Retrospectiva: a corrida das vacinas e o que 2021 nos promete

Retrospectiva: a corrida das vacinas e o que 2021 nos promete

Por Fidel Forato | 22 de Dezembro de 2020 às 18h15
Daniel Schludi/Unsplash

Após um ano da corrida em busca de uma vacina contra o novo coronavírus (SARS-CoV-2), o mundo já conta com as primeiras a cruzarem a linha de chegada, como a vacina da Pfizer e a da Moderna. No combate à pandemia da COVID-19, esses imunizantes foram desenvolvidos em tempo recorde na história da medicina, já que o coronavírus só se tornou mundialmente conhecido em dezembro de 2019, a partir de casos identificados na China. Inclusive, essa capacidade técnica dos cientistas deve ser reconhecida, no futuro, como inédita.

Em janeiro deste ano, pesquisadores da China já compartilhavam, de forma digital, o sequenciamento genômico do novo agente infeccioso e cientistas de outros países começaram a estudá-lo, antes mesmo dos primeiros casos chegarem às suas respectivas regiões. Quando a Organização Mundial da Saúde (OMS) decretou que o mundo enfrentava a pandemia do coronavírus, ainda em março, as primeiras pesquisas para uma futura vacina já estavam em andamento.

Vacinas foram desenvolvidas de forma inédita contra a COVID-19 (Imagem: Daniel Schludi/ Unsplash)

Segundo o rastreador de vacinas do jornal The New York Times, são mais de 85 candidatas contra a COVID-19 já em estudos clínicos, sendo testadas em humanos. Desse total, oito imunizantes já obtiveram algum tipo de autorização de uso, como uma liberação emergencial. Para entender o cenário (tão eficaz) do desenvolvimento de vacinas contra a COVID-19, o Canaltech conversou com a infectologista e professora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Raquel Silveira Bello Stucchi.

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Por que desenvolvemos vacinas tão rapidamente?

Nas redes sociais, um dos maiores questionamentos sobre a eficácia das vacinas é o período tão curto para o desenvolvimento dos imunizantes contra a COVID-19, com pessoas levantando hipóteses de que esse período não seria o suficiente para a elaboração de produtos eficazes e seguros. Antes da pandemia, era um consenso que todo o processo levaria em torno de cinco anos. No entanto, a professora da Unicamp defende que essa capacidade de desenvolvimento não afeta a segurança das fórmulas.

Além disso, as vacinas precisam concluir três fases de um estudo clínico para serem aprovadas, como é o caso do imunizante da Pfizer, cuja eficácia e segurança foram comprovadas em grupos de milhares de pessoas. Depois, esses dados são verificados por cada agência regulatória de onde se deseja aprovar um imunizante. No caso do Brasil, é a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) que faz toda a avaliação.

“Temos alguns fatores para explicar o porquê desse curto do tempo”, comenta Stucchi. “O novo coronavírus é o SARS-CoV-2, porque já conhecemos outros coronavírus que causaram a Síndrome Respiratória Grave, só que ficaram localizados geograficamente", explica a infectologista. Em 2003, foi identificado o vírus SARS-CoV, causador da SARS (Síndrome Respiratória Aguda Grave). Já em 2012, o MERS-CoV, causador da MERS (Síndrome respiratória do Oriente Médio).

Mais de 85 vacinas contra a COVID-19 são testadas em humanos (Imagem: Reprodução/ Maksim Goncharenok/ Pexels)

“São dois coronavírus para os quais se tentou desenvolver vacinas, só que ficaram muito restritos e, rapidamente, o número de casos diminuiu, apesar de ter tido muitos óbitos relacionados a eles", afirma a infectologista. Independente disso, a estrutura desses agentes infecciosos, especificamente a espícula desses vírus — parte que se liga e infecta uma célula humana —, é muito semelhante à do novo coronavírus. Dessa forma, "os pesquisadores já conheciam a estrutura do vírus, conheciam qual parte iria provocar a formação de anticorpos e já sabiam em que modelo animal a vacina deveria ser testada", completa Stucchi.

Além de bilhões de dólares investidos em diferentes laboratórios espalhados pelo mundo, as fases 1 e 2 de pesquisas ocorrerem, de forma paralela, em alguns testes de imunizantes. Já a fase 3, onde milhares de pessoas são testadas, ocorreu em países com alta circulação do coronavírus, como o Brasil, o que permitiu que se alcançasse resultados mais rápidos.

