O que é NFT e como isso está movimentando a internet

Por Alveni Lisboa | Editado por Douglas Ciriaco | 20 de Março de 2021 às 10h00
Reprodução/Consequence of Sound

Depois da revolução causada pelo Blockchain e pelo sucesso do Bitcoin, chegou a vez de outra novidade digital explodir na internet. Trata-se do NFT, uma espécie de "cripto-colecionável" que vem ganhando espaço entre artistas, desenvolvedores de games e outros profissionais que lidam com trabalhos autorais.

Se você nunca ouviu falar sobre NFT, abra sua mente e prepare-se para embarcar em um universo novo. Se você já tem uma ideia do que é, este texto possivelmente vai ampliar seus conhecimentos com as possibilidades de uso do ativo.

Essa tecnologia pode ser usada em transações de ativos digitais incluindo vídeos, jogos e itens colecionáveis. No entanto, é na arte digital que o criptocolecionável está realmente trazendo grandes mudanças.

Talvez você tenha visto algo sobre a venda do meme Nyan Cat, peças de arte da cantora Grimes ou o primeiro tuíte do CEO do Twitter. Essas três coisas têm em comum o fato de terem sido comercializadas via NFT. Mas afinal o que é isso e por que eu deveria pagar por algo que pode ser simplesmente acessado e copiado na internet?

O que é NFT?

Para compreender a lógica, é preciso entender o que é o NFT e por que ele é tão importante atualmente. A sigla significa non-fungible token (em tradução livre, token não fungível) e se trata de um tipo de chave eletrônica criptográfica usada de forma única. O dono de um NFT é proprietário de uma espécie de certificado de propriedade intelectual, o que garante sua autenticidade e unicidade. Em resumo, o NFT é algo que não pode ser trocado, devido suas especificações individuais, ao contrário de outros criptoativos, como Bitcoin, Ethereum e a maioria das criptomoedas. Em razão disso, esses ativos possuem valores indefinidos.

Ativos fungíveis são cambiáveis e não possuem nenhuma exclusividade. Por exemplo: você pode trocar uma nota de R$ 100 por duas de R$ 50 e ainda continuará tendo o mesmo valor. Mas um ingresso para a final da Copa do Mundo de Futebol de 2022 não poderia ser trocado, já que os assentos são marcados, únicos e emitidos para aquele comprador. Este segundo é um típico caso de ativo infungível, ou não fungível, pois não existe a possibilidade de substituição.

A Mona Lisa original, exposta no Museu do Louvre, em Paris, é um exemplo de ativo não fungível (Imagem: Reprodução/Wikipédia)

Para entender melhor, é só traçar um paralelo com o mundo real. Por que quem vai ao museu do Louvre, em Paris, costuma fazer questão de contemplar pessoalmente a obra Mona Lisa?

Quase todos sabem como é o quadro, pois já o viram em livros, na TV ou na internet. A resposta é porque, até a visita ao Louvre, houve contato apenas com a reprodução da arte, cópias que não têm valor físico ou sentimental. Ainda que algum artista refizesse o quadro minuciosamente, com todos os detalhes e técnicas, usando o mesmo tipo de papel, pincel, tinta e moldura, o valor de comercialização não seria nem próximo da obra-prima de Leonardo Da Vinci.

Não é, nem de longe, o quadro mais bonito ou refinado já feito, mas é a única versão produzida pelo artista e nada se compara a ela. E por que ela vale tanto? Porque a sociedade atribui valor inestimável à peça. E é isso que ocorre com o NFT: ele toma emprestado conceitos artísticos para introduzi-los ao ambiente virtual — mas o conceito vai muito além disso.

A parte técnica do NFT

NFTs não são exatamente uma tecnologia nova. O lançamento do primeiro ocorreu em 2012, com a apresentação da Coloured Coins, também conhecida como Bitcoin 2.x, mas a moeda nunca chegou a emplacar. Atualmente, o exemplo mais comum de NFT é o padrão ERC-721, que opera na rede Ethereum, mas também há outros padrões, como o ERC-1155, da Enjin, cuja criação tem como foco o uso em videogames.

Ethereum é a segunda criptomoeda mais famosa do mundo, atrás somente do Bitcoin; para o NFT, contudo, ela é fundamental. Isso porque a chave criptográfica é armazenada no Blockchain Ethereum (ETH), que suporta a gravação de informações extras que diferenciam uma ETH (moeda virtual) de um NFT (ativo único).

A base do NFT é o Blockchain (Imagem: Reprodução/Pixabay)

De forma resumida, o Blockchain permite rastrear a troca de certas informações pela internet, criando uma rede de blocos entre os envolvidos nessa troca. Portanto, qualquer compra ou venda envolvendo NFT ficará registrada em detalhes no Blockchain.

