Quando os vacinados contra COVID-19 poderão voltar à vida normal?

Por Fidel Forato | 01 de Março de 2021 às 16h10
Reprodução/ Governo de São Paulo

Para combater o novo coronavírus (SARS-CoV-2), uma das principais apostas é a ampla vacinação contra o agente infeccioso. No cenário brasileiro, mais de 1,3 milhão de pessoas já receberam as duas doses de uma vacina contra a COVID-19. Em porcentagem, menos de 1% de toda a população brasileira recebeu a imunização completa. Enquanto isso, outras 3,9 milhões de pessoas aguardam a segunda dose, de acordo com os dados do vacinômetro do Ministério da Saúde, conferidos no último sábado (27).

Com poucos brasileiros imunizados totalmente contra o coronavírus, é normal existir uma série de dúvidas sobre a hora da imunização e como estes primeiros vacinados devem se comportar, além de inúmeras fake news que circulam sobre as vacinas contra a COVID-19. Vale lembrar que, até o momento, são aplicados no país apenas os seguintes imunizantes: CoronaVac, desenvolvido pela farmacêutica chinesa Sinovac e pelo Instituto Butantan; e Covishield, formulado pela Universidade de Oxford, no Reino Unido, e pela farmacêutica AstraZeneca.

Com menos de 1% da população brasileira imunizada contra a COVID-19, os cuidados de proteção ainda são necessários para todos (Imagem: Reprodução/ Ministério da Saúde)

Para entender o cenário da imunização brasileiro, o Canaltech conversou com pessoas que já receberam pelo menos uma dose dos imunizantes contra a COVID-19. Além disso, entrevistamos a Dra. Ana Freitas Ribeiro, médica sanitarista do Instituto de Infectologia Emílio Ribas, para compreender os desafios que o coronavírus ainda impõe para a sociedade, mesmo para aqueles já imunizados.

Como foi ser vacinado contra a COVID-19?

“Já fui vacinado pela segunda vez [com o imunizante CoronaVac], porque quero proteger as pessoas que eu amo profundamente: minha esposa; meu filho; e minha filha", conta José Sinedino, pediatra na Secretaria Municipal de Saúde de Natal (RN). No momento da picada, o pediatra explica que não sentiu nada, nem a picada da agulha direito. “Não tive reação nenhuma, tais como dor de cabeça, febre, nem mialgias [dores musculares]. Tive apenas uma dor muito discreta, à noite, no local da aplicação", continua sobre a sua experiência pessoal na hora da imunização.

“Além de nos proteger, a vacina protege também aqueles que nós tanto amamos, a nossa família. Muitas pessoas desconfiam da eficácia desta vacina. Ela foi desenvolvida em um período tão curto, em menos de um ano. É bom lembrar que a ciência evoluiu muito, muito rápido. A vacina contra a caxumba somente foi produzida após seis longos anos. Esta pandemia forçou os cientistas a pesquisarem, praticamente, 24h por dia. E as pesquisas continuam, já que surgiram as mutações do coronavírus", reforça o pediatra, com mais de 65 anos e parte do grupo de risco para infecção, sobre a importância do ato de se vacinar.

Mesmo os imunizados contra a COVID-19 precisam manter os cuidados de proteção contra o coronavírus (Imagem: Reprodução/Governo de São Paulo)

“O coronavírus é um vírus devastador para o nosso organismo, principalmente, para o nosso aparelho respiratório. O tropismo [capacidade de um vírus infectar determinados tecidos e células] dele é maior para os nossos pulmões, mas as sequelas são as mais variadas possíveis", lembra o Dr. Sinedino.

"Talvez, vamos ter que tomar o reforço a cada ano, como fazemos com a vacina contra a gripe", completa o médico sobre as incertezas do período de proteção das vacinas e o surgimento das novas variantes. No entanto, é muito provável que, caso o reforço seja necessário, o pediatra esteja novamente entre os primeiros na fila da vacinação. No caso da CoronaVac, recebeu a primeira aplicação ainda em janeiro, poucos dias depois da liberação da fórmula no Brasil.

Saindo do Rio Grande do Norte e vindo para a capital do estado de São Paulo, conversamos também com o Dr. Antônio Mitihossi Nagamachi, que tem mais de 65 anos e algumas comorbidades (hipertensão e diabetes). Ele também foi vacinado com a primeira doses da CoronaVac, ainda em janeiro. Nagamachi é infectologista no Hospital do Servidor Público Estadual (HSPE) e atua na linha de frente do setor de Moléstias Infecciosas do hospital.

Por lidar com pacientes com diagnóstico positivo para o coronavírus, Nagamachi sentia-se "muito ansioso para tomar a vacina". Sem apresentar nenhuma reação ao imunizante, o médico lembra que "os benefícios de se vacinar contra a COVID-19 são inúmeros. É preciso que a população compreenda que são as vacinas que ajudam a combater diversas doenças, como o coronavírus".