“Outro fator foi que, no desenvolvimento tradicional de vacinas, as indústrias só começavam produção quando [o imunuzante] já tivesse sido aprovado pelas agências regulatórias. No caso das vacinas desenvolvidas contra a COVID-19, os laboratórios assumiram uma atitude de risco e começaram a produzir a vacina antes mesmo dela ser aprovada", explica a infectologista. Para entender como esse é um investimento de risco, a vacina da Universidade de Queensland, na Austrália, foi abandonada e doses produzidas tiveram que ser descartadas. O motivo? Ela causava resultados falsos positivos para o vírus HIV, o que acabou minando sua confiabilidade.

Vacinas já aprovadas contra o coronavírus

Como já explicado, a autorização de vacinas contra a COVID-19 depende de agências reguladoras locais, como a Anvisa ou ainda a Food and Drug Administration (FDA), nos Estados Unidos, por exemplo. Dessa forma, é comum que um imunizante possa ser usado em determinado país e não em outro. A seguir, confira as vacinas que já obtiveram alguma forma de aprovação no globo:

Vacina da Pfizer

Desenvolvida pela farmacêutica norte-americana Pfizer em parceria com a empresa de biotecnologia alemã BioNTech, a vacina imuniza a partir de duas doses. O imunizante carrega um RNA mensageiro (mRNA) — uma tecnologia inédita para a ciência — que estimula o organismo a produzir uma proteína específica do coronavírus. Depois de produzida, o sistema imunológico pode reconhecer tal proteína como um antígeno e, assim, cria imunidade contra a doença.

Um dos grandes desafios desta fórmula é o transporte. Isso porque ela precisa ser armazenada em temperaturas muito baixas, de -70°C, o que nem sempre é viável em algumas regiões do planeta. Para isso, a farmacêutica estuda uma série de iniciativas. Por outro lado, a eficácia é de 95%, o que é considerado excelente no universo das vacinas. A fórmula já foi aprovada, de forma emergencial, em vários países, como os EUA, o Reino Unido e o Chile.

Vacina da Moderna

A farmacêutica norte-americana Moderna também desenvolveu uma vacina com RNA mensageiro (mRNA), de forma similar ao potencial imunizante da Pfizer, para a produção de proteínas virais do coronavírus no corpo humano, depois de duas doses. A pesquisa teve parceria com o National Institutes of Health (NIH), o maior centro de pesquisa biomédico dos EUA. De acordo com os desenvolvedores, suas doses precisam ser armazenadas em temperaturas de -20 °C e sua eficácia é de 94,5%. A fórmula já obteve autorização de uso emergencial nos EUA.

Sputnik V

O Instituto de Pesquisa Gamaleya, parte do Ministério da Saúde da Rússia, desenvolveu o imunizante Sputnik V, que atua de forma dupla na proteção contra o coronavírus, a partir da plataforma de vetor viral não replicante, em duas doses. Para garantir uma imunidade mais duradoura, os pesquisadores apostam no uso combinado de dois tipos diferentes de vetores de adenovírus (rAd26 e rAd5), ambos conhecidos por causar um resfriado comum em humanos. Na Sputnik V, os dois vírus são editados geneticamente e têm incluído no material genético a proteína spike, que forma a espícula do coronavírus. Estável, a fórmula pode ser armazenada em freezers comuns, entre 2 °C e 8 °C. Com uma taxa de 95% de eficácia, o imunizante é utilizado na Rússia.

CorornaVac e outras fórmulas

A farmacêutica chinesa Sinovac desenvolveu o seu imunizante, conhecido como CoronaVac, a partir de fragmentos do coronavírus inativados (quando o vírus está "morto"), uma técnica bastante tradicional no universo das vacinas, com duas doses do imunizante. A vacina pode ser armazenada em freezers comuns, entre 2 °C e 8 °C e, atualmente, tem autorização de uso emergencial apenas na China. Em parceria com o Instituto Butantan, em São Paulo, a conclusão dos testes de fase 3 deve ser publicada nos próximos dias.

Ainda na China, a vacina da farmacêutica CanSino Biologics e outras duas fórmulas da Sinopharm também obtiveram uma autorização restrita de uso.

