Como a vida teria chegado a Vênus? E quanta vida seria responsável pela fosfina?

Por Patrícia Gnipper | 29 de Setembro de 2020 às 19h30
NASA/JPL-Caltech

A detecção de fosfina na atmosfera superior de Vênus acendeu o debate quanto às possibilidades de haver algum tipo de vida produzindo essa substância por lá — ou não, de repente a fosfina pode ser resultado de processos físicos e químicos não esperados em planetas rochosos. A partir daí, surgem outros questionamentos: considerando que a fosfina venusiana tenha mesmo origem biológica, como essa vida teria chegado e prosperado no "planeta infernal"? Quanta vida seria responsável pela quantidade de fosfina encontrada por lá? E o que a comunidade científica está pensando sobre tudo isso?

É isso o que você descobre nesta matéria, em que destrinchamos ainda melhor a questão da possibilidade de haver Vida em Vênus — lembrando que ainda é cedo demais para dizer que a fosfina venusiana é mesmo uma bioassinatura, ou seja, que está sendo produzida por seres vivos.

Como a suposta vida produtora de fosfina teria chegado a Vênus?

Vênus é, hoje, um "planeta infernal" (Imagem: Reprodução/NASA)

Em seu artigo publicado na Nature, em que os autores da pesquisa anunciaram a descoberta de fosfina na atmosfera de Vênus, os cientistas não conseguiram explicar, de fato, como a fosfina chegou até lá. Eles exploraram diversas possibilidades, incluindo a ação de relâmpagos, vulcões e até mesmo impactos de rochas espaciais, mas cada possibilidade dessa, devidamente modelada em computadores, não foi capaz de resultar na quantidade de fosfina detectada.

Então, apesar de isso não significar que a fosfina venusiana só pode ter sido produzida por seres vivos, é preciso pensar em como uma suposta vida teria chegado até lá, já que a vida como a conhecemos (ou seja, a vida da Terra), precisa de condições específicas que, em Vênus, não existem. Por aqui, precisamos de: água líquida (para dissolver as moléculas necessárias à vida), temperaturas amenas, moléculas orgânicas específicas (e um processo para concentrar esses orgânicos, como, por exemplo, a interação com metais residuais), fontes de energia e um ambiente natural com condições capazes de criar uma complexidade química.

Mas, em Vênus, não há água líquida na superfície e as temperaturas ali são superiores a 400 °C — sendo que isso destrói a maioria das moléculas orgânicas complexas, tornando impossível a formação da vida baseada em carbono. Aí podemos pensar que as temperaturas da atmosfera superior do planeta são mais amenas, análogas às da superfície da Terra e baixas o suficiente para a formação de gotículas de água. Então a vida poderia existir, na verdade, nessa camada da atmosfera venusiana?

Não temos a reposta ainda. Ali, há nuvens de ácido sulfúrico que destruiriam qualquer molécula orgânica não protegida por uma célula — ou seja, moléculas como o DNA seriam rapidamente destruídas, enquanto algumas bactérias seriam capazes de sobreviver em ambientes extremamente ácidos. Mas essas bactérias teriam que ter chegado a Vênus de alguma forma, uma vez que não seriam capazes de "nascer" por lá — isto é, considerando o processo de formação da vida como a da Terra, claro.

Vênus parece já ter sido parecido com a Terra (Imagem: Reprodução/ESA)

Mas e quanto ao passado possivelmente habitável de Vênus? Há muitos indícios de que o atual "planeta infernal" já foi parecido com a Terra, mas sofreu uma catástrofe climática que ocasionou o descontrolado efeito estufa que, hoje, vemos ali. A vida poderia ter se formado na superfície do planeta quando suas condições eram favoráveis a isso, com Vênus abrigando lagos (e até mesmo oceanos) de água líquida e temperaturas amenas. E, se a vida surgiu em Vênus naquela época, em teoria ela poderia ter evoluído e se adaptado para se espalhar pelas nuvens, sobrevivendo à mudança climática da superfície que ferveu e destruiu os oceanos venusianos.

Outra possibilidade seria a de a vida da Terra ter chegado a Vênus por meio de impactos de objetos espaciais. Quando asteroides, por exemplo, colidem com um planeta, eles podem liberar rochas de tal planeta ao espaço com o impacto, e essas rochas podem, eventualmente, se cruzar com a órbita de outros planetas, chocando-se contra eles. Se seres vivos microbianos estiverem presos a essas rochas, eles poderiam ser levados a outros mundos. Isso está relacionado à hipótese da panspermia, que ainda é bastante controversa, pois ainda não temos a comprovação de que a vida é mesmo capaz de sobreviver (e ainda se reproduzir) depois de ser exposta ao ambiente espacial por tanto tempo. Mas assim como a panspermia não foi comprovada, ela também não foi invalidada — ou seja, essa é uma ideia que cabe, aqui, como especulação válida.

