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Batman Day | 5 fases que definem os 84 anos do herói mais complexo das HQs

Por| 17 de Setembro de 2023 às 07h00

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DC Comics
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No começo, o milionário almofadinha Bruce Wayne deixava para trás seu cachimbo pedante, as pantufas e poltrona de bon vivant para caçar bandidos baixa-renda nas ruas fétidas de Gotham. Nem mesmo em seus sonhos mais profundos, os criadores Bob Kane e Bill Finger poderiam imaginar que aquela figura estranha com uma máscara desbeiçada com orelhas desengonçadas se tornaria em um herói tão complexo, tão falível, sempre à beira da morte; quanto poderoso, como o único mortal que conseguiu derrotar vários deuses.

Assim como tudo na cultura e no entretenimento que nasceu nos Estados Unidos, Batman e suas aventuras refletiam desejos, medos e discussões das comunidades de metrópoles mais relevantes e problemáticas. E suas HQs seguiram o fluxo natural dos produtos que acompanham o progresso mundial da humanidade e o desenvolvimento da sociedade

Acompanhe abaixo como essas cinco camadas montadas pelo Canaltech podem explicar — bem resumidamente — o que mudou a trajetória do Homem-Morcego de forma contundente nos 84 anos de suas duas principais revistas: quase 1.050 edições de Detective Comics e mais de 900 números de Batman. O Batman Day, que destacou essa marca, acontece no dia 16 de setembro.

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1. Batman vigilante da Era de Ouro

Se você ler novamente as primeiras edições de Detective Comics, no começo da Era de Ouro dos Quadrinhos, em 1939, provavelmente vai achar que Bruce Wayne não passa de um riquinho enxerido que acha que pode fazer o que quiser só porque se veste com um uniforme bizarro e cafona.

Na época, ele se metia nas investigações policiais sem ser convidado, vivia dando pitacos, matava e usava armas, enfim, estava pouco se lixando para os outros para fazer o que achava ser justiça. Veja bem, antes de reclamar dessa definição, dê uma olhada em como eram as lideranças nos Estados Unidos, que, mesmo quase na metade do século XX, ainda estavam presas a padrões do século XIX.

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“Mas o que era legal então?” Bem, Batman herdou o clima de mistério e seu comportamento investigativo de Sherlock Holmes, e representava o desejo da sociedade norte-americana: de ser um homem bonito, abastado, atlético e tão influente que seria capaz de quebrar regras e convenções sociais sem ter que pedir licença.

Só que isso mudaria bastante, especialmente em momentos catalisados pela constante revisão da morte de seus pais, que representa o trauma que o levou a reposicionar sua bússola moral ao longo das décadas.

2. Batman herói mudo e nervosinho

Já perto dos anos 1970, a presença de Robin, de Alfred e novos vilões, obrigaram Batman a mudar radicalmente seu comportamento, afinal, ele precisava de apoio para explicar como conseguiu vencer tantos oponentes poderosos sendo “apenas” um humano. Bruce também parou de matar e usar armas, precisava lidar com uma criança que era colocada em perigo, pois vários críticos começaram a questionar isso e o fato de um adulto ficar zanzando aí com um moleque de tanguinha verde.

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Nessa época, a morte de seus pais ganhou vários detalhes sórdidos, como a conexão da mãe do assassino com a criação de Bruce Wayne, e aspectos sombrios em torno desse evento. Isso serviu para “justificar” a mudança daquele milionário enxerido para uma criança traumatizada que só conseguia se sentir adulto vingando diariamente seus entes queridos.

Era um Batman mais calado e impiedoso, que mesmo sem tirar vidas, tinha tolerância zero com os criminosos — veja bem, Gotham City é uma mistura da Chicago da Lei Seca de 1930 com a Nova York dos anos 1970, e Bruce refletia o que a sociedade caracterizava como herói: alguém que resolve as coisas, com fins justificando meios.

Vale destacar que, nessa época era comum os escritores usaram o aposentado recurso de narrativa de balões de pensamento, que basicamente deixavam os personagens quase sem conversa entre eles para "explicar" para o leitor qual seriam suas análises, planos e conclusões.

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Somente em meados dos anos 1980 é que Batman — Ano Um mostrou como Bruce conseguiu transformar vingança em justiça e deixou de ser um benfeitor mais parecido com um vigilante para ser um verdadeiro herói.

3. Batman sombrio, ainda mais calado e de saco cheio

Eis que Batman: O Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller, projetou uma faceta nunca vista de Bruce Wayne: um velho solitário, amargo, castigado e desiludido. Embora a visão extrema do herói aposentado que volta para a rua “consertando” as pessoas montado em um cavalo possa exalar um odor protofascista, a trama foi muito bem construída, com um Bruce Wayne que, mesmo apanhando mais que na juventude, aprende mais rápido com os erros e contra-ataca de maneira infalível e brutal.

