É possível morrer de COVID mesmo tendo tomado as duas doses da vacina?

É possível morrer de COVID mesmo tendo tomado as duas doses da vacina?

Por Fidel Forato | Editado por Luciana Zaramela | 12 de Agosto de 2021 às 12h10
microgen/Envato

Nas redes sociais, relatos sobre casos de óbito em decorrência da COVID-19, após o paciente ser imunizado, viralizam e ganham grande repercussão. Em algumas postagens, a morte em decorrência da infecção causada pelo novo coronavírus (SARS-CoV-2) é usada, inclusive, como uma justificativa para demonstrar a ineficácia dos imunizantes contra a doença, o que é uma fake news.  

Sim, pacientes que receberam as duas doses de alguma vacina contra a COVID-19 podem vir a óbito em decorrência da doença, mas isso se torna muito mais raro com a imunização. Outra questão é que estes casos não demonstram a falta de eficácia das vacinas, mas apontam para o fato de que a proteção de uma fórmula contra o coronavírus tem limites e não é de 100%. Por isso, medidas de proteção ainda são tão importantes para o Brasil, mesmo para aqueles que já receberam as duas doses de um imunizante.

Após segunda dose, paciente ainda desenvolver forma grave da COVID (Imagem: Reprodução/Twitter)

A seguir, o Canaltech listou uma séria de situações e questões que devem ser pensadas sobre a proteção de uma vacina contra qualquer doença, como as disponíveis contra o coronavírus no país, e que podem ajudar na hora de desmitificar boatos da internet.

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Proteção contra a COVID-19 é imediata após a vacinação?

Um ponto que sempre deve ser considerado sobre os casos de óbitos em decorrência da COVID-19 é entender quando a pessoa foi imunizada e quantas doses recebeu. Por exemplo, após receber a primeira dose, a pessoa ainda precisa manter todos os cuidados de proteção — como evitar aglomerações e manter o uso de máscaras —, já que o sistema imunológico do indivíduo ainda não está preparado para combater uma eventual infecção. Alguma resposta, ainda baixa, só começará a ser formada após algumas semanas, dependendo do imunizante. Em outras palavras, uma única aplicação não basta para proteger uma pessoa das formas mais graves.

A maior capacidade protetora de uma vacina só deve começar a ser obtida após duas semanas da segunda dose. Nesse momento, anticorpos neutralizantes, aqueles que são capazes de barrar a entrada do coronavírus nas células saudáveis, já estão sendo produzidos. Para a vacina Covishield (Oxford/AstraZeneca), a taxa de eficácia — probabilidade de um imunizado não se contaminar — é de 62%. No caso da CoronaVac, a média é 50,7%.

Vacinas contra o coronavírus têm eficácia de 100%?

Até o momento, nenhuma vacina aprovada contra a COVID-19 no Brasil —  e no mundo — apresentou uma eficácia de 100%. Nesta lista, entram a CoronaVac e a Covishield, mas também podem ser incluídas as fórmulas da Pfizer/BioNTech, a da Moderna e a Sputnik V, por exemplo. "Uma vacina totalmente esterilizante é muito difícil", explicou o médico sanitarista e professor Sérgio Zanetta, enquanto comentava sobre a eficácia dos imunizantes ao Canaltech.

Vacinação é uma estratégia de proteção coletiva contra uma doença (Imagem: Reprodução/Ali Raza/Pixabay)

Se uma vacina que impede qualquer manifestação da doença é muito difícil, é válido se questionar sobre a função de um imunizante, como aqueles que estão sendo aplicados nos brasileiros. De forma geral, estes imunizantes devem evitar a evolução da COVID-19 para os casos mais graves, onde é necessária a internação em UTI. Em outras palavras, eles são adotados para diminuir a probabilidade de um paciente se contaminar e ter complicações, o que é algo muito significativo no contexto da atual pandemia e, para isso, são calculadas as taxas de eficácia.

