Os impactos da presença humana fixa na Lua e questões éticas a se considerar

Por Patrícia Gnipper | 06 de Junho de 2019 às 07h38
ESA

Estamos testemunhando uma nova Corrida Espacial envolvendo a Lua. Enquanto os Estados Unidos estão empenhados no programa Artemis — que não somente levará novos astronautas para lá em 2024, como também visa a criação de uma estação espacial na órbita lunar para garantir a presença constante de humanos em nosso satélite natural —, a agência espacial europeia ESA, bem como a Roscosmos da Rússia e a CNSA da China, também têm planos similares, prevendo o lançamento de missões não tripuladas, para depois enviar astronautas e então construir bases fixas na Lua.

E para a construção dessas estações e bases fixas, a exploração do terreno lunar se tornará uma realidade. Afinal, é possível extrair recursos naturais da Lua para fornecer materiais de construção, combustível e até mesmo água, eliminando, assim, a necessidade de se enviar esses materiais da Terra para lá. No entanto, é preciso que os envolvidos nessa Corrida Espacial estabeleçam diretrizes para evitar comportamentos antiéticos e predatórios no que diz respeito à exploração lunar.

"Como os humanos interagem com o espaço e os objetos celestes é fundamental para o emergente campo da ética espacial", afirma Evie Kendal, docente de bioética na Universidade Deakin, que está envolvida com o assunto da ética espacial desde 2015 quando ensinou sobre o tema na Universidade de Yale. E ela separou cinco pontos de reflexão sobre considerações éticas para a exploração lunar:

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Questões ligadas ao assentamento de humanos na Lua

Há quem acredite que estabelecer assentamentos humanos na Lua pode ser uma das soluções para diminuir o impacto ambiental da superpopulação na Terra. Contudo, Kendal observa que considerações éticas com relação a assentamentos humanos são frequentemente negligenciadas.

Para ela, tais questões "incluem se os humanos baseados na Lua teriam os mesmos direitos legais e humanos que seus homólogos na Terra". Um exemplo: crianças nascidas na Lua compartilhariam a cidadania de seus pais, ou seriam apátridas na Terra? Kendal entende que é preciso "considerar as complexidades de estabelecer uma governança independente de uma base lunar para promover o desenvolvimento de uma sociedade justa para aqueles que vivem lá".

Pesquisas médicas na Lua

Já têm sido feitos experimentos na Estação Espacial Internacional relacionados à tecnologia de impressão 3D de órgãos em microgravidade. E como a gravidade lunar é um sexto da existente na Terra, pode ser que a Lua se torne um novo laboratório de pesquisas médicas, de repente usando o ambiente lunar para resolver a questão da demora nas filas de transplantes de órgãos aqui na Terra.

Só que, por aqui, há regulamentos rigorosos para pesquisas médicas na maioria dos países, e experimentos feitos na ISS contam com vigilância dos órgãos parceiros. Contudo, ainda não existe um sistema global para revisar se estudos médicos propostos na Lua seriam eticamente aceitáveis.

"Dado que a história da pesquisa médica envolve muitas violações de pessoas na Terra, há motivos significativos para preocupação quando se considera que tipo de pesquisa pode ser realizada fora do planeta, onde o monitoramento será mais difícil", afirma Kendal.

Turismo lunar

Com a iniciativa privada protagonizando uma Corrida Espacial paralela, com muitas dessas empresas também mirando na Lua, é certo que, em um futuro não muito distante, o turismo espacial na Lua será uma realidade. A SpaceX é uma dessas empresas, que inclusive já contou ao mundo sobre seu projeto Dear Moon, que levará um bilionário japonês para dar uma voltinha ao redor do nosso satélite natural na próxima década. E, certamente, o passo seguinte será levar turistas também à superfície.

Neste sentido, estão envolvidas questões relacionadas a coisas como sustentabilidade, preservação do ambiente lunar e também saúde e segurança. As agências espaciais ligadas a governos seguem diretrizes rigorosas e fazem testes exaustivos nos candidatos a astronautas, que devem preencher todos os requisitos físicos e até mesmo psicológicos para serem aprovados. Já a seleção de turistas espaciais não passará por essas mesmas regras, e ainda não está claro quais restrições poderão ser aplicadas a pessoas comuns que quiserem visitar a Lua.

Defesa planetária

É possível que a Lua também acabe se tornando uma base de defesa planetária, contando com sistemas a laser capazes de destruir asteroides e cometas que estiverem em uma trajetória de impacto com a Terra. No entanto, "há questões éticas que precisam ser respondidas em relação a tais sistemas de defesa planetária; precisamos estabelecer quem decidirá o melhor curso de ação em uma emergência de impacto", entende Kendal.

Ela exemplifica: se um asteroide pudesse ser apenas parcialmente desviado, quem decidirá quais áreas do planeta estarão protegidas de qualquer impacto e quais acabarão sendo fatalmente afetadas? E como poderemos regular quem controlará a tecnologia de defesa planetária para garantir que não seja usada como arma de guerra?

A mineração da Lua

A mineração lunar é outra coisa que, assim como o turismo espacial, acontecerá em um futuro próximo. Agora, é preciso levantar questões éticas sobre essa coleta de recursos naturais lunares, pois há preocupações relacionadas à sustentabilidade ambiental e também se é apropriado que empresas de mineração lucrem com a comercialização de recursos naturais provenientes do espaço.

Também há a preocupação relacionada a regulamentos de segurança dos trabalhadores da mineração lunar, para evitar problemas como exploração relacionada a condições de trabalho que, aqui na Terra, seriam consideradas prejudiciais.

E o que poderá ser minerado no solo lunar? Entre outras coisas, os itens abaixo são os mais prováveis de serem minerados por lá:

  • Silício: o material compõe 20% da "sujeira" da Lua, e ele poderá ser minerado e refinado em semicondutores para criar painéis solares capazes de abastecer os postos lunares.
  • Titânio: abundante em algumas regiões da superfície lunar, o titânio forma até 8% da "sujeira" lunar, e se destaca principalmente na ilmenita mineral, que também contém ferro e oxigênio.
  • Alumínio: as áreas mais brancas da superfície da Lua são repletas de alumínio, material leve e resistente usado em muitas aplicações aqui na Terra — o metal está presente em cerca de 10 a 18% do regolito nessas regiões mais claras da Lua.
  • Água: crateras lunares são repletas de gelo, e estima-se que será possível extrair cerca de 2,9 bilhões de toneladas de água para beber e cultivar alimentos. Ainda, ao dividir o hidrogênio do oxigênio da água, também é possível gerar combustível para naves e foguetes.

Fonte: The Conversation, Popular Science

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