Essa visão sombria, decadente, impiedosa e genial deu ao Batman seu único superpoder: a partir de Miller, a inteligência de Bruce Wayne se tornou quase um superpoder, pois ele deixou de transitar entre as capturas de ladrões de galinha e vilões perigosos e perturbados de Gotham City para ser uma das armas mais letais e silenciosas da Liga da Justiça.

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A partir daí, Batman passou quase 30 anos com esse aspecto carrancudo, violento, excessivamente soturno e cínico. Foram várias as histórias em que ele tretou com os próprios integrantes da Liga da Justiça e praticamente abandonou as crianças órfãs que adotou — tem uma temporada de Batman Animated que ele custa a abrir a boca para dizer “sim” ou “não” para o Robin.

Para completar, a fase de Grant Morrison em meados de 2006 jogou o Homem-Morcego em cenários ainda mais perturbadores e bizarros, trazendo sua “persona reboot” Batman de Zur-En-Arrh para dentro de sua mente e sugerindo que Bruce era, na verdade, filho de Alfred, que teria engravidado Martha Wayne em uma das festinhas regadas a drogas e orgias de Thomas Wayne.

4. Batman “família disfuncional”, porém “família”

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Já perto dos anos 2010, Scott Snyder aos poucos foi demolindo a imagem de que Batman, na verdade, é o oposto da mesma moeda do Coringa — que, basicamente, é a mensagem de Alan Moore em Batman — A Piada Mortal. Logo em seu primeiro arco, ele faz questão de verbalizar na boca de Wayne que ele jamais será comparável ao Palhaço do Crime. Suas aventuras ficaram tão divertidas quanto insanas, de uma forma tão intensa que os exageros cósmicos dessa fase tiraram um pouco aquela clássica atmosfera de mistério e investigação noir em becos escuros e ruas perigosas de Gotham City.

Por outro lado, Batman foi se tornando cada vez mais próximo de todos os Robin, inclusive seu filho, Damian Wayne; e também passou a abraçar mais a Batwoman, a Batgirl e diversos outros personagens, que ampliaram consideravelmente o número de aliados do Homem-Morcego.

Já quase no começo dos anos 2020, arcos como os que tornaram Bruce Wayne pobre e persona non grata em Gotham City mostraram que Batman precisa da BatFamília, e, por isso mesmo, passou a interagir mais com todos.

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5. Batman cansado de negar seus danos físicos e psicoemocionais

Eis que chegamos ao atual momento, em que podemos dizer que Bruce Wayne é uma amálgama de todas essas fases anteriores, com um direcionamento mais realista em relação ao fato de ser um humano.

Depois de ser considerado um “deus” na mitologia cósmica da DC, os escritores têm mostrado as consequências de tanto tempo combatendo o crime. A morte dos pais deixou de ser um trauma que justifica seu combate ao crime faz tempo, porque qualquer moleque hoje em dia poderia dizer: “poxa, o cara é rico, por que não paga uma terapia e supera?”

O próprio Batman admitiu que sua obsessão gira em torno do fetiche irresistível de sentir e infligir dor nos bandidos. Além disso, todo o tempo que ele ficou remoendo esses sentimentos ruins e agindo de forma violenta e até suicida e sadomasoquista tem tudo a ver com seus péssimos hábitos: dorme muito pouco, entope-se de remédios, não se alimenta direito e vive transitando pela mente de vilões depravados para antecipar os passos dos inimigos.

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As histórias recentes mostram que Batman começou a sentir um aumento considerável nos danos mentais causados por esse comportamento e suas atitudes ao longo dos anos — veja bem, o Batman de Zur-En-Arrh está atualmente ameaçando tomar conta da mente de Bruce. Para completar, alguns heróis, como o Asa Noturna e Batgirl, já notaram que o Homem-Morcego está mais lento.

Isso tudo e o fato de agora, finalmente, Bruce e Damian atuarem como Batman e Robin e, genuinamente, como pai e filho, ajudam a envelhecer oficialmente um pouco o Homem-Morcego na principal continuidade da DC Comics.

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Enfim, por mais que muitos dos aspectos listados mostrem um amadurecimento um tanto quanto conturbado, eles também tornaram Batman um personagem muito mais rico, complexo e realista. Ele não está mais decadente, menos poderoso ou dramático demais para ser divertido: Bruce Wayne espelha os medos, erros e desejos da humanidade.

E é muito bom ver que o morcego enxerga melhor na escuridão e sempre tem um plano para nos levar até a luz. Vida longa ao Batman!