que vivem na água. As diarreias causadas pela doença podem durar dias e desidratarem agressivamente o organismo, causando distúrbio eletrolítico. Isso pode levar a uma série de sinais secundários, como olhos que se afundam nas órbitas e diminuição da elasticidade da pele, com enrugamento de mãos e pés pela falta de hidratação. Aliás, na forma mais grave, a pele do paciente pode inclusive mudar de coloração e se tornar azulada ou arroxeada. É transmitida pela água contaminada com fezes humanas (com presença de bactérias) e alimentos mal-lavados. Diferente das outras pestes, a cólera acomete apenas seres humanos.

Pacientes tratados em hospitais durante a pandemia de cólera na Europa, no século XIX (Foto: autor desconhecido)

Gripe Russa

  • Ano: 1889 - 1890
  • Mortes: 1,5 milhão
  • Causa: influenza

Também chamada de Gripe Asiática de 1889, a Gripe Russa teve seus primeiros casos em 1889 em três locais distintos: Bukhara, na Ásia Central (Turquistão), em Athabasca, no Canadá; e na Groenlândia. Afetava principalmente crianças e jovens e levou a morte de 1 milhão a 1 milhão e meio de pessoas. Acreditava-se que a doença teria sido causada pelo vírus H2N2, no entanto, descobertas recentes apontam para o subtipo H3N8 de Influenza A. A doença causava crises de pneumonia e febre.

O rápido crescimento da população no século XIX fez com que a doença se espalhasse rapidamente pelo globo, principalmente em grandes centros urbanos. A gripe, aliás, chegou ao Brasil em fevereiro de 1890 com a chegada de um paquete em Salvador, vindo de Hamburgo, na Alemanha, e acometeu até mesmo o imperador Dom Pedro II.

Ilustração de 1892, do antigo tabloide inglês The Illustrated Police News, retratava a Gripe Russa como "sem esperança" (Imagem: The British Library Board)

Sexta Epidemia de Cólera

  • Ano: 1910 - 1911
  • Mortes: 800.000
  • Causa: cólera

Assim como as demais epidemias de cólera, a sexta também se originou na Índia e por lá já levou a óbito cerca de 800 mil pessoas. Posteriormente, seguiu para o Oriente Médio, norte da África, Rússia e Europa Oriental. Ela marcou a história por ter sido responsável por levar a doença ao continente americano. Na época, autoridades de saúde dos EUA agiram rápido, aplicando o conhecimento que tinham com epidemias passadas, e já isolaram o máximo possível de pessoas infectadas, resultando em apenas 11 mortes no país.

Apesar de ainda ser uma doença de incidência e prevalência altas na Índia e em alguns países em desenvolvimento, as transmissões de cólera foram substancialmente controladas em regiões mais desenvolvidas do globo, como os próprios EUA.

Pintura de Pavel Fedotov retrata a morte de um paciente com cólera no século XIX

Gripe Espanhola

  • Ano: 1918
  • Mortes: 20 milhões a 50 milhões
  • Causa: influenza

Uma das doenças que mais dizimaram pessoas na história foi a famigerada Gripe Espanhola, que acometeu a humanidade no início do século XX em várias áreas do globo. Basicamente, um terço da população mundial pegou esse tipo de influenza, que levou à morte um número avassalador de pacientes — algo entre 20 milhões e 50 milhões de pessoas. Das 500 milhões de pessoas infectadas por essa gripe, a taxa de mortalidade estimada era de 10% a 20%.

Contando apenas as 25 primeiras semanas iniciais da pandemia, cerca de 25 milhões de pessoas já haviam perdido suas vidas para a gripe — que recebe esse nome, aliás, de forma equivocada. Durante a Primeira Guerra Mundial, agentes da censura "maquiaram" os primeiros relatos da doença e minimizaram os registros de localização e mortalidade na Alemanha, França, Reino Unido e Estados Unidos. No entanto, esses documentos relatavam os efeitos da pandemia na Espanha, que se manteve neutra em relação a isso. Consequentemente, criou-se a falsa impressão de que o país ibérico fosse o berço da pandemia.

