ISS está com os dias contados, e empresas privadas podem se beneficiar com isso

Por Patrícia Gnipper | 16 de Fevereiro de 2018 às 19h03
photo_camera Divulgação

O Governo dos Estados Unidos já anunciou que pretende privatizar a Estação Espacial Internacional (ISS), cortando, também, parte da verba estatal destinada ao projeto. E, com o fim da ISS, empresas privadas que atuam na exploração do espaço serão beneficiadas, podendo dominar, de vez, a órbita terrestre baixa (região ao redor do nosso planeta que acomoda objetos abaixo de 2.000 km).

O corte no orçamento governamental acontecerá até 2025, sendo que a ISS deve permanecer em funcionamento pelo menos até 2028. Mas a falta de investimentos não significa que a Estação ficará abandonada até lá: a NASA pretende fazer a transição do domínio da região onde está a ISS para a indústria espacial privada, trabalhando em conjunto.

Isso significa que empresas privadas acabarão assumindo parte do gerenciamento da ISS, o que é bastante caro, pois, atualmente, a NASA gasta entre 3 e 4 bilhões de dólares anualmente para manter o projeto funcionando. E essa grana é grande demais para que somente uma empresa privada assuma os gastos, sendo necessário que outras companhias se juntem para viabilizar a coisa. Além disso, a ISS existe para que astronautas façam, ali, pesquisas e experimentos no espaço, e o setor privado pode não ter recursos para controlar essa mão-de-obra.

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O que deve acontecer

O cenário mais provável de se mostrar verdadeiro é o seguinte: empresas privadas podem começar a operar parte da ISS até seu encerramento, enviando ao espaço, depois, veículos menores, menos dispendiosos e menos complexos do que a Estação, mas ainda permitindo o acesso à NASA e demais agências espaciais para que elas continuem realizando estudos por lá.

Astronauta durante spacewalk na ISS (Foto: NASA)

Isso porque a órbita baixa da Terra é um espaço ideal para a realização de testes no espaço, especialmente com a proximidade das missões que voltarão a explorar a Lua, além de Marte. Com pequenas estações privadas, a NASA pode economizar tempo e dinheiro fazendo testes em microgravidade. Ainda, as estações espaciais privadas podem servir para obtenção de receitas, onde possivelmente poderão fabricar satélites no espaço, ou criando plataformas turísticas.

Resta saber, agora, se a iniciativa privada está preparada para assumir esse "fardo" em um período tão curto de tempo. Algumas dessas empresas já vêm trabalhando no desenvolvimento de habitats espaciais próprios, mas se a ISS encerrar sua operação antes que isso aconteça, avanços científicos significativos precisarão ser adiados.

Quais são essas empresas

A SpaceX ainda não tem um projeto de habitat espacial, focando-se nos foguetes Falcon Heavy, BFR e na cápsula Crew Dragon, com o Planeta Vermelho em mente. Mas quem já vem trabalhando em uma estação espacial própria é a Bigelow Aerospace.

Segundo Robert Bigelow, fundador e CEO da companhia, "a ideia de o governo [dos EUA] abandonar a ISS sem lugar para ir depois é simplesmente uma loucura". E justamente por isso, o presidente Donald Trump decidiu destinar US$ 150 milhões à NASA para que a agência faça a transição da iSS para o setor privado.

A Bigelow é justamente especializada na criação de habitats espaciais infláveis, com um protótipo chamado BEAM que foi anexado com sucesso à ISS em 2016. A companhia também tem planos de lançar seu habitat autônomo (o B330) até o ano de 2021, mas, enquanto isso, outras empresas, como a NanoRacks e a Axiom, também vêm desenvolvendo seus próprios projetos similares.

