Eficácia das vacinas: quanto maior, melhor? Entenda!

Eficácia das vacinas: quanto maior, melhor? Entenda!

Por Fidel Forato | 25 de Janeiro de 2021 às 16h00
Hakan Nural/Unsplash

No combate ao novo coronavírus (SARS-CoV-2), centenas de milhares de brasileiros já foram imunizados com a CoronaVac, desenvolvida pela farmacêutica chinesa Sinovac e pelo Instituto Butantan, e pela vacina de Oxford, elaborada pela farmacêutica AstraZeneca e pela Universidade de Oxford, no Reino Unido. Além destes, outros imunizantes contra a COVID-19, eventualmente, devem chegar ao país, como a Sputnik V ou ainda as vacinas da Pfizer e da Moderna. Em comum, todas imunizam, mas apresentam diferentes taxas de eficácia.

No cenário da imunização contra o coronavírus, muito se tem discutido sobre a diferença de eficácia entre as vacinas, além de eventual disponibilidade no Brasil. Para entender o que significam essas variações, o Canaltech conversou com Sérgio Zanetta, médico sanitarista e professor de Saúde Pública do Centro Universitário São Camilo. "Uma vacina totalmente esterilizante é muito difícil", já adianta o professor.

Para avaliar uma vacina, é preciso avaliar sua eficácia,  efetividade e eficiência (Imagem: Reprodução/ Daniel Schludi/ Unsplash)

O que é taxa de eficácia?

“Eficácia é uma medida de resultado, de efeito. É o melhor resultado que posso obter num estudo controlado. A eficácia, por exemplo, de uma terapia, um medicamento, um teste representa o melhor resultado que pode ser obtido com aquele processo", explica Zanetta. Pensando nas vacinas, esse valor é definido após se avaliar os resultados de um estudo clínico de fase 3, onde milhares de pessoas testam uma fórmula. Por exemplo, a pesquisa brasileira da CoronaVac envolveu cerca de 13 mil pessoas.

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Em outras palavras, a taxa de eficácia representa, de forma ideal, a capacidade de uma vacina impedir completamente uma infecção, como a do coronavírus. Quando a taxa geral é de 50,38%, significa que uma pessoa vacinada tem 50,38% menos chances de se contaminar, quando é comparada com aquelas que não se vacinaram. Dessa forma, é comum pensar que quanto maior for essa taxa, melhor. No entanto, há uma série de variantes que podem ser, inclusive, mais importantes do que essa taxa.

Independente disso, vale apontar as taxas de eficácia das vacinas contra a COVID-19 já divulgadas, até o momento, mesmo que sem a publicação detalhada de todos os estudos clínicos de Fase 3. Confira a seguir: a CoronaVac apresentou 50,38%; a vacina de Oxford apresentou uma média de 70%, dependendo das doses aplicadas (62% - 90%); a da Pfizer e da BioNTech demonstrou 95%; a da Moderna alcançou 94,5%; e a Sputnik V apontou 91,4%.

Como calcular a taxa de eficácia?

Dependendo da situação, existem diferentes formas de calcular a taxa de eficácia de uma vacina (Imagem: Reprodução/ Fidel Forato/ Canaltech)

Como já comentado, a taxa de eficácia é calculada a partir dos resultados dos estudos clínicos de fase 3. Dessa forma, é preciso definir a taxa de incidência nos vacinados (número de voluntários vacinados contaminados/ número total de vacinados) e a incidência da COVID-19 nas pessoas não vacinadas, ou seja, no grupo que recebeu apenas um placebo.

Dessa forma, será estabelecida a incidência dos vacinados sobre a incidência dos não vacinados. "Essa proporção eu chamo de risco relativo, qual o risco que essa vacina aumenta ou diminui", explica o professor. "A eficácia é o complemento disso, é o que se chama de redução relativa do risco. Quanto a vacina fez em reduzir um risco pré-existente? É 1 menos esse risco relativo ou 100% menos esse percentual", complementa.

No entanto, essa fórmula geral só vale quando o estudo clínico foi iniciado, de forma simultânea, em todos os voluntários, o que não foi realidade no desenvolvimento das vacinas contra a COVID-19. Nestes estudos, as pessoas estiveram expostas a riscos diferentes devido ao tempo em que entraram no estudo. Em outras palavras, quem entrou no primeiro mês da pesquisa teve um maior tempo de potencial exposição ao coronavírus.

Nesse caso, "não somo pessoas. Somo uma ponderação da pessoa pelo tempo em que está na pesquisa. Isso dá a densidade da incidência em cada uma das pessoas que é relativa [varia entre os casos]", afirma o professor. Este foi, por exemplo, o modelo adotado pelos estudos da CoronaVac, o que torna essa conta muito mais sofisiticada.

Efetividade e eficiência de vacinas

Além da eficácia, é preciso pensar na efetividade e na eficiência das vacinas, duas medidas que só podem ser avaliadas quando os imunizantes contra a COVID-19 forem testados na prática. "Vou produzir, transportar e aplicar nas unidades de saúde de São Paulo, do Amazonas e de todas as outras unidades do país. Nesse contexto, o resultado que essa vacina apresentar se chamará efetividade", comenta o médico sanitarista.

Dessa forma, a efetividade é a capacidade de uma vacina controlar uma doença, como a COVID-19, na vida real. Esse processo depende, principalmente, do número de pessoas que tiveram acesso ao imunizante, lembrando que uma vacinação bem-sucedida não representa um processo individual, mas coletivo. Por isso, "as vacinas podem ter eficácia e efetividade diferentes", explica Zanetta.