Por fim, outra possibilidade — ainda mais estranha — seria a de que a vida de Vênus teria se formado por meio de processos diferentes dos terrestres; ou seja, seria diferente da vida como a conhecemos. Essas formas de vida possivelmente não seriam baseadas em carbono, já que, conforme explicado acima, essas moléculas complexas seriam destruídas em temperaturas extremas. E, ainda que a vida baseada em carbono seja a produtora de fosfina aqui na Terra, não se pode afirmar que apenas a vida baseada em carbono é capaz de produzir fosfina, já que, obviamente, não conhecemos outro tipo de vida além desta.

Quanta vida seria responsável pela fosfina em Vênus?

A fosfina foi detectada na atmosfera de Vênus em uma concentração de 20 partes por bilhão. Então, os cientistas Mansavi Lingam e Abraham Loeb lançaram um estudo, ainda não revisado por pares, para prever quanta vida seria preciso existir por lá para produzir essa proporção de fosfina. Para isso, eles contaram com modelos anteriores que fizeram uma análise da biomassa necessária para determinar o quão plausível é que um gás considerado bioassinatura seja, de fato, o subproduto de seres vivos, e não de processos físicos ou químicos.

"Descobrimos que as densidades de biomassa típicas previstas por nosso modelo simples são várias ordens de magnitude menores do que a densidade de biomassa média da biosfera aérea da Terra", eles concluíram. Isso significa que muito menos vida teria que existir nas nuvens de Vênus para gerar a quantidade de fosfina que acabamos de detectar por lá, em comparação com a quantidade de vida que deve existir na Terra para produzir os mesmos níveis de fosfina.

(Imagem: Reprodução/ESO/M. Kornmesser/L. Calçada/NASA JPL/Caltech)

Agora vamos lembrar que, nos anos 1960, Carl Sagan já especulava que poderia existir vida nas nuvens de Vênus e, no ano passado, um novo estudo trouxe essa ideia à tona mais uma vez, sugerindo que formas microbióticas estariam não apenas vivendo nas nuvens de Vênus, como também alterando a sua atmosfera. Esses micróbios poderiam existir dentro de gotículas nas camadas superiores da atmosfera, levando em conta que a água líquida seja fundamental para a existência de vida.

O problema com esta ideia é que, à medida que as gotículas da atmosfera superior vão crescendo, elas precipitam para altitudes mais baixas, chegando a regiões com temperaturas destrutivas. Isso significaria que tais micróbios seriam desidratados no processo, sendo, depois, elevados mais uma vez por meio da ação dos ventos, então voltando às altitudes mais elevadas e, consequentemente, a temperaturas mais amigáveis. A partir daí, eles seriam reidratados e "morariam" em novas gotículas de água. E seria apenas nesses momentos em que estariam hidratados e vivendo na parte superior da atmosfera que tais micróbios poderiam produzir a fosfina.

E como seria preciso uma menor quantidade de vida em Vênus para produzir a quantidade detectada de fosfina (ao menos de acordo com o estudo de Lingam e Loeb), essa é uma ideia que parece fazer sentido, ainda que, obviamente, sejam necessários outros estudos para tentar comprová-la ou refutá-la, incluindo missões presenciais com sondas enviadas à atmosfera de Vênus — algo que acontecerá nos próximos anos. A NASA tem na mesa a missão VERITAS, por exemplo, enquanto a empresa privada Rocket Lab deve enviar uma missão científica própria já em 2023. Mas, antes disso, a agência espacial europeia ESA vai aproveitar o sobrevoo de sua nave BepiColombo por Vênus para tentar estudar a fosfina encontrada ali, o que vai acontecer já em outubro deste ano.

Controvérsias no meio científico

"Alegações extraordinárias exigem evidências extraordinárias", já disse o mesmo Carl Sagan citado anteriormente nesta matéria. Seguindo essa linha de pensamento mais cética, há cientistas que estão questionando as hipóteses de existir vida em Vênus produzindo fosfina por lá, bem como outros que questionam até mesmo a presença de fosfina, apontando possíveis erros no estudo original que anunciou essa descoberta.

"Obviamente, se [o estudo] estiver correto é um resultado extremamente legal e potencialmente tem implicações profundas. Mas grandes afirmações exigem grandes evidências", disse John Carpenter, cientista do observatório Atacama Large Millimeter / Submillimetre Array (ALMA), no Chile, sugerindo que as evidências de possível vida em Vênus ainda não seriam tão grandes assim, por enquanto.

Quanto a quem questiona a própria descoberta de fosfina, levantando a bola de que o estudo poderia estar incorreto, é o seguinte: as observações da equipe contêm uma boa quantidade de ruído, que poderia simplesmente estar "imitando" um sinal característico da fosfina — e Carpenter também pensa por aí, apoiado por Michael Way, cientista do Instituto Goddard de Estudos Espaciais, na NASA. "Mais linhas são necessárias para verificar se é essa molécula em particular. Neste ponto, não está 100% claro exatamente o que eles mediram", disse Way ao LiveScience.

Bom, no momento, a única coisa realmente certa é a seguinte: Vênus passa a receber muito mais atenção na busca por vida fora da Terra a partir de agora. Mas é provável que a ciência demore um tanto para descobrir o que está acontecendo por lá. "Espere muitos artigos interessantes, muitos errados e muitos corretos nos próximos meses", prevê Way.

*Com informações de Universe Today, Phys.org e Space.com

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