Arte mostra como pode ser, por dentro, o habitat B330 (Imagem: Bigelow Aerospace)

E se essas iniciativas se mostrarem bem-sucedidas, a NASA possivelmente irá querer acessar essas estações privadas, até porque parte de seu desenvolvimento contará com o financiamento da agência, liberado por Trump. A NASA poderia alugar partes dessas estações privadas para seus próprios astronautas, e outras agências espaciais, de outros países, podem vir a fazer o mesmo. Dessa maneira, a ciência não será prejudicada com o fim da ISS, apenas contando com companhias privadas para viabilizar novos estudos e experimentos no espaço. Ainda, sem precisar se preocupar em gerenciar a ISS, a agência dos EUA pode concentrar seus esforços (e dinheiro) nas missões que levarão o homem à Marte, bem como as demais que estudarão outros objetos do Sistema Solar no futuro próximo.

Turismo espacial à vista

Conforme mencionamos acima, o turismo espacial pode ser uma das saídas para que as empresas espaciais privadas consigam monetizar suas estações espaciais autônomas. A Bigelow já se mostrou aberta à ideia, criando hotéis espaciais. "E se você tivesse um bom e luxuoso quarto, de onde poderia ver a Terra o tempo todo?", instiga o CEO da empresa. "Este é um mercado, e não é algo em que o governo deva se envolver, sendo apropriado para o setor privado", opina.

Vale lembrar que a empresa russa Energia, que fabrica mísseis e aeronaves, já declarou que pretende levar turistas ao espaço já em 2019, cobrando nada menos do que US$ 100 milhões por viagem. Cada viajante ficará hospedado em cabines confortáveis, equipadas com banheiros e Wi-Fi, com duração total de 10 dias.

Outra empresa privada que está de olho no turismo espacial é a Virgin Galactic, que, em 2012, tentou lançar o projeto para o ano seguinte, o que acabou não acontecendo. Mas a empresa não desistiu: a norte-americana já realizou, com êxito, o primeiro teste com sua VSS Unity, nave projetada justamente para transportar pessoas ao redor da Terra.

VSS Unity, da Virgin Galactic (Foto: Richard Seymour)

A nave acomoda seis turistas e dois pilotos simultaneamente e, segundo Richard Branson, fundador da Virgin Galactic, a ideia é começar seu programa de turismo espacial até o final de 2018, sendo que pelo menos 600 pessoas já fizeram suas reservas para a viagem inaugural. Cada passagem custará US$ 250 mil.

O fim da ISS

Lembra que falamos que as verbas para a manutenção da Estação Espacial Internacional serão reduzidas até 2025, sendo que a ISS é capaz de operar até 2028? Pois então, a partir deste ano, muitos dos componentes necessários para o funcionamento da ISS começarão a atingir o fim de suas vidas úteis. Isso porque grande parte dessa tecnologia foi construída nos anos 1980 e 1990, e, após 2028, para que a ISS se mantenha operacional, seria necessária uma reposição massiva de componentes.

Portanto, é essencial que o governo dos Estados Unidos, junto à NASA e às empresas privadas, consigam estabelecer um plano para o futuro das operações na órbita terrestre baixa, para que tudo o que vem sendo feito na ISS não chegue ao fim, sendo, apenas, transferido para as estações paralelas. E esse plano deve ser feito em caráter emergencial, pois o prazo é curto e o dinheiro não está dando em árvore.

Vale lembrar que, em 2011, quando a NASA cancelou o programa do ônibus espacial, a agência abriu as portas para o setor privado desenvolver naves substitutas, levando equipamentos e astronautas à ISS. Mas já estamos em 2018 e, até então, a SpaceX junto à Boeing somente conseguem enviar suprimentos em missões não tripuladas, com a NASA dependendo da agência espacial russa (a Roscosmos) para garantir esse transporte humano. E todos conhecemos a antiga e duradoura rivalidade entre Estados Unidos e Rússia, ainda que ambas as nações venham colaborando de maneira amigável no que diz respeito à ISS.

Fonte: The Verge, Sputnik News

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