“Eficácia é uma medida de resultado, de efeito. É o melhor resultado que posso obter num estudo controlado. A eficácia, por exemplo, de uma terapia, um medicamento, um teste representa o melhor resultado que pode ser obtido com aquele processo", definiu Zanetta. De forma ideal, a eficácia é a capacidade de uma vacina impedir completamente uma infecção, como a do coronavírus. Quando a taxa geral é de 62%, significa que uma pessoa vacinada tem 62% menos chances de se contaminar, quando é comparada com aquelas que não se vacinaram. 

Vacinação é uma estratégia de proteção coletiva

Mesmo com as duas doses, "nenhuma delas [as vacinas em uso contra a COVID-19] deve evitar casos assintomáticos, então é possível que a transmissão [do coronavírus] continue. Considerando que a cobertura vacinal ainda é baixa para os grupos de risco [no Brasil], a gente, de fato, tem que manter as medidas de distanciamento social e o uso de máscaras, por exemplo", explicou a Dra. Ana Freitas Ribeiro, médica sanitarista do Instituto de Infectologia Emílio Ribas, enquanto falava sobre as perspectivas dos imunizados em entrevista ao CT.

De acordo com a médica, seria necessário que mais de 60% da população brasileira fosse imunizada para que os riscos da infecção diminuíssem, de forma coletiva. Como a eficácia de uma vacina não é total, a melhor estratégia para combater um vírus é reduzir o número de pacientes que podem ser contaminados, ou seja, reduzir as possibilidades de transmissão. Caso as transmissões caiam, é possível que aquelas pessoas que, mesmo vacinadas, poderiam desenvolver sintomas da doença nunca se contaminem ou ainda indivíduos que não podem receber a vacina por alguma razão também sejam protegidos.

Circulação do coronavírus ainda é alta no Brasil e vacinados devem manter todos os cuidados (Imagem: Reprodução/IciakPhotos/Envato Elements)

Coronavírus ainda está em circulação no Brasil

Como não há disponibilidade de vacinas para todos os brasileiros e o coronavírus ainda circula, de forma significativa, pelo país,  as medidas de prevenção ainda devem ser respeitadas por todos, incluindo os que receberam as duas doses de alguma vacina contra a COVID-19 ou a fórmula de dose única. Isso significa que evitar aglomerações, manter o distanciamento social, adotar o uso de máscaras e de álcool em gel são práticas fundamentais para manter a saúde.

No caminho (ainda longo) para o controle do coronavírus, já foi verificado que as vacinas, quando aplicadas de forma massiva, podem representar a queda no número de hospitalizações. O estudo do Instituto Butantan, em Serrana, no interior de São Paulo, apontou para a necessidade de se imunizar pelo menos 75% da população para cortar a transmissão do coronavírus. Na cidade, a vacina CoronaVac foi usada em praticamente toda a população adulta e as mortes em decorrência do coronavírus caíram em 95%. No Brasil, apenas 22,4% da população está completamente vacinada.

Agora, um estudo sobre a eficácia das vacinas no mundo real também foi desenvolvido pelo Ministério da Saúde de Israel, a partir dos dados de imunização local com a vacina da Pfizer/BioNTech. Segundo a análise, o imunizante foi 89% eficaz na prevenção de todas as infecções do coronavírus. Para chegar a essa conclusão, o estudo acompanhou 1,2 milhão de pessoas, sendo que 600 mil haviam recebido as duas doses do imunizante, enquanto o restante não.

Um terceiro estudo foi desenvolvido pela Universidade de Edimburgo, no Reino Unido, utilizando dados coletados pela Public Health Scotland na população da Escócia. Entre os dias 8 de dezembro de 2020 e 15 de fevereiro de 2021, mais de 21% dos escoceses receberam pelo menos a primeira dose da vacina Covishield ou da Pfizer/BioNTech. Para aqueles que receberam a Covishield, a redução de internação foi de 94%, enquanto a redução, depois da primeira dose da Pfizer/BioNTech, foi de 85%. Para o grupo com mais de 80 anos, a redução média de risco em ambas as vacinas foi de 81%. Estes indiciativos apontam para um futuro onde a COVID-19 poderá ser controlada. 

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