Entenda o cinema a fundo: Parte 1

Por Sihan Felix | 24 de Maio de 2020 às 14h00
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Como saber se um filme é, de fato, bom? Ou como avaliar uma produção e chegar à conclusão de que se trata de um trabalho malfeito? Como avaliar uma obra realizada para o cinema e definir a nota que ela merece? São muitas variáveis, mas somente uma delas precisa funcionar como regra: o cinema (assim como qualquer arte) é subjetivo. Não existe uma verdade absoluta.

Um filme que funciona muito bem para uma pessoa pode ser perfeitamente péssimo para outra. Tudo depende da história de vida, da formação social e política, do grau de empatia, dos filmes já assistidos, da sensibilidade, dos nervos, da predisposição a determinados temas... No fim de tudo, o conhecimento de linguagem do cinema, das partes que formam o todo, é só um complemento que não altera e talvez nem deva alterar o gosto pessoal. Quem se posiciona como detentor da verdade sobre o cinema ou sobre qualquer filme talvez esteja sendo somente arrogante. Ou pior: está limitando o potencial da própria arte de ser múltipla e atingir cada pessoa de maneiras distintas.

Por outro lado, as partes que formam o todo de um filme são fundamentais para que o resultado seja uma unidade, isto é: para que aquele trabalho específico seja percebido – mesmo sem racionalização direta – como uma obra de arte e não como um trabalho pincelado por várias mãos que, no final das contas, não tem identidade. Claro que definir se cada parte alcançou esse objetivo é... subjetivo.

A questão é que, no cinema, geralmente cada filme é assinado pela direção: “Um filme de...”. Isso quer dizer que quem dirige um filme é a pessoa que idealiza e transforma o trabalho em uma obra sua. Com raras exceções, tudo gira ao redor da direção. Mas esse tudo é muita coisa. E vale dissolver alguns pontos, mesmo que resumidamente:

Fotografia

“Que paisagem linda! A fotografia desse filme é incrível!”. Esse tipo de exclamação pode ser válida e inválida ao mesmo tempo. Isso porque não é uma paisagem bonita, uma cor viva ou qualquer beleza visual avulsa que faz uma boa fotografia de cinema. A fotografia trabalha junto à direção para traduzir e compor o visual do filme no que diz respeito à movimentação, luzes e sombras e suas cores, planos e toda a questão de como a imagem é captada pela câmera. Mas tudo isso dentro de uma concepção, da visão da direção.

A fotografia, então, traduz tecnicamente a ideia e o olhar da direção. Uma paisagem linda e bem iluminada só faz uma boa fotografia de cinema se o filme condiz com aquela cena. Muitas vezes, uma imagem suja, com aspecto até grotesco, diz muito mais sobre o filme do que qualquer beleza estética pontual, separada. A melhor fotografia é aquela que, traduzindo e pondo em prática a ideia da direção, cede ao filme a estética necessária para que ele funcione. A fotografia de Taxi Driver: Motorista de Táxi (1976), por exemplo, traduziu a ideia de Martin Scorsese deixando Nova York esverdeada ao trabalhar com a iluminação pública (dos postes mesmo) nessa direção. Não deixou o filme com uma beleza convencional, deixou sujo como a mente contorcida do protagonista (interpretado por Robert De Niro), criando, assim, uma unidade muito coesa.

Direção de arte

Enquanto a fotografia trabalha com a forma que tudo vai chegar à câmera, a arte trabalha com o que vai chegar, com o que pode ser visto: objetos, adereços, posicionamento, poeira, cinzas... Enquanto a fotografia trabalha com as cores da iluminação, a arte trabalha com as cores dos elementos de cena. A estética de um filme é o casamento entre a fotografia e a arte. Também é a direção de arte que coordena figurinos, cabelos, maquiagem... Não que trabalhe com essas funções em si, mas elas respondem à arte e ela responde, claro, à direção. Apesar de ser uma função criativa (como a fotografia também o é), tudo precisa condizer com a ideia da direção. Como dito: “Um filme de...”.

