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O que é cinema de guerrilha?

Por| Editado por Jones Oliveira | 25 de Março de 2023 às 22h00

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Rawpixel/Freepik
Rawpixel/Freepik

Fazer cinema não é fácil. O processo de produção de um filme dura anos, demanda muito trabalho, diversos profissionais, burocracias e, principalmente, dinheiro. Quando não se tem apoio e orçamento, nasce o fruto de um movimento cultural importante: o cinema de guerrilha.

O cinema de guerrilha é um movimento que nasceu lá atrás, na década de 1960, ganhando maior força na América Latina. Através dele, muitas produções cinematográficas foram possíveis, mesmo com dificuldades.

Se você nunca ouviu falar nesse termo ou não sabe muito bem o que ele significa, o Canaltech vai te contar mais sobre sobre ele. Para isso, conversamos com o professor e crítico de cinema Sihan Felix, que dividiu com a gente todo o seu conhecimento na área para entendermos melhor sobre o que é o cinema de guerrilha e o motivo de o tema ser tão importante.

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O que é cinema de guerrilha?

Segundo Sihan Felix, o cinema de guerrilha é um termo usado para designar produções independentes com orçamentos extremamente baixos, muitas vezes filmados até mesmo sem autorização de instituições e órgãos governamentais.

"Esses filmes costumam ter uma abordagem crítica e contestadora, denunciando a opressão, a exploração e a desigualdade social, além de defender ideais de justiça e igualitários. O termo 'guerrilha' refere-se ao fato de que esses filmes muitas vezes são produzidos de forma clandestina, sem o apoio, sem patrocínio e com a participação de uma equipe reduzida e engajada", explica.

Características

Uma das principais características do cinema de guerrilha é o baixo orçamento, e isso significa que os filmes são gravados com o dinheiro dos próprios envolvidos, já que não há investimento externo. Com isso, a produção não envolve grandes estúdios e distribuidoras, como explica Sihan.

O professor também ressalta como características principais do movimento o engajamento político e a liberdade criativa em relação à narrativa do filme, além da estética. A partir desse ponto, a produção "costuma desafiar as convenções estéticas e narrativas do cinema tradicional, explorando novas formas de expressões artísticas".

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No cinema de guerrilha também não há uma hierarquia industrial e o trabalho acontece com uma equipe reduzida. Sem cenários ou estúdios, as gravações acontecem em locações reais, o que deixa o filme mais autêntico e que remete a documentários. Essas características também resultam em recursos técnicos e câmeras mais simples, além de uma iluminação mais natural, dependendo principalmente da luz do dia.

A distribuição dos filmes originados a partir do cinema de guerrilha é alternativa, e eles podem ser exibidos tanto em plataformas de streaming, como Vimeo e o próprio YouTube, como em festivais independentes e cineclubes.

Sihan pontua que nem todo filme do cinema de guerrilha vai contar com todas essas características, e que nem toda produção obrigatoriamente precisa ter todas elas para ser uma obra do cinema de guerrilha. "Vai depender do contexto histórico, social e cultural em que foi produzido", explica o crítico.

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Também é importante reforçar que nem todo cinema independente é cinema de guerrilha, mas todo cinema de guerrilha é cinema independente. O cinema independente, por exemplo, pode ser feito com quase tantos recursos financeiros quanto alguns filmes de grandes estúdios, ainda que existam diversas produções criadas com o dinheiro do próprio bolso.

Existem outros termos que podem ser confundidos com o cinema de guerrilha, como o underground, que consiste em filmes mais contestadores e experimentais. Mais associados à contracultura, são mais comuns nos EUA e na Europa.

Também existe o cinema de autor, que conta com uma expressão mais ampla, como explica Sihan Felix: "Reflete essencialmente a visão e a estética pessoal de quem dirige a obra e são produzidos de forma independente e com baixo orçamento".

Felix explica também que o termo que mais se aproxima do cinema de guerrilha é o cinema marginal, "usado para se referir a filmes produzidos fora do sistema dominante de produção e que muitas vezes está associado a movimentos sociais e políticos". Assim como o cinema de guerrilha, o marginal também é feito com dinheiro do próprio bolso.

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Origens do cinema do cinema de guerrilha

Sihan Felix explica que o termo cinema de guerrilha reflete sua origem clandestina e engajada. "A década de 1960 foi um período de transformações políticas, sociais e culturais em todo o mundo, especialmente na América Latina. Estávamos entrando em uma ditadura militar aqui, por exemplo", explica o professor.

"Enquanto alguns países passavam por processos de luta pela independência e de afirmação de suas identidades culturais, o cinema foi se tornando uma ferramenta importante de expressão e mobilização, permitindo que cineastas independentes produzissem obras que retratavam a realidade social e política do seu povo, e contestassem os acontecimentos. Esse 'cinema guerrilheiro' surgiu nesse contexto, como uma forma de resistência", complementa.
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Importância do cinema de guerrilha

O cinema de guerrilha é de extrema importância para o sistema sociocultural. Sihan explica que, através dele, "vozes marginalizadas e perspectivas não-hegemônicas são representadas na tela, ampliando a diversidade de pontos de vista e contribuindo para a construção de uma cultura mais plural e inclusiva".

Apresentando ao público temas políticos e sociais relevantes, através do cinema de guerrilha há a mobilização da sociedade civil para questões importantes. "Dá voz a grupos e indivíduos marginalizados, podendo contribuir para a construção de uma cultura mais democrática e inclusiva", conta Felix. "Pode registrar momentos históricos importantes e resgatar a memória de lutas e resistências que de outra forma poderiam ser esquecidos ou apagados".

Referências

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Sihan cita alguns exemplos de filmes que representam o cinema de guerrilha, como La Hora de los Hornos, de Fernando Solanas e Octavio Getino. O longa denuncia a opressão e a exploração do povo argentino.

Outros bons exemplos são os filmes Memórias do Subdesenvolvimento, de Tomás Gutiérrez Alea, e Terra em Transe, de Glauber Rocha.

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Como apoiar o cinema de guerrilha?

Sihan explica que o apoio ao cinema de guerrilha pode ser feito não só assistindo aos filmes, como também divulgando-os para aumentar a exposição e criar demanda. Além disso, é possível frequentar festivais de cinemas independentes quando há a oportunidade, fora fazer a compra dessas produções quando estiverem à venda, ou ainda contribuir em arrecadações.

O voluntariado também pode ser uma boa opção. "Se voluntariar para uma produção pode ser muito enriquecedor para quem produz e para quem é voluntário. E não precisa se voluntariar somente para as filmagens. Há muito o que ser feito na pós-produção, para divulgação e tudo o mais. Qualquer ajuda é sempre muito bem-vinda", diz Sihan.

"Ao apoiar o cinema de guerrilha, está se apoiando uma multiplicidade de vozes e perspectivas, e ajudando a criar um espaço para histórias que muitas vezes são ignoradas", completa.