"A doença não começou na Espanha, é mais provável que tenha começado nos Estados Unidos. Os soldados norte-americanos, que entraram na Primeira Guerra somente em 1918, levaram o vírus para a Europa. As trincheiras da Guerra serviram como incubadoras para o vírus, disseminando a doença para as demais tropas e depois para a população civil", contextualiza Bustamante.

Hospitais de campanha no auge da Gripe Espanhola (Foto: US Museum of Health and Medicine/Arquivo)

O vírus influenza foi responsável por infectar e destruir o sistema imunológico de jovens e idosos, com uma proporção avassaladora de adultos jovens perdendo a luta para a doença. Alguns estudos apontam para um fator que agravou ainda mais o perfil da pandemia naquela época: a falta de higiene, a desnutrição e a superlotação de hospitais e acampamentos médicos, que abriam as vias para uma superinfecção bacteriana paralela à doença causada pelo vírus, dizimando a população mundial em até 30% (ou mais).

"Em 1918, a doença também chegou ao Brasil, trazida pela tripulação de cargueiros, e se disseminou principalmente nas grandes cidades como Rio de Janeiro e São Paulo. A Gripe Espanhola é uma gripe muito forte, causada por uma variante do vírus influenza A H1N1, e pode evoluir para SARS (Sindrome Respiratória Aguda Grave), uma insuficiência respiratória grave que é a mesma complicação do coronavírus", explica o médico e historiador.

Segundo historiadores e epidemiologistas, a Gripe Espanhola teve três ondas: a primeira, mais branda, foi identificada nos Estados Unidos, em um campo de treinamento de soldados da Primeira Guerra. A segunda se deu após o retorno das tropas americanas ao país, depois de ter percorrido vários países durante a guerra. Isso provavelmente espalhou o vírus por onde as tropas passaram e o trouxe ao país americano, levando milhões de pessoas à morte. Já a terceira, mais moderada que a segunda, aconteceu no início de 1919.

Gripe Asiática

  • Ano: 1956 - 1958
  • Mortes: 2 milhões
  • Causa: influenza

Outra pandemia causada pelo vírus Influenza A (subtipo H2N2). Originária na China, essa gripe teve seus primeiros casos registrados em 1956 e durou até 1958. Acometeu não somente a China, como também Singapura, Hong Kong e os Estados Unidos. É difícil precisar o número de óbitos em decorrência da gripe asiática, o que varia de acordo com cada fonte, mas tendo como base a Organização Mundial da Saúde, aproximadamente 2 milhões de pessoas perderam a batalha para essa gripe.

Como a medicina já estava mais avançada em relação à época em que explodiram os casos de Gripe Espanhola, foi possível detectar e trabalhar em soluções contra o vírus H2N2. No entanto, não a tempo de fabricar vacinas e remédios que poupassem tantas mortes.

Os sintomas eram os mesmos de outras gripes com complicações: cefaleias, prostração, febre, astenia, coriza, tosse e pneumonia — fator que poderia levar à morte.

Médico aplica em enfermeira a primeira dose da vacina contra gripe asiática, em Nova York, 1957 (Foto: AP Photo/Arquivo)

Gripe de Hong Kong

  • Ano: 1968
  • Mortes: 1 milhão
  • Causa: influenza

Causada pelo subtipo H3N2 do vírus influenza, a gripe de Hong Kong aconteceu nem 10 anos após a gripe asiática e provocava febre alta, dor nas articulações e astenia (cansaço), com uma progressão e transmissibilidade assustadoramente rápidas. Embora tivesse uma taxa de mortalidade relativamente baixa (5%), matou 1 milhão de pessoas em um curto período de tempo — cerca de um ano. Só em Hong Kong, 500 mil pessoas perderam suas vidas, o que corresponde a cerca de 15% da população naquela época.

Em pleno começo da era da globalização, quando os aviões já cruzavam os horizontes internacionais, o H3N2 passou de Hong Kong para Singapura, Vietnã, Filipinas, Índia e Austrália. Daí a pouco tempo, chegou a acometer toda a Europa e, por fim, os Estados Unidos.