Mais de 1,3 milhão de brasileiros já receberam as duas doses da vacina contra a COVID-19 (Imagem: Reprodução/ Katja Fuhlert/ Pixabay)

No interior de São Paulo, a farmacêutica e paciente oncológica Daniela Marinho recebeu a primeira dose da CoronaVac nos primeiros dias de fevereiro e, agora, aguarda com ansiedade pela segunda dose. “Não senti nenhum desconforto na hora da aplicação e nenhuma reação depois. Mas eu não sou uma pessoa que costuma ter reação com vacina, nunca tive", afirma Marinho.

“Na minha rua, na casa de uma vizinha, toda a família pegou a COVID-19. Teve um óbito", comenta Daniela sobre a importância da vacina e a necessidade de diminuir o contágio. “Até hoje, não mudei nada, continuo usando a máscara, limpando as mãos o tempo todo, usando o álcool em gel, porque a defesa ainda não está completa", explica Marinho sobre os seus hábitos de proteção.

“Tem muita gente falando mal da vacina, que não quer tomar, mas isso é incoerente. Ninguém contestava vacina nenhuma, como a da coqueluche, a BCG, a da pólio, e sempre tomaram. Tem uma vacina [disponível], a pessoa toma e acabou. É a única chance da gente sair dessa crise de saúde e econômica", reforça Marinho.

Vacinação em massa pode ser a única estratégia para o Brasil controlar a COVID-19 (Imagem: Reprodução/ Retha Ferguson/ Pexels)

Descendo para o Sul do país, no estado do Paraná, Brenda Pina, terapeuta ocupacional do Sistema Único de Saúde (SUS), recebeu a primeira dose da Covishield (Oxford/AstraZeneca), em fevereiro. Por trabalhar em contato direto com os pacientes, “estava aguardando há muito tempo [a vacinação]. Tenho bastante expectativa com a possibilidade de trabalhar diariamente com um pouco menos de medo de contaminar os familiares, principalmente", conta.

Após receber a primeira dose, Pina detalha ter sentido "fadiga e sonolência ao final do primeiro dia da vacinação". No entanto, a terapeuta ocupacional lembra: “Como profissional da saúde, eu diria que a única chance que temos de combater, de fato, a pandemia é se todos colaborarem com os cuidados, pois de maneira isolada não temos chance, tem que ser com o coletivo ou não adianta. Diria que a vacinação para todos é a única forma. Não há outro jeito".

Posição da Anvisa sobre efeitos adversos 

Fora das experiências pessoais, passado mais de um mês do início da vacinação nacional contra o coronavírus, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) também confirmou que as notificações mais frequentes relacionados às vacinas contra a COVID-19 não foram graves e estão no que é considerado como esperado.

Entre os principais eventos, "dor de cabeça, febre, aquela sensação de gripe que muita gente relata pós-vacinação são os eventos mais frequentes. Então, não são eventos graves, são eventos esperados", explicou a gerente-geral de Monitoramento de Produtos Sujeitos à Vigilância Sanitária da Anvisa, Suzie Marie Teixeira Gomes, para a TV Brasil.

Proteção após a primeira dose

Após receber a primeira dose de um dos imunizantes contra a COVID-19, a pessoa ainda precisa manter todos os cuidados de proteção contra o coronavírus — como evitar aglomerações e manter o uso de máscaras —, já que o sistema imunológico do indivíduo ainda não está preparado para combater uma eventual infecção. Alguma resposta, ainda baixa, só começará a ser formada após algumas semanas, dependendo do imunizante.

Vacinação da população deve ser mais expressiva para se repensar medidas de distanciamento social (Imagem: Reprodução/ Hakan Nural/ Unsplash)

"No caso da vacina de Oxford [a Covishield], no estudo de Fase 3, foi descoberto que há uma eficácia estimada em 64% após 21 dias da primeira dose. São resultados bons, mas não são para a infecção e, sim, para casos sintomáticos", explica a médica sanitarista Ana Ribeiro. Nesses casos, "é provável que a transmissão da doença ainda continue, no momento, porque você não evita casos assintomáticos", explica. "Agora, no caso da vacina CoronaVac, o estudo ainda não foi publicado e não foram divulgados resultados de eficácia da primeira dose", comenta Ribeiro.

Em outras palavras, ainda há probabilidades de infecção e transmissão do coronavírus após a primeira dose, independente do imunizante adotado. Para receber a segunda dose, a pessoa vacinada com a CoronaVac deve aguardar de duas a quatro semanas. Agora, os imunizados pela Covishield podem esperar pelo reforço de quatro a 12 semanas.

