Por que o tempo fica mais lento em estados alterados de consciência?
Por Lillian Sibila Dala Costa |

Como até mesmo Einstein dizia — e não é uma citação falsa de Facebook —, o tempo passa diferente em cada situação. Quando estamos viajando para lugares desconhecidos, por exemplo, o tempo parece passar mais devagar, assim como em momentos de tédio ou dor. Quando estamos absortos em algo, por exemplo, praticando esportes, jogando ou dançando, ele passa mais rápido.
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Muitas pessoas também relatam sentir o tempo passando mais rápido à medida que envelhecem. Essas percepções, no entanto, são leves, e cientistas notaram algo chamado “experiências de expansão de tempo” (EET), nas quais o tempo de segundo parece durar minutos. Elas costumam acontecer em momentos críticos, como em um acidente de carro, ou durante experiências psicodélicas.
Tempo e sua percepção
A ciência não possui um consenso sobre os mistérios da percepção do tempo, mas, em geral, considera-se que variações leves nessa noção temporal estão ligadas ao processamento de informações. Quanto mais informação — pensamentos, sensações, percepções — nossa mente tem de processar, mais devagar o tempo parece passar.
É por isso que, para crianças, o tempo passa mais devagar: seu mundo é feito de novidades. Ambientes novos esticam o tempo por conta de sua pouca familiaridade. Já a absorção em atividades contrairia o tempo porque nossa atenção fica bastante direcionada e a mente se aquieta, com poucos pensamentos surgindo, deixando o tempo passar mais rápido.
O tédio, pelo contrário, faria a mente sem foco processar muitos pensamentos, levando a uma passagem mais devagar. Já nas EETs, comuns em acidentes e emergências, o tempo ganha várias ordens de magnitude.
O cientista Steve Taylor, da Universidade de Leeds Beckett, estuda essas ocorrências, e descobriu que até 85% das pessoas tiveram pelo menos uma dessas experiências de expansão temporal. Cerca de metade delas ocorreu em situações emergenciais, surpreendendo o paciente com a quantidade de tempo disponível para agir.
Tais experiências também são comuns no esporte — jogadores de hóquei no gelo reportaram a Taylor terem feito jogadas de oito segundos que pareceram durar dez minutos. Momentos de meditação e presença na natureza, no entanto, também podem gerar EETs. Alguns dos casos mais extremos ocorrem com o uso de substâncias psicodélicas, como LSD ou ayahuasca.
Cerca de 10% das EETs pesquisadas por Taylor estão ligadas a psicodélicos — um homem reportou ao pesquisador que, durante o uso de LSD, ele olhava para seu relógio e os centésimos de segundo pareciam se mover tão devagar quanto um segundo inteiro. O que explica isso?
Experiências de expansão de tempo
As teorias vigentes são um pouco problemáticas. Uma delas diz que as experiências seriam resultado da liberação de noradrenalina, um hormônio e neurotransmissor responsável pela reação de “bater ou correr”. Isso não explica, no entanto, o estado de calmo bem-estar relatados por quem passa por uma EET: é comum sentir uma calma e relaxamento incomuns a uma situação de acidente.
Para completar, como algumas experiências acontecem em momentos tranquilos, como a meditação, a teoria não encaixa tão bem. Taylor também considerou a teoria de que seria uma adaptação evolutiva, com nossos ancestrais desenvolvendo a habilidade de desacelerar o tempo em emergências, mas isso também encontra problemas com os EETs não-emergenciais.
Uma terceira teoria diz que tais experiências seriam ilusórias, causadas pela maior precisão da nossa percepção no momento expansivo. A questão é que, muitas experiências, as pessoas realmente têm certeza de estar com mais tempo à disposição para agir, permitindo pensamentos complexos e rápidos que seriam impossíveis na velocidade “normal”.
Uma pesquisa de Taylor ainda não publicada com 280 experiências do tipo mostrou que menos de 3% das pessoas acredita ter vivido uma ilusão: cerca de 87% acredita ter tido uma experiência real no presente, e 10% não consegue se decidir.
Para o cientista, a chave está nos estados alterados de consciência — o choque de um acidente mexe com nossos processos psicológicos normais, causando uma mudança abrupta na consciência.
Nos esportes, o que ocorre seria uma “super-absorção”. Normalmente, estar absorto em algo faz com que o tempo passe mais rápido, mas uma concentração sustentada longa faria o oposto ocorrer.
Esses estados também afetam nosso senso de identidade, a separação entre nós e o mundo. Em outras pesquisas, mostrou-se que a nossa percepção do tempo está intimamente ligada com nosso senso de si.
Normalmente, temos uma percepção de estarmos dentro de nosso espaço mental, com o mundo estando do “outro lado”. Em estados de alteração intensos, no entanto, uma das principais características é o desaparecimento desse senso de separação — não estamos mais só dentro de nossas cabeças, mas sim conectados com o que está no nosso entorno.
Isso afina a fronteira entre nós e o mundo exterior, “expandindo” a mente e nos tirando do estado de consciência normal, indo para um mundo com tempo diferente. Isso, ao menos, é o que Taylor concluiu em suas pesquisas.
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Fonte: Steve Taylor, Journal of Humanistic Psychology com informações de The Conversation