Vale destacar que um NFT não é igual ao outro, tanto no valor quanto nas propriedades do próprio token. Cada token possui um hash digital, um tipo de função que converte letras e números em criptografia, que é diferente em cada padrão adotado. Essa característica permite que os NFTs atuem como uma prova de origem e inviabiliza qualquer tentativa de falsificação.

Por que pagar por um NFT se posso vê-lo de graça?

Certo, você já entendeu o que é o NFT, mas ainda não está muito claro qual a utilidade dele, correto? Por que alguém desembolsaria milhões de dólares em algo que sequer existe no mundo físico?

A não ser que você seja um colecionador de arte ou um entusiasta de criptocolecionáveis, provavelmente jamais comprará um NFT. Para pessoas comuns, isso está distante da realidade ou ambição, uma vez que a arte ou o item está literalmente a um clique de distância para ser visualizado ou replicado em seu computador, celular ou qualquer outro dispositivo digital.

Em sites como o Rarible, é possível encontrar GIFs e JPGs por milhares de dólares (Imagem: Reprodução/Rarible)

No entanto, para o mundo do comércio de artes, ter o NFT de uma obra representa ter a propriedade sobre aquela peça. E isso dá o direito de você fazer o que quiser com ela, sem que o criador opine ou questione. Além disso, existe a possibilidade de se ganhar (muito) dinheiro com a valorização da arte ou a explosão da popularidade do artista. Um NFT comprado hoje por poucos centavos pode ser vendido em algumas semanas por alguns milhões de dólares.

Finalidade e usos do NFT

Os tokens estão sendo desenvolvidos em diversas indústrias. As primeiras aplicações se espalham pelo setor de jogos, artes e colecionáveis. Já há relatos, contudo, de empregos no segmento de realidade virtual e aumentada, imóveis, venda de ingressos para eventos, licenciamento de marcas e transformação de dinheiro físico.

Voltando ao caso do Nyan Cat, o GIF foi leiloado por Chris Torres e arrecadou 300 ETH, o que equivale a cerca de US$ 600 mil. Como algo criado há mais de 10 anos e reproduzido incontáveis vezes pode ser vendido a um preço tão alto?

Lembra do Nyan Cat? (Imagem: Reprodução)

Primeiramente, porque ele foi um meme estourado em todo o mundo. Todos com certa familiaridade à cena digital na última década já ouviram falar e provavelmente o reproduziram em alguma ocasião. Só isso já gera um valor imenso sobre a "obra de arte".

O segundo critério é porque ele tem um caráter único: só existe um arquivo original do Nyan Cat no planeta. Todos os outros, inclusive este que foi usado nesta matéria, são réplicas sem valor comercial. O NFT contendo o Nyan Cat agora não pertence mais a Torres e, sim, ao colecionador que o comprou. A não ser que esteja especificado em contrato, o novo dono pode até explorar comercialmente o meme, lucrando em cima do valor de aquisição.

Aplicação na música

Outro uso que tende a se popularizar é na indústria fonográfica. A banda Kings of Leon lançou um novo álbum que incluía versões em NFT com certos benefícios exclusivos como localização privilegiada nos shows ao vivo, álbum especial e artes diferenciadas. Os tokens ficariam à venda por duas semanas e depois se tornariam itens colecionáveis, que podem ser negociados por seus proprietários.

A banda abriu caminho para outros artistas seguirem neste rumo (Imagem: Divulgação/Kings of Leon)

Qualquer pessoa pode ouvir os sucessos da banda, mas somente os compradores terão os arquivos originais. É claro que neste caso estamos falando de valores bem menores do que obras de arte, mas que ainda assim podem se tornar itens valiosos no futuro.

A tecnologia não vai acabar com a pirataria, mas pode ajudar a resgatar um setor em crise desde a popularização dos arquivos MP3. As pessoas poderão continuar baixando músicas ou as escutando em serviços de streaming, mas os verdadeiros fãs poderão desembolsar uma grana para serem reconhecidos pelo seu artista favorito e apoiar os esforços dele. Para quem pensa que isso não existe, a Twitch está aí para provar o contrário…

Games e itens exclusivos

No mundo dos jogos virtuais, o NFT possui espaço gigantesco de crescimento. Com ele, é possível proporcionar itens exclusivos dentro dos jogos, os chamados colecionáveis digitais. Hoje esse conceito é usado para qualquer item escondido pelo game, mas isso pode ser ainda mais refinado.

