Conheça os Sete Soldados da Vitória, supergrupo da DC Comics que pouca gente leu

Conheça os Sete Soldados da Vitória, supergrupo da DC Comics que pouca gente leu

Por Claudio Yuge | 16 de Agosto de 2020 às 10h00
Dc Comics

A DC Comics é cheia de personagens obscuros, principalmente porque, no início de sua trajetória, em meados de 1930, a editora “atirava para todos os lados”, publicando histórias com protagonistas mais mundanos, com temas populares na época, a exemplo das tramas policiais e de faroeste; e outras que flertavam com fantasia e ficção científica.

E foi mais ou menos nessa época que ela criou dois supergrupos, que seriam os primeiros de sua espécie: a Sociedade da Justiça e os Sete Soldados da Vitória. Enquanto o primeiro ficou mais famoso, especialmente por se associar posteriormente à Liga da Justiça, o segundo até hoje foi lido por relativamente pouca gente. Mas o que os tornam especiais e qual sua importância nas HQS? O Canaltech explica para você.

No final dos anos 1930, a DC Comics já começava a sentir a popularidade de Superman e Batman. Mas a editora não sabia que esses heróis, juntamente com a Mulher-Maravilha, no começo dos anos 1940, tornariam-se seus maiores ativos. Então, ela tentava capitalizar sobre todas suas criações e aquelas que ela adquiriu no período.

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Os primórdios da equipe, que no começo tinha seis integrantes (Imagem: Reprodução/DC Comics)

Dessa forma, a DC passou a reunir tudo o que já havia tido alguma boa vendagem em títulos de antologia, com uma verdadeira “salada”. Assim nasceram a Sociedade da Justiça, com os heróis da Era de Ouro dos quadrinhos; e os Sete Soldados da Vitória, que, misturava vigilantes e defensores de origens mais “convencionais”.

A primeira formação

Quando o vilão chamado O Mão reúne cinco criminosos — cada um representando um dedo da mão — para cometer golpes, assaltos e assassinatos, cinco outros defensores resolvem se unir para deter o grupo. Essa superequipe, que foi a segunda da história dos quadrinhos, já nasce com uma proposta nunca antes vista, pois, aparentemente, nenhum dos personagens têm a ver um com o outro. Além disso, três deles trazem “ajudantes mirins” — sendo que um é mais velho do que o próprio protagonista.

A formação original é composta pelo pistoleiro Vigilante, que havia aparecido em Action Comics, título do Superman; o Vingador Escarlate, da Detective Comics, mesma revista em que apareceu Batman, e que luta ao lado de Wing, quase um “oitavo Soldado”; o Arqueiro Verde e seu auxiliar Ricardito, estrelas do título More Fun Comics; o Cavaleiro Brilhante, de Adventure Comics; Sideral e Faixa, parceiro que na verdade é mais velho que o herói que ele acompanha, de Star-Spangled Comics.

Da esquerda para a direita: Vigilante, Arqueiro Verde, Star-Spangled Kid, Cavaleiro Brilhante, Ricardito, Faixa,
Vingador Escarlate e Wing, que na verdade era um oitavo membro (Imagem: Reprodução/DC Comics)

A estreia desse estranho e divertido grupo foi em Leading Comics #1, de 1941, pelas mãos do escritor Mort Weisinger e do desenhista Mort Meskin. Durante 15 edições, suas histórias, embora parecessem um tanto quanto malucas na época, foram um grande sucesso. As aventuras tinham basicamente a mesma estrutura: os Sete Cavaleiros da Vitória, que também se chamavam Legionários da Lei, reuniam-se para avaliar uma ameaça criada pelo Mão; em seguida, eles se separavam e, nesses trechos, suas participações eram ilustradas por desenhistas diferentes; e no terceiro ato, os integrantes voltavam a se encontrar com soluções para deter os vilões.

Aos poucos, as aventuras começaram a receber elementos de ficção científica, como máquina do tempo; e componentes sobrenaturais. Todo esse mix era tremenda novidade em 1940 e, inicialmente, fez muito sucesso. E mais: revolucionou a narrativa e a própria definição de quadrinhos.