No entanto, é importante destacar que a máxima proteção que uma vacina pode desencadear em um cenário ideal, o que é medido pela taxa de eficácia, só deve começar a ser obtida após duas semanas da segunda dose. Nesse momento, anticorpos neutralizantes, aqueles que são capazes de barrar a entrada do coronavírus nas células saudáveis, já estão sendo produzidos. Para a vacina de Oxford, a taxa de eficácia — probabilidade de um imunizado não se contaminar — é de 62%. No caso da CoronaVac, a média é 50,3%.

Vacinação deve alcançar pelo menos 60% dos brasileiros para o uso de máscaras ser repensado (Imagem: Reprodução/ CDC/ Unsplash)

Dra. Ribeiro ressalta que, mesmo com as duas doses, "nenhuma delas [as vacinas] deve evitar casos assintomáticos, então é possível que a transmissão [do coronavírus] continue. Considerando que a cobertura vacinal ainda é baixa para os grupos de risco, a gente, de fato, tem que manter as medidas de distanciamento social e o uso de máscaras, por exemplo".

Quando poderemos pensar na vida voltando ao normal?  

"A COVID-19 uma doença nova, tivemos um excelente resposta da ciência mundial e já temos várias vacinas aprovadas ou em processo. Agora, a perspectiva de um retorno dependerá muito de uma maior cobertura vacinal, envolvendo populações inteiras — não só grupos de riscos — e também a avaliação de efetividade dessas vacinas para novas variantes do coronavírus", aponta a sanitarista do Emílio Ribas sobre os desafios que a sociedade ainda enfrentará até o controle da pandemia.

Como citado, um dos desafios será compreender as novas variantes, como a de Manaus ou da África do Sul. "É complicado, complexo? Não tanto, a partir do momento em que já temos vacinas. Seria uma mudança igual a que fazemos com a vacina de influenza que é renovada todo o ano", pontua Ribeiro. "Tendo uma redução de casos, uma boa resposta imunológica, uma alta cobertura, daí sim, vamos poder penar de um retorno gradual a vida normal", afirma.

A questão é o que poderia ser considerado como uma ampla cobertura vacinal. De acordo com a médica e pesquisadora, seria necessário mais de 60% da população brasileira. No entanto, "isso é muito cedo para prever, porque algumas vacinas não vão promover a redução na transmissão e, sim, a redução de casos graves. Então, pode ser que convivemos com o vírus de forma mais endêmica. O vírus não vai sumir, porém, as pessoas estarão protegidas de casos graves, o que é muito bom", pondera.

Boas notícias no combate à COVID-19  

Além disso, se o Brasil ainda enfrenta dificuldade no acesso às vacinas, a situação deve mudar no segundo semestre. Neste período, as fábricas do Instituto Butantan e da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) deverão estar, em pleno vapor, no envase de imunizantes com matéria-prima (IFA) importados. Em um segundo momento, com a transferência de tecnologia e a produção 100% nacional, o país ainda deve se beneficiar mais.

Ampla vacinação será necessária para o controle da COVID-19 no Brasile  no mundo (Imagem: Reprodução/ Daniel Schludi/Unsplash)

No caminho (ainda longo) para o controle da COVID-19, já foi verificado que as vacinas, quando aplicadas de forma massiva, podem representar a queda no número de hospitalizações. O primeiro estudo sobre a eficácia foi desenvolvido pelo Ministério da Saúde de Israel, a partir dos dados de imunização local com a vacina da Pfizer/BioNTech. De acordo com a análise preliminar, o imunizante foi 89% eficaz na prevenção de todas as infecções do coronavírus — tanto de casos sintomáticas quanto assintomáticos. Para chegar a essa conclusão, o estudo acompanhou 1,2 milhão de pessoas, sendo que 600 mil haviam recebido as duas doses do imunizante, enquanto o restante não.

O outro estudo foi desenvolvido pela Universidade de Edimburgo, no Reino Unido, utilizando dados coletados pela Public Health Scotland na população da Escócia. Entre os dias 8 de dezembro de 2020 e 15 de fevereiro de 2021, mais de 21% dos escoceses recebeu pelo menos a primeira dose da vacina Covishield ou da Pfizer/BioNTech. Para aqueles que receberam a Covishield, a redução de internação foi de 94%, enquanto a redução, depois da primeira dose da Pfizer/BioNTech, foi de 85%. Para o grupo com mais de 80 anos, a redução média de risco em ambas as vacinas foi de 81%. Ou seja, há esperança.

Para conferir o vacinômetro do Ministério da Saúde e a aplicação de doses das vacinas contra a COVID-19 na população brasileira, clique aqui.

Fonte: Com informações: Ministério da Saúde  

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