 Cada gatinho possui características únicas que podem valorizar o seu bichano virtual (Imagem: Reprodução/Cryptokitties)

Um exemplo é o game Cryptokitties, talvez o mais famoso em Blockchain do mundo. O objetivo é coletar gatinhos com genomas digitais únicos que definem sua aparência e características. Os jogadores podem criar seus próprios bichanos e até colocá-los para cruzar, dando origem a um novo e exclusivo personagem.

Essa lógica seria perfeita para jogos como Pokémon ou para card games nos quais teríamos cartas com artes exclusivas ou efeitos especiais. Pense no estrago financeiro que a Eletrônic Arts poderia fazer no bolso dos jogadores ao usar essa tecnologia para criar cartas exclusivas de jogadores virtuais para o FIFA?

Comercialização de raridades

Quando se fala em raridades, as pessoas podem pensar logo naquela ida ao antiquário, em lojas empoeiradas e cheias de coisas das décadas passadas, mas a verdade é que quase tudo pode acabar se tornando uma raridade. Imagine quantos aficionados por tecnologia não pagariam alguns milhões de reais pelo código-fonte original do Facebook?

Aconteceu algo similar recentemente com o primeiro tuíte da rede social do passarinho azul: o CEO do Twitter, Jack Dorsey, colocou à venda a primeira postagem que fez na sua plataforma. Mesmo que o post seja apagado ou que a rede deixe de existir, o dono do tuíte ainda o terá para sempre. A maior oferta recebida até agora ultrapassa US$ 2,5 milhões, o que revela o apetite dos colecionadores por peças virtuais.

Assim como a compra do tuíte, é possível que alguém estivesse disposto a pagar pela primeira arte digital que Shigeru Miyamoto tivesse desenvolvido para a Nintendo, por exemplo. Para você, isso pode não significar nada, mas para um admirador do gênio criador de franquias como Super Mario, Donkey Kong e The Legend of Zelda, poderia representar uma mina de ouro.

Vídeos exclusivos

O mesmo pode acontecer com outros tipos de materiais audiovisuais. Um vídeo de ação de dez segundos do astro da NBA LeBron James foi vendido por US$ 208 mil no Top Shot no final de fevereiro. O serviço, lançado em outubro do ano passado, permite comprar e vender videoclipes por preços que variam conforme a raridade.

Já pensou ganhar milhares de dólares por um vídeo de apenas 10 segundos? (Imagem: Reprodução/NBA Top Shot)

Agora, considere a seguinte situação: você está de férias na praia e uma tempestade se aproxima. Com o seu celular, você grava um fenômeno raríssimo da natureza que ninguém até então tinha visto. Quanto este vídeo valeria? Provavelmente, os jornais e sites vão reproduzir suas imagens sem pagar nenhum centavo, mas um colecionador poderia destinar uma boa quantia para ter o material com exclusividade.

Outras vantagens do NFT

A principal vantagem da tecnologia é a garantia da autenticidade, sem que isso implique em gastos extras ou necessidade de uma autoridade reguladora. Contudo, os benefícios de se usar o NFT vão além.

A desburocratização da compra e venda de artigos é o reflexo disso. No modelo tradicional, se você compra um quadro na França, precisa encontrar uma transportadora especializada para trazê-lo em segurança, providenciar toda a papelada de importação e ainda pagar as taxas de importação para a Receita Federal. Com o NFT tudo isso é simplificado, sendo possível estabelecer apenas um acordo direto entre comprador e vendedor.

 É possível embutir o pagamento de royalties no NFT, revertendo parte do dinheiro para o artista (Imagem: Reprodução/Aleksi Räisä)

Uma outra vantagem para os artistas é que eles podem adicionar royalties de forma automática aos contratos digitais firmados na venda dos ativos. Assim, mesmo que o token seja revendido várias vezes depois, o artista continuará recebendo uma parte do dinheiro para sempre.

Entendeu como essa tecnologia é revolucionária? No futuro, os NFTs abrirão as portas para a digitalização de todos os direitos de propriedade intelectual existentes. Mais do que isso, podem trazer fontes de renda extra para outros segmentos.

Grandes marcas, como a Taco Bell, já começam a olhar para essa inovação com elevado potencial de lucro. A empresa de fast food inclusive lançou uma série de GIFs que receberam lances de até US$ 700. As marcas podem usar isso para fidelizar ainda mais seus clientes e admiradores. Já pensou poder conversar por 30 minutos com o CEO da sua empresa favorita?

Essa imagem da Taco Bell hoje está sendo vendida por U$19.634,88 (Imagem: Reprodução/Rarible)

O universo dos NFTs só está engatinhando, mas há um caminho vasto para ser percorrido. Quem estiver por dentro pode sair na dianteira e adentrar em um mercado promissor.

Conhece algum outro uso do NFT que não está neste texto? Use o campo de comentários e compartilhe com a gente.

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