Pacientes esperam para ser atendidos em uma clínica de Hong Kong, durante a eclosão da epidemia, em julho de 1968 (Foto: SCMP)

Pandemia de AIDS

  • Ano: de 1976 até hoje
  • Mortes: 38 milhões
  • Causa: HIV

Identificado pela primeira vez na República Democrática do Congo, na África, o vírus da AIDS (HIV, ou vírus da imunodeficiência humana) foi provavelmente transmitido por macacos e já contaminou e levou a óbito mais de 38 milhões de pessoas desde que a primeira morte pela doença foi documentada, em 1981. A AIDS foi considerada a primeira pandemia do século XX, e sua transmissão ocorre exclusivamente por meio de fluidos corporais (sangue, sêmen e leite materno), seja durante relações sexuais, compartilhamento de seringas e materiais perfurocortantes, acidentes biológicos e aleitamento. Saliva, lágrima e suor, ao contrário do que muitos pensam, não transmitem o HIV em cargas suficientes para concretizar propagação.

Após a contaminação, o vírus se instala no organismo do hospedeiro e ataca seu sistema imunológico — principalmente os linfócitos T, que são a primeira linha de defesa do sangue —, causando a chamada Síndrome da Imunodeficiência Adquirida. É quando a replicação viral atinge níveis suficientes para elevar a carga viral da pessoa e torná-la discrepante em relação a um indivíduo saudável. Com isso, o paciente começa a ter febres persistentes, sudorese (principalmente à noite), tosse e incômodo na garganta, linfadenopatia também persistente (podendo durar mais de 90 dias), dores nos músculos, articulações e na cabeça, dificuldade de se concentrar, cansaço, perda de peso, diarreia, náusea, vômitos e também sinais como pequenas manchas espalhadas pela pele, que podem evoluir para feridas características da doença.

Pelo fato de a AIDS ser transmissível principalmente através das relações sexuais e do contato com o sangue de outras pessoas, entidades de saúde do mundo inteiro batem sempre na mesma tecla de prevenção: usar camisinha e não compartilhar seringas.

De todos os métodos contraceptivos, a camisinha é o único seguro na prevenção da AIDS, com 99% de eficácia (Foto: Reproductive Health Supplies Coalition)

O principal problema da AIDS são as doenças oportunistas. Se o organismo está debilitado, ele deixa portas abertas para que outros vírus e bactérias se instalem e tragam doenças secundárias ao paciente, como pneumonia, hepatite viral, tuberculose e até mesmo citomegalovirose, aumentando as chances de óbito por comorbidades.

Apesar da alta infectibilidade do HIV, ser portador do vírus não incorre em ter AIDS. O vírus pode levar até 10 anos para se instalar e atacar o organismo, convivendo com o paciente em uma fase silenciosa e de baixa carga no corpo do indivíduo. Portanto, é errado afirmar que HIV e AIDS são sinônimos: HIV é o vírus da imunodeficiência humana, enquanto AIDS é a síndrome causada por ele enquanto sua carga estiver elevada, causando sintomas. Uma pessoa que não tem AIDS, mas tem o vírus HIV no sangue, pode transmiti-lo a outras sem saber.

O "pico da curva" da pandemia da doença se deu em 2004, de acordo com a Unaids, e desde então as mortes foram reduzidas em mais de 55% graças ao conhecimento do estado sorológico e acesso ao tratamento dos portadores da doença. A terapia medicamentosa é composta por um coquetel que inclui um antirretroviral capaz de suprimir ou reduzir consideravelmente a carga viral do paciente. Em 2018, por exemplo, de todas as pessoas que conviviam com o HIV e conheciam seu diagnóstico positivo, 62% tinham acesso ao tratamento e 53% já estavam com sua carga viral a níveis indetectáveis.

O laço vermelho tornou-se símbolo na campanha de conscientização da AIDS (Foto: Anna Shvets/Pexels)

Hoje em dia, a AIDS ainda não tem cura, mas tem tratamento com base em antirretrovirais. Quem tem acesso a essa terapia medicamentosa leva uma vida normal, já que os fármacos conseguem reduzir a carga viral do HIV no organismo da pessoa a níveis em que a transmissibilidade se torna insignificante — e o paciente leva uma vida normal.