Trilha sonora

Originalmente, a trilha sonora é a união de todos os sons do filme. Da música aos passos de um personagem, tudo é trilha sonora. Acontece que o conceito deu espaço à composição musical, que pode ter características melódico-harmônicas mais fortes (como John Williams, especialmente em suas parcerias com Steven Spielberg) ou mais propensas à ambientação (como o saudoso Jóhann Jóhannsson em A Chegada – de Denis Villeneuve, 2016). Mas essas não são as únicas formas, claro. Há quem consiga sobrepor todas as características de maneira extremamente competente, como recentemente fez Hildur Guðnadóttir, a compositora de Coringa (de Todd Phillips, 2019). Além de unir conceitos, ela trabalhou com muitas formas (do orquestral ao totalmente digital) sem perder sua sonoridade própria, única.

A trilha sonora, ainda, tem um poder imenso sobre os filmes. E isso é fruto de uma espécie de inversão histórica. Se no início de tudo os filmes não tinham som algum e músicos eram contratados até (e, às vezes, somente) para abafar o barulho do cinematógrafo que projetava os filmes, com o tempo a música chegou a ser um personagem, como é o caso da composição de Williams para Tubarão (de Spielberg, 1975). Um intervalo muito simples, entre duas notas, substitui a aparição do tubarão durante mais de dois terços do filme. Sabemos que o bicho está presente e quem indica isso é a música.

Claro que, assim como a fotografia e a arte, tudo depende do que o diretor quer passar e onde ele quer chegar, porque a composição sonora pode modificar quase tudo. Recentemente, trabalhei em um filme que, no set, tinha todo jeito de ser um terror. Na pós-produção, a montagem poderia estar indicando um terror. Mas quando o diretor passou a sua ideia de trilha sonora para o compositor e quando eles (diretor e compositor) chegaram a um consenso e tudo estava pronto, a trilha transformou o filme em um drama. E funcionou.

Mas a questão aqui é: a música de um filme parece melhor do que o filme em si ou se encaixa perfeitamente nele? A música de um filme pode ser incrível de forma isolada, mas, junto às imagens, pode não funcionar ou não dar qualquer fluidez. É uma percepção subjetiva como tudo e como sempre nas artes, mas pode ser um exercício bem bacana assistir a um filme buscando essa compreensão.

Atuações

Tem-se uma ideia recorrente de que a melhor atuação é aquela em que os atores não parecem estar atuando e sim agindo naturalmente. Isso pode estar certo se a ideia da direção for essa, de passar realidade e/ou normalidade com o filme. Acontece que uma boa atuação também pode ser extremista, buscando o exagero, o overacting, contanto que, novamente, seja a ideia exprimida pelo filme como um todo.

Um diretor que trabalha muito bem com atuações propositalmente um tanto quanto descompensadas é Brian De Palma. Al Pacino em Scarface (de 1983) é quase que um sinônimo dessa pegada “Say hello to my little friend!” de De Palma. Por outro lado, alguns atores acabam caindo em um limbo desse overacting – vide Nicolas Cage. Se as atuações dele (de Cage) parecem desmedidas em muitos filmes que participa, vez ou outra ele cai nas mãos de um diretor que idealizou o filme justamente nessa direção. É o caso de Panos Cosmatos e seu Mandy: Sede de Vingança (de 2018 – que tem trilha de Jóhannsson), onde a insanidade da personagem de Cage é um adereço à insanidade do próprio filme.

A cena abaixo pode ser forte. Assista por sua conta e risco:

Para compreender o quanto uma atuação pode ser versátil nesse sentido, o trabalho de Woody Harrelson como protagonista em Um Tira Acima da Lei (de Oren Moverman, 2011) é gigante. Por mais que o filme possa não ser uma sumidade, é perceptível as transições de Harrelson entre cenas extremamente delicadas e contidas para cenas de explosões quase catárticas. Aula de atuação, mas com os pés na questão da realidade e/ou normalidade, é dada por Fernanda Montenegro em Central do Brasil (de Walter Salles, 1998).

A questão, enfim, é que o elenco precisa trazer a verdade do roteiro e, especialmente, da direção para o nosso alcance. Se a ideia é um filme que se passa em Marte, precisamos compreender no gestual, no olhar e no jeito de falar as dificuldades e obstáculos para que compremos a ideia. Se a ideia passa por um personagem que, sozinho, planta batatas em Marte, toda a pseudocalmaria da solidão talvez precise vir à tona – como bem fez Matt Damon em Perdido em Marte (de Ridley Scott, 2015).

