Supostas formas de vida microbióticas estariam alterando a atmosfera de Vênus

Por Daniele Cavalcante | 05 de Setembro de 2019 às 14h21

Em 1967, Carl Sagan propôs que talvez existisse vida em Vênus. Não é uma hipótese muito popular na comunidade científica, já que os principais candidatos a abrigar organismos no Sistema Solar são algumas Luas de Saturno e Júpiter, e até mesmo Plutão. Vênus é quente e hostil demais para haver vida como a conhecemos em sua superfície, mas e se estivermos olhando para o lugar errado? Um novo estudo sugere que formas microbióticas estariam não apenas vivendo nas nuvens de Vênus, como também alterando a sua atmosfera.

As nuvens venusianas têm algumas manchas escuras muito estranhas, detectadas pela primeira vez pelos astrônomos há quase um século. Elas absorvem a radiação ultravioleta e alguma luz visível do Sol, o que causa efeitos profundos no clima do planeta. Além disso, elas também mostram vestígios de ácido sulfúrico concentrado e outras partículas desconhecidas que absorvem luz.

Pesquisadores ainda não sabem exatamente o que seriam essas partículas e, embora existam algumas sugestões, “nenhuma é capaz de explicar satisfatoriamente as propriedades de formação e absorção”, disse Yeon Joo Lee, o autor sênior do estudo publicado no The Astronomical Journal. Ao lado de Sanjay Limaye, co-autor da pesquisa, ele sugere que tais manchas poderiam ser algum tipo de microorganismo que está alterando as condições climáticas do nosso planeta vizinho.

Imagem de Vênus visto pela sonta japonesa Akatsuki Orbiter (Imagem: Institute of Space and Astronautical Science/Japan Aerospace Exploration Agency)

De acordo com os autores, as tais partículas que formam essas manchas têm aproximadamente o mesmo tamanho dos microorganismos na atmosfera da Terra, e também possuem as mesmas propriedades de absorção de luz. Essa ideia não é exatamente uma novidade, já que o próprio Limaye publicou um estudo em 2018 sugerindo essa mesma possibilidade. Ele explica que, da mesma forma que alguns micróbios da Terra são capazes de se alimentar de dióxido de carbono e produzir ácido sulfúrico — condições parecidas com as nuvens de Vênus —, é possível que conglomerados maciços de microrganismos semelhantes possam formar as manchas escuras de Vênus.

Agora, no novo estudo, os pesquisadores afirmam que isso estaria afetando a atmosfera venusiana. Lee e seus colegas observaram as nuvens de lá usando instrumentos como a sonda Akatsuki do Japão e a Venus Express da Agência Espacial Europeia (ESA), para ver como elas mudam ao longo do tempo. Em um período de aproximadamente dez anos (contando a partir de 2006), a quantidade de luz ultravioleta refletida foi reduzida pela metade e depois voltou ao seu nível original. Isso significa que muito mais radiação solar foi absorvida em alguns pontos do que em outros, o que afetou o clima — especialmente na atmosfera superior.

Uma possível história da vida em Vênus

Mas como esses micróbios se formaram? E como foram parar nas nuvens venusianas? Isso pode ser explicado através das teorias sobre a antiga habitalidade de Vênus. Acontece que, provavelmente, o nosso “vizinho infernal”, que é o planeta mais quente do Sistema Solar, nem sempre foi assim tão hostil. Há indícios fortes de que o planeta já teve uma atmosfera bem mais fria, oceanos líquidos em sua superfície e um clima habitável por mais de 2 bilhões de anos. Ou seja: Vênus já pode ter sido lar de algumas criaturas, há muito tempo.

Porém, toda a forma de vida teria sido eliminada devido a um efeito descontrolado dos gases de efeito estufa, de acordo com uma das teorias sobre o assunto. Assim, toda a água evaporou na atmosfera, o que aumentou ainda mais o aquecimento.

Imagine, no entanto, que durante o período habitável de Vênus alguma vida de fato se desenvolveu. As formas de vida, grandes e pequenas, teriam sido eliminadas, exceto microorganismos capazes de sobreviver nas nuvens do planeta, absorvendo luz. Eles teriam subido até lá junto com a água que evaporou, e por lá permaneceram e prosperaram, até hoje, segundo o estudo do momento.

Ainda é muito cedo para qualquer confirmação sobre a vida nas nuvens venusianas, mas o novo estudo pode despertar interesse em mais cientistas, o que pode nos revelar novas descobertas sobre o clima em nosso próprio planeta, inclusive. E estudos do tipo também colaboram para que haja ainda mais interesse de enviar sondas para investigar melhor nosso vizinho — como pode ser o caso da missão HAVOC, que a NASA deseja enviar ao "planeta infernal" no futuro. Seria bastante curioso se a primeira confirmação de vida fora da Terra se desse justamente em Vênus, o mundo mais hostil do nosso Sistema Solar.

Fonte: W News

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