Redefinição de quadrinhos como gênero

Assim como acontecia até os anos 2000 nos cinemas, os quadrinhos não tinham um gênero próprio antes da popularidade dos super-heróis, que é a mitologia moderna americana. Então, no começo dos anos 1920, as tiras de jornais e as aventuras sequenciais que começavam a chegar às revistas exploravam temas já populares na literatura — e o que mais vendia eram tramas de crime e mistério.

As publicações pulp, que eram baratas para imprimir, tornaram-se uma febre no começo do século e isso durou até os anos 1950. E no começo de 1941, os Sete Soldados da Vitória ajudaram a redefinir o que estava se tornando um gênero: o quadrinho de super-heróis. Isso porque o tom, a estrutura narrativa e os próprios personagens traziam elementos nunca antes explorados.

A maior parte dos integrantes dos Sete Soldados da Vitória era composta por humanos sem poderes. Eles apenas eram pessoas com habilidades bem treinadas, com astúcia para vencer os oponentes. Mas aí você tinha o Cavaleiro Brilhante, perdido no tempo com sua lenda arturiana; e o Sideral (ou Starman), que tinha um cinturão cósmico que lhe força, velocidade, resistência e agilidade ampliados.

Isso por si só já era uma novidade, porque você unia faroeste, ficção científica, fantasia medieval e tramas policiais, tudo em uma abordagem mais leve e divertida, voltada para o público infantojuvenil. E isso passou a ser explorado cada vez mais, tanto na Marvel Comics quanto na DC Comics, estabelecendo uma maneira de contar histórias sem as amarras de um gênero específico: assim, o “subgênero” super-herói se tornou um filão independente, que tem como principal caraterística justamente essa capacidade de reunir vários subtextos em uma só tonalidade.

Imagem: Reprodução/DC Comics

Além disso, os sidekicks adolescentes, que haviam sido introduzidos nos quadrinhos de super-heróis por Robin, passaram a ter maior importância na trama. E a variedade de estilos desses ajudantes mirins ajudou as revistas a encontrarem identificação nos leitores mais jovens. Para completar, o fato da narrativa se dividir em subtramas, para então resultar em um final com todos os heróis juntos, inspirou artistas e escritores a brincarem mais com a estrutura da linguagem dos quadrinhos.

Essa salada iconoclasta, embora tenha feito muito sucesso, só se manteve ao longo do tempo junto aos nichos de leitores mais fieis. O estranhamento de grande parte dos leitores conservadores, juntamente com o período em que o mundo passava, não ajudaram muito as rocambolescas histórias dos Sete Soldados da Vitória.

Assim, a equipe praticamente desapareceu dos quadrinhos nos anos 1950 e 1960, retornando somente em 1970, quando os heróis da Sociedade da Justiça — outro grupo que havia caído no ostracismo — reuniu-se com a Liga da Justiça para encontrar os Sete Soldados da Vitória. Desde então, o grupo teve outras formações e abordagens, mas nunca se estabeleceu por completo.

O encontro entre a Sociedade da Justiça, os Sete Soldados da Vitória e a Liga da Justiça
(Imagem: Reprodução/DC Comics)

Já nos anos 1980, com o reboot conhecido como Crise nas Infinitas Terras, os Sete Soldados da Vitória são retomados sem seus sidekicks, que sumiram porque o personagem deixou de existir na Terra Primordial ou porque simplesmente cresceram e se tornaram membros oficiais. Mas nesse ponto, heróis tradicionais, como os da Liga da Justiça e dos Vingadores, já eram muito mais populares e praticamente eclipsaram a abordagem da Era de Ouro que ainda resistia nos personagens da “velha guarda”. Assim, o segundo supergrupo das HQs se limitou a fazer aparições coadjuvantes em alguns arcos e especiais.