COVID-19

  • Ano: 2019 - 2020
  • Mortes: 325 mil até 20 de maio
  • Causa: coronavírus SARS-Cov-2

Em dezembro de 2019, um novo coronavírus foi descoberto em Wuhan, na China. Sua alta velocidade de propagação e numerosos casos de morte fizeram com que a Organização Mundial da Saúde declarasse status de pandemia à doença causada pelo vírus, batizada então de COVID-19 (do inglês Coronavirus Disease 2019). Há um forte movimento atribuindo que a doença tenha caráter de zoonose, mas ainda não há provas científicas de que o vírus veio de animais (acredita-se que possa ter vindo do morcego ou do pangolim). Até o momento, a ciência descarta essa hipótese, tratando o coronavírus como uma mutação natural de outros coronavírus, possivelmente do SARS-CoV, que causava a síndrome respiratória grave.

"De cada vez que há uma pandemia, o subtipo dos vírus que circulava anteriormente desaparece. É como que substituído pelo novo subtipo, o da pandemia. Assim, entre 1918 e 1957 estiveram em circulação vírus pertencentes ao subtipo H1N1, entre 1957 e 1968 ao subtipo H2N2 e desde 1968 até ao presente o subtipo H3N2. A única exceção foi a reintrodução do subtipo H1N1 em 1977, ano em que não houve substituição do subtipo H3N2", explica o médico e professor Luís Bustamante.

Espalhado facilmente entre pessoas de contato próximo, através de gotículas de fala ou expelidas por tosses, espirros e contato indireto com objetos contaminados ou mesmo o ar, o novo coronavírus, batizado de SARS-CoV-2, provoca uma síndrome respiratória aguda alguns dias após o contágio — o que pode variar entre 10 a 14 dias. Em outra palavras, há uma janela assintomática em que a pessoa contaminada não sabe que está com o vírus, não apresenta sintomas mas pode contaminar outras pessoas mesmo assim.

O vídeo abaixo (em inglês, com legendas também em inglês), mostra mais sobre o novo coronavírus:

Os sintomas mais comuns são febre repentina, tosse, cansaço, dores musculares e falta de ar. Recentemente, falta de paladar e olfato também foram acrescidos à lista de sintomas da COVID-19. Alguns outros sintomas e sinais podem aparecer, como manchas nos dedos ou em outras partes do corpo, diarreia, dor de garganta e conjuntivite. Como o vírus é recente e a ciência ainda não desvendou todo o seu mecanismo de ação, novas complicações vêm surgindo a todo momento, associando afecções de rins, coração e olhos como doenças paralelas à COVID-19.

A grande preocupação das autoridades sanitárias é relacionada à idade e às comorbidades do paciente: em linhas gerais, pessoas com mais de 60 anos e que sofrem de alguma doença crônica como diabetes, hipertensão ou cardiopatias ou ainda fazem tratamento de câncer são as que estão no grupo de risco e precisam de socorro emergencial. No entanto, apesar de as mortes ocorrerem, em sua maioria, nessa faixa da população, há relatos de jovens saudáveis que apresentaram quadros graves e/ou morreram em decorrência do novo coronavírus — o que acende o alerta para toda a população.

Uma característica que torna a doença ainda mais difícil de ser controlada é sua sintomatologia, que varia de pessoa para pessoa. De modo geral, pessoas jovens e saudáveis apresentam sintomas mais leves, enquanto pessoas de meia-idade ou com comorbidades enfrentam quadros graves. Apesar da generalização, não há regra nem muito menos consenso sobre o modo de ação do novo coronavírus: há alguns relatos de idosos que se recuperaram, bem como há crianças que foram a óbito em decorrência da COVID-19. Uma pessoa pode ter a doença e se recuperar sem sentir os sintomas. No entanto, uma pessoa da mesma idade pode ter fortes dores e precisar ser intubada na UTI.