Além disso, recentemente muito se falou da atuação de Brad Pitt em Era uma Vez em... Hollywood (de Quentin Tarantino, 2019). Como ele conseguiu vencer praticamente todos os prêmios de ator coadjuvante competindo contra Al Pacino, Anthony Hopkins, Joe Pesci...? Para mim, Pitt, além de ser protagonista do filme (como Hopkins em Dois Papas – de Fernando Meirelles, 2019), consegue ser uma engrenagem fundamental do filme de Tarantino. Nem mais e nem menos. Sua atuação não sobressai, não é desmedida, não é maior do que o filme. Em uma entrevista, Willem Dafoe (um dos atores vivos que mais gosto) disse que ele é como tinta no pincel do diretor. Isso traduz basicamente tudo: Pitt, no filme de Tarantino, foi a mistura de cores mais perfeita para aquele quadro. Muitas das melhores atuações transparecem quando guiadas justamente pela direção.

Roteiro versus direção

Se o roteiro é o início de tudo, não é ele que significa o quadro final. Ele pode ser, justamente, um ponto crucial no que faz uma boa direção. Isso porque um bom diretor não é aquele que traduz o roteiro exatamente como está no texto. Os melhores diretores impõem seus olhares sobre o texto e transformam o roteiro em uma peça única. Um texto inicialmente pobre pode ser a semente de um filme muito acima da média.

Um bom exemplo é John Wick: De Volta ao Jogo (de Chad Stahelski e David Leitch, 2014). Enquanto o roteiro conta a história de um homem inicialmente misterioso que saiu de um esquema até que alguém mata o cachorrinho deixado por sua falecida esposa e ele parte a uma vingança, o olhar do diretor exponencia tudo. As reações dos personagens quando falam do Bicho-Papão dizem muito mais do que as falas em si. E melhor: como essas reações são expostas para o público é o que transforma toda a percepção.

Um bom roteiro pode indicar emoções, como medo, prazer, amor, raiva... pode transformar personagens em mentirosos ou verdadeiros; pode, ainda, construir uma história intrincada, cheia de bons plot twists ou com um direcionamento para uma grande descoberta (como, por exemplo, O Sexto Sentido – de M. Night Shyamalan, 1999). Mas é o diretor que vai traduzir o texto para a linguagem do cinema. É ele que deve impor uma visão e construir os processos que vão nos levar a sentir medo, prazer, amor, raiva e tudo o que for necessário junto aos personagens. É o diretor que vai potencializar os plot twists ou destruir (como faz Jeff Wadlow em A Ilha da Fantasia, de 2020) eles. O roteiro é o princípio. O diretor é o meio e o fim... e o meio e o fim podem modificar completamente o início.

Existem também os "filmes de produção", subtema que daria outra matéria. Ou melhor: comentei bastante sobre isso quando escrevi sobre as palavras de Scorsese e Francis Ford Coppola sobre os filmes do Universo Cinematográfico Marvel (UCM) no artigo Os filmes da Marvel são mesmo desprezíveis?.

Em resumo, se você acredita que um filme é bom mesmo que todos à sua volta digam o contrário, é porque ele é bom. Ele funcionou para você e isso pode ser o suficiente naquele momento. Eu, particularmente, só não acredito muito em resumir um filme a uma nota ou a uma quantidade de estrelas. Pode ser útil, mas nunca traduz a grandeza do cinema, por pior ou melhor que seja o filme.

Enfim, passamos por um pouquinho de fotografia, direção de arte, trilha sonora, atuações, roteiro e direção... mas isso tudo são núcleos. O cinema é bem maior que isso e tem muitas outras engrenagens. Mesmo que seja um filme pessoal, realizado com a câmera de um celular e por uma só pessoa, os processos cognitivos que influenciam a percepção a partir do momento que existe um público (por menor que seja) são completamente diversos. E totalmente subjetivos.

Esta matéria é a primeira de uma série de três. Vejo vocês nas próximas. Até lá!

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