A sensacional maxissérie de Grant Morrison

Em 2005, o escritor escocês Grant Morrison decidiu trazer de volta os Sete Soldados da Vitória. “Tive a primeira ideia em 2002, que seria uma história derivada da Liga da Justiça, chamada JL8. A equipe apresentava um monte de personagens obscuros em um análogo dos Vingadores ou dos Supremos [versão mais realista dos Vingadores, em uma linha alternativa da Marvel Comics na época]”, disse o autor.

A premissa de Morrison é que uma raça de bilhões de anos no futuro, chamada Sheeda, ameaça nossa realidade. Assim, vemos, de diferentes perspectivas, como Cavaleiro Brilhante, Guardião, Projétil, Klarion, Zatanna, Senhor Milagre e o Jovem Frankenstein assumem os papeis de defensores após a derrota do Vigilante e uma tentativa de reunião dos Sete Soldados da Vitória.

O que mais chama a atenção é que as edições 0 e 1, que abrem e fecham a trama completa, são permeadas por sete minisséries de quatro edições para cada personagem — cada um com seu tom e seu desenhista. Isso emula a estrutura narrativa das próprias origens dos Sete Soldados da Vitória. E Morrison fez isso de uma forma divertida e intrigante: nenhum membro mantinha contato ou conhecia o outro, embora todos tivessem alguma conexão e estivessem enfrentando o mesmo inimigo.

As páginas de J.H. Williams III trazem estrutura bem diferente das HQs  convencionais
(Imagem: Reprodução/DC Comics)

A estética e as experimentações visuais de J.H. Williams III, principal desenhista da maxissérie, são de cair o queixo: sua narrativa extrapola os padrões e cada pedaço da página é minuciosamente pensada para funcionar com todas as ramificações da história, em splash-pages completamente diferentes do que estamos habituados a ler em uma trama de super-heróis.

A leitura tem que ser feita com a revista na mão, porque a própria orientação da página muda — o que inviabiliza a contemplação completa em uma versão digital, por exemplo. E tanto a identidade visual quanto o requinte nos desenhos seguem nos traços de Simone Bianchi, Ryan Sook, Doug Mahnke, entre outros que participaram do projeto.

A sofisticação estética da maxissérie chama bastante a atenção, aqui com desenho de Simone Bianchi
(Imagem: Reprodução/DC Comics)

Essa proposta nada convencional e a arte sofisticada se encontrou com elementos da Era de Ouro e valorizou toda origem misteriosa e intrigante que sempre fez parte dos personagens da DC Comics. Embora tenha recebido aprovação unânime da crítica e dos leitores, Sete Soldados até hoje não foi lido por muita gente, dada a complexidade das referências e da densa trama, que se divide em várias edições.

Participação em Stargirl

E tudo isso nos leva a este ano, ao seriado Stargirl, que remonta muito dos elementos da Era de Ouro dos quadrinhos na visão de uma nova geração de heróis. Os Sete Soldados da Vitória são citados recorrentemente na atração da CW, assim como a Sociedade da Justiça. Aliás, o próprio Faixa (ou Pat Dugan), interpretado por Luke Wilson, é um dos protagonistas da série, ao lado da jovem versão de Sideral (ou Starman).

E Stargirl vai além das referências: o Cavaleiro Brilhante aparece ao longo da aventura e Starman também está presente. Ou seja, é o produtor-executivo Geoff Johns, fã assumido da Era de Ouro, trazendo de volta os Sete Soldados da Vitória para uma audiência que talvez nunca tenha ouvido falar deles. Em outra série, DC's Legends of Tomorrow, vemos uma pouco da "salada de tons" dos Sete Soldados da Vitória em capítulos que mudam de estilo de acordo com o tema da semana.

Os Sete Soldados da Vitória são citados com frequência em Stargirl
(Imagem: Reprodução/CW)

E agora? Bem, a equipe continua aparecendo de vez em quando em especiais e, após esse retorno em Stargirl, pode ser que volte a ter algumas aventuras no Universo DC. E, mesmo que voltem a ser esquecidos novamente, os Sete Soldados da Vitória já realizaram seu trabalho: ajudaram a revolucionar a narrativa dos quadrinhos e são referências de heroísmo para uma nova geração de divertidos superseres com roupas colantes.

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