As medidas de prevenção da COVID-19 incluem distanciamento social, uso de álcool-gel nas mãos e desinfetantes em superfícies, uso de máscaras e, principalmente, higienização constante das mãos com água e sabão — a maneira mais eficaz e mais simples de neutralizar o vírus caso uma pessoa tenha sido exposta, evitando assim o contato das mãos com alguma superfície infectada e, posteriormente, com a boca, nariz ou olhos, caso a pessoa leve às mãos ao rosto. Como conter a população é difícil, alguns países ou territórios decretaram leis de lockdown, ou seja, o isolamento compulsório com base em toque de recolher e restrição de funcionamento do comércio e dos transportes. Locais de aglomeração como bares, restaurantes, cinemas, teatros, escolas, estádios e casas de espetáculos não devem abrir suas portas até que a doença esteja contida, o que impacta negativamente na economia local de diversos estados e países.

COVID-19: uso de máscaras passa a ser obrigatório em diversas cidades do mundo (Foto: Pixabay)

A orientação maior, vinda da Organização Mundial da Saúde e da grande maioria dos países, é ficar em casa. Por conta da diminuição do trânsito de pessoas nas ruas, a pandemia tem causado um desastre mundial tanto em número de casos e mortes, quanto na economia. Não se via uma recessão global acontecer desde a Grande Depressão de 1930. Vários eventos foram cancelados, desde partidas de futebol a gravações de filmes. Eventos religiosos, políticos, culturais e educacionais também tiveram de ser cancelados para evitar a propagação ainda mais descontrolada do vírus, a fim de poupar os sistemas de saúde mundo afora e evitar ao máximo novos casos graves envolvendo mortes.

O mundo ainda está sofrendo com a doença, mesmo nos países que apresentaram casos mais cedo, como China e Alemanha. Seja pelo descontrole da propagação e o colapso dos sistemas de saúde, seja pela economia quebrada, ou a ameaça de uma nova onda de propagação em países em recuperação, a luta global contra o coronavírus ainda continua, mesmo depois de 6 meses do primeiro caso (ocorrido em 1 de dezembro de 2019, na China). Hospitais de campanha são construídos para atender à alta demanda da população, enquanto cemitérios comunitários começam a receber um sem número de corpos. A disponibilidade de testes rápidos não é uma realidade em todos os países. No Brasil, esse é um dos principais agravantes, já que não se tem uma noção do número de casos confirmados simplesmente pelo fato de o país não ter testado suficientemente sua população, gerando uma alta taxa de subnotificação às autoridades de saúde e ainda mais descontrole na propagação do vírus, visto que pessoas assintomáticas ou com sintomas leves podem estar espalhando a doença sem ter consciência de que portam o novo coronavírus.

Modelo 3D mostra detalhes da coroa de proteínas do novo coronavírus, criado por especialistas (Imagem: Visual Science/Reprodução)

Apesar da corrida contra o tempo, laboratórios e farmacêuticas ainda não encontraram um remédio ou vacina eficaz em humanos para neutralizar o novo coronavírus e trazer alívio à população. Inúmeros testes já começaram a ser executados em laboratórios de diversos países, alguns em fases avançadas de testes em humanos, mas até o momento, nenhuma droga se mostrou eficaz contra a COVID-19.

Por que tantas pandemias começam na Ásia?

Você deve ter percebido que boa parte das pandemias de doenças respiratórias citadas aqui tiveram o local de origem próximo ou comum. Sendo assim, por que tantas pandemias de infecções respiratórias tiveram a China (ou a Ásia) como berço ou epicentro? Segundo Bustamente, "a razão é que na Ásia Oriental existem maiores densidades demográficas, e isso aumenta a chance de que mutações de virus que parasitam animais domésticos e selvagens tenham contato com seres humanos. Tais mutações ocorrem todos os dias em todas as partes do mundo, mas somente poucas delas se tornam capazes de infectar seres humanos. Uma vez infectado o primeiro ser humano, chamado de paciente zero, ele irá infectar mais pessoas e a epidemia irá se disseminar. Em regiões com altas densidades demográficas, como na Ásia Oriental, contatos com vírus mutantes e de seres humanos infectados entre si ocorrem com maior frequência, aumentando as chances de epidemias por virus novos".

Fonte: Com informações de: Ancient History (1) e (2), Smithsonian, History, CDC (1) e (2), Sino Biological, South China Morning Post, Unaids, OMS (HIV), OMS (COVID-19), Ancient Origins

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