Vacinação contra a COVID-19 no Brasil

Na quarta-feira passada (16), o Ministério da Saúde apresentou a nova versão do Plano Nacional de Imunização (PNI) contra a COVID-19. Mesmo sem uma data oficial para o início da campanha, o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, espera que as primeiras doses sejam distribuídas em “meados de fevereiro”. Em paralelo, o governo do Estado de São Paulo planeja iniciar imunização contra o coronavírus, apenas com a CoronaVac, no dia 25 de janeiro.

Para a imunização nacional contra o coronavírus do Ministério da Saúde, o país espera contar com quatro imunizantes, ainda não aprovados pela Anvisa. São eles: a CoronaVac; a vacina da Pfizer; a vacina de Oxford, desenvolvida pela farmacêutica AstraZeneca e pela Universidade de Oxford, no Reino Unido; e o imunizante da farmacêutica da Johnson & Johnson, a Janssen.

Caso o Ministério da Saúde feche um acordo com a vacina da Pfizer, o Brasil terá uma importante vantagem contra eventuais mutações do coronavírus. Mesmo que a última variante identificada pelo Reino Unido, mais transmissível, não represente riscos conhecidos para a eficácia das vacinas, outras mutações podem chegar. Nesse sentido, “as vacinas que são feitas com RNA mensageiro, como as da Moderna e da Pfizer, têm a vantagem de serem adaptadas facilmente”, comenta a infectologista, já que o mRNA pode ser adaptado de acordo com a mutação, se isso for necessário um dia.

Brasil espera iniciar imunização contra a COVID-19 em fevereiro (Imagem: CDC/ Unsplash)

“O Brasil tem experiência bem-sucedida e capacidade para fazer uma vacinação em massa, não tenho dúvidas”, comenta Stucchi. Isso porque o país já realizou inúmeras campanhas desse tipo, inclusive a vacinação contra a gripe (H1N1) é anual. Nesse cenário, “devemos ter a coincidência das duas campanhas de vacinação, a da COVID-19 e a da gripe. Então, é preciso ter um planejamento muito bem feito não só no governo federal, mas os municípios já devem — ou deveriam — estar planejando como farão as campanhas para os seus munícipes”, afirma Stucchi.

Mesmo que a campanha contra a COVID-19 seja realizada, com sucesso, os primeiros meses de 2021 serão marcados pela cautela em relação ao coronavírus. “Para a maior parte das vacinas, você espera diminuir a circulação do vírus quando há uma cobertura vacinal acima de 80%. Até atingirmos essa porcentagem de população vacinada, nós ainda teremos que manter os cuidados, mesmo aqueles [que já foram] vacinados”, orienta a infectologista.

Um desafio para o Brasil é que uma das suas principais apostas para a vacinação contra o coronavírus, a vacina de Oxford, ainda não obteve aprovação de uso em nenhum país e esse processo pode demorar. Isso porque questões sobre a quantidade de imunizante necessária para a imunização que surgiram durante o estudo clínico. Agora, a vacina inicia um novo estudo em parceria com o imunizante Sputnik V para avaliar uma maior eficácia. Além disso, as fake news e ondas de desinformação sobre a importância das vacinas devem atrapalhar a imunização naiconal.

O que ainda precisamos saber?

“Uma pergunta que ainda não foi respondida e deverá, no próximo semestre, é sobre se essas vacinas vão impedir que as pessoas transmitam o vírus”, explica a infectologista. Essa resposta é importante para saber se a imunização também poderá bloquear a transmissão, além da infecção em quem for vacinado. “Se a vacina impedir a transmissão, a partir do momento em que há um grande número de pessoas vacinadas [no Brasil], é possível começar discussões sobre a necessidade das medidas de distanciamento e do uso de máscaras. Antes de ter essa informação essas medidas ainda serão obrigatórias”, pondera Stucchi.

Os próximos meses também devem revelar por quanto tempo a vacinação contra a COVID-19 gera de imunidade. Em comparação, a vacina da gripe imuniza por até nove meses. Entender esse tempo também será fundamental para a definição de novas políticas públicas. Além disso, "o conhecimento [sobre o coronavírus] também avançou de forma muito rápida de tal forma que, hoje, quem fica doente — se tiver leitos de hospital — tem uma chance de sobrevida muito maior do que era em maio, por exemplo". Isso significa que a ciência também tem evoluído de outras formas para o controle da pandemia.

Fonte: Com informações: NYT  

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