“Se tenho uma vacina que precisa de uma rede de frios de -70°C [como a da farmacêutica Pfizer e da empresa de biotecnologia alemã BioNTech], ela tem uma eficácia alta [estimada em 95%]. Só que quando essa vacina é testada na prática, não consigo mantê-la refrigerada na temperatura ideal, distribuir num país muito grande ou aplicar rapidamente", ilustra o professor universitário. Assim, a eficácia do imunizante deve ser diferente da sua efetividade.

Além de eficácia, tanto a CoronaVac quanto a vacina de Oxford devem apresentar boa efetividade (Imagem: Reprodução/ Cuz Gallery/ Rawpixel)

Por outro lado, “as nossas vacinas [tanto a CoronaVac quanto a vacina de Oxford] têm uma eficácia mais baixa, mas podem ser usadas na cadeia de frios que o Brasil já tem e também poderão ser armazenadas nas mais de 46 mil equipes da saúde de família, espalhados pelo Brasil, sem contar os postos de saúde", lembra Zanetta. Dessa forma, o Sistema Único de Saúde (SUS) aumentará a efetividade, de forma substancial, desses imunizantes.

Por fim, a eficiência é o quanto custa para produzir o resultado, ou seja, a imunização. "Se eu tenho uma vacina, além de mais barata, ela consegue ser usada na estrutura que já tenho, é tudo mais barato. Nossas vacinas, sendo produzidas aqui, têm mais efetividade e, portanto, mais eficiência", confirma o professor. Nesse aspecto, tanto a CoronaVac quanto a vacina de Oxford devem se produzidas nacionalmente, já que os acordos comerciais incluem transferência de tecnologia.

Comparando a taxa de eficácia entre vacinas

Nas redes sociais, outra dúvida que circula bastante é se é possível comparar as diferentes taxas de eficácia entre vacinas, podendo escolher a melhor fórmula. A resposta é sim e não, já que "temos alguma variabilidade entre as vacinas e entre os estudos", explica o médico sanitarista.

"Para alguns estudos, vou considerar que a pessoa teve COVID-19, se ela apresentar três sintomas, por exemplo. Para o estudo do Butantan, um sintoma e o PCR positivo já era considerado um caso da infecção", comenta Zanetta. No entanto, esse critério não é fixo e nem o mesmo para todos os estudos clínicos das vacinas contra o coronavírus, podendo variar. Como a taxa de eficácia geral, é um cálculo onde cada caso tem relevância, esses critérios podem afetar diretamente os resultados.

“Isso significa que não podemos confiar na eficácia? Podemos confiar na eficácia, mas em ciência nem tudo se resume a coisa mais simples. Vou examinar o resultado de eficácia de vacina por vacina, mas também como foi o desenho do estudo [como foi calculado]", explica o professor. Nesse quesito, só será possível avaliar a real diferença entre os imunizantes contra o coronavírus, de forma comparativa, quando todos os estudos tiverem sido publicados.

Quanto aos estudos ainda em andamento, "a taxa de eficácia das vacinas pode melhorar até o fim do estudo, mas ela [qualquer uma das vacinas autorizadas por uma agência reguladora] já tem uma eficácia suficiente para autorizar o uso emergencial [acima de 50%]", orienta. Por exemplo, o estudo da CoronaVac foi inciado em maio de 2020 e só será encerrado em julho deste ano.

Eficácia de vacinas de RNA mensageiro  deve ser provadas na vida real ainda (Imagem: Reprodução/ Gustavo Fring/ Pexels)

Até agora, a grande novidade foi a eficácia das vacinas de RNA mensageiro (mRNA), como a da Pfizer e da Moderna, mas "elas ainda precisam se demonstrar úteis, na prática [o que veremos em breve]. Pode ser que, no futuro, todas as nossas vacinas sejam produzidas com essa plataforma", ressalta o professor. Para isso, será preciso ver a efetividade desses imunizantes em países que já o adotaram, como os Estados Unidos e o Reino Unido.

Eficácia de outras vacinas

Além das tão discutidas vacinas contra a COVID-19, há uma série de imunizantes que já são adotados na prevenção de algumas doenças nos brasileiros, como a vacina do sarampo (que ultrapassa a taxa de eficácia de 80%) e da H1N1 (com cerca de 62% de eficácia). Já a vacina contra coqueluche tem uma proteção de cerca de 50% e, hoje, pouco se fala sobre essa doença, ainda mais quando há vacinação de crianças.

“Tem vacinas que são ótimas porque impedem a doença, e tem vacinas que são ótimas porque impedem formas graves da doença", comenta o professor Zanetta. Nesses casos, esses imunizantes ganham em efetividade e eficiência, como a BCG (bacilo de Calmette-Guérin). "A vacina BCG é adotada 'contra tuberculose', só que ela só protege contra as formas mais graves [da doença]", explica. No caso das crianças, um quadro de tuberculose grave pode ser fatal.

De forma geral, o foco de uma vacina é diminuir a mortalidade pela doença contra a qual se imuniza. É, por isso, que companhas de vacinação se iniciam pelas pessoas com maior risco, como os idosos, e os mais expostos, como os profissionais da saúde, no caso da COVID-19. Através do controle desses grupos, é possível reduzir a necessidade de internações e aliviar o sistema de saúde, de forma gradual.

Estes são pontos fundamentais já que, diariamente, o Brasil registra mais de mil pessoas por dia em decorrência do coronavírus, segundo dados do Conass (Conselho Nacional de Secretários de Saúde). Dessa forma, “se metade das pessoas é resistente a uma infecção, eu dificulto para o vírus entrar e infectar alguém na comunidade. Nesse caso, diminuímos a probabilidade matemática da doença", completa o professor.

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