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Cinema e streaming: uma era de conflito

Por| 19 de Fevereiro de 2019 às 17h58

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Netflix
Netflix

*Matéria com colaboração de Nelson Marques, membro da Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Norte (ACCiRN) e do Cineclube Natal

Cinema e televisão, que trilhavam caminhos paralelos independentes há muito tempo, parecem estar seguindo, agora, um caminho de convergência. Aquilo que se chama de telefilme, algumas vezes até de maneira pejorativa ou com o intuito de diminuir a obra – justamente por ser realizado para o formato da TV –, talvez precise ser repensado.

Obras atuais como O Conto (de Jennifer Fox, 2018), Roma (de Alfonso Cuarón, 2018) e Okja (de Joon-ho Bong, 2017) mostram-se como filmes em uma outra acepção da palavra, talvez mais abrangente ou na utilização de uma união de linguagens. Mesmo sendo produzidos, comercializados e exibidos pela indústria televisiva, o status de cinema parece ser um alvo a ser atingido, especialmente quando capitaneados por cineastas mais calejados e experientes. Seja por canais fechados, seja por streaming, tais produções miram, assim, premiações cinematográficas – fugindo, inclusive, daquelas (premiações) próprias para as obras construídas para a TV.

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Okja, por exemplo, produziu alvoroço no Festival de Cannes de 2017, quando concorreu à Palma de Ouro. Mesmo tendo boas qualidades, as vaias foram inevitáveis – vaias que foram direcionadas especificamente à Netflix. Por outro lado, o filme em si, que é uma parceria entre a Coreia do Sul e os Estados Unidos, foi bastante elogiado. Essas divergências, sobre onde o filme deveria ter sido exibido primeiro, acabam por construir uma nova e válida discussão... ao mesmo tempo que abrem à outra bastante complexa e até subjetiva que tem o mesmo questionamento: O que é cinema?

A discussão básica entre apoiadores e opositores refere-se a uma determinada visão de mundo. Os cineastas, quase que de forma consensual, inicialmente não gostaram do interesse da Netflix em exibir filmes primeiramente em seu serviço. Segundo eles, o streaming ameaça o papel do cinema como fruição coletiva.

Alguns diretores e produtores, como Steven Spielberg e Christopher Nolan, são taxativos quanto ao assunto. Spielberg – de clássicos como Tubarão (1975), E.T.: O Extraterrestre (1982), A Lista de Schindler (1993) e que dirigiu o recente Jogador Nº1 (2018) – chegou a afirmar à agência ITV que tais obras merecem um Emmy, mas jamais um Oscar. Nas palavras dele: “Se você produz para um formato de televisão, é um filme para TV. [...] Se for bom, com certeza merece um Emmy, mas não um Oscar. Eu não acredito que filmes que se qualificaram por terem sido exibidos simbolicamente por menos de uma semana na tela grande devam concorrer ao Oscar.”

Nolan – da trilogia O Cavaleiro das Trevas (2005, 2008, 2012), A Origem (2010) e Dunkirk (2017) – acredita que a falha da Netflix está na simultaneidade entre os lançamentos na plataforma e nas salas de cinema. Em entrevista durante a turnê promocional de lançamento de Dunkirk, ele disse: “Eles [da Netflix] têm essa política estúpida de que tudo tem que ser disseminado simultaneamente no streaming, o que obviamente é um modelo insustentável quanto à exibição nos cinemas. Portanto, eles não estão nem no jogo. Essa é uma grande oportunidade que estão perdendo.” Ao mesmo tempo, o diretor que esteve à frente do elogiado Amnésia (2000) rasgou elogios à Amazon: “Você pode perceber que a Amazon é muito feliz em não repetir esse erro da Netflix. Os cinemas têm uma janela de 90 dias para exibirem os conteúdos da Amazon. É um modelo perfeitamente plausível. [...] Se a Netflix tem um grande filme, ele precisa estar nos cinemas. Por que não? É só lançar no streaming 90 dias depois.”

Essa discussão, que provavelmente ganhou muita força com o lançamento do primeiro e excelente filme de produção da Netflix – Beasts of No Nation (de Cary Joji Fukunaga, 2015) – e se intensificou com Okja em sua empreitada em Cannes, pode ter recebido ares completamente novos com Roma, que parece ter aberto um buraco negro difícil de fechar. As indicações ao Oscar em categorias principais demonstram o poder de uma empresa que, sim, pode produzir obras completamente irrelevantes para encher a sua grade com material próprio – consequentemente, mais baratos para manter –, mas, simultaneamente, revelam o acerto que pode ser permitir que cineastas talentosos como Cuarón tenham liberdade criativa e possam realizar os filmes que os grandes estúdios dificilmente permitiriam por não acreditarem que as bilheterias dos cinemas compensariam o orçamento.

Em Cannes, quando da participação do citado Okja, perguntavam-se se era justo tal festival utilizar de medidas para afastar produtos provenientes das empresas de streaming. Enquanto isso, o próprio diretor do filme dizia que eles não estavam ali por prêmios, mas, sim, para mostrar o filme por meio daquele que talvez seja o maior e mais prestigiado festival de cinema do planeta e para todas as pessoas de todos os cantos do mundo que se reuniam por lá.

Algo semelhante aconteceu no Festival de Berlim do corrente ano (2019), quando foi exibido o filme Elisa y Marcela (de Isabel Coixet, 2019). Esse filme espanhol bancado pela Netflix foi a primeira produção do serviço de streaming a ter sido selecionado pela Berlinale. E, na ocasião, houve uma reação forte dos cineastas alemães, que pediam a sua retirada da programação.

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A pergunta consequente vem em seguida: Importa tanto assim que o filme tenha que ir aos cinemas de fato para participar de um grande Festival? Afinal, trata-se de um festival para promover filmes ou para alavancar o marketing de lançamento nos cinemas?

As questões são, sim, mais profundas do que parecem. Envolvem tanto o comércio quanto a linguagem artística em si. É interessante perceber, por exemplo, como alguns filmes produzidos pelas empresas de streaming adotaram para si a linguagem cinematográfica, o que se vale especialmente pela adoção de cineastas essencialmente provenientes do cinema. Se, antes, um filme para TV era filmado com técnicas específicas para tal formato, alcançando um grau de qualidade dentro do seu espectro – como o excelente Quase Deuses (de Joseph Sargent, 2004) –, hoje existe a possibilidade de que, ao contrário do que uma corrente acredita, não se esteja findando o cinema, mas se esteja chegando ao fim dos filmes para televisão. A linguagem de telefilme, que resiste em muitas séries – e em outras, como Breaking Bad, já se dissolveu –, pode estar indo ao encontro do seu ocaso.

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Enquanto Roma chegou ao antes distante estrelato do Oscar, outro filme põe-se exatamente no limite citado por Spielberg, entre festivais de cinema e aqueles destinados às produções televisivas. O Conto, surgido justamente em alguns festivais, revelou-se um absoluto sucesso de crítica e de público quando pulou diretamente para o canal da HBO. Impulsionado pela crítica especializada para ser um filme oscarizável, passou a ser considerado premiável pelo Emmy. Assim, atesta-se uma mescla de abordagens: O que parte da crítica, de muitos festivais e de uma parcela considerável do público veem como cinema não é visto como tal por puristas (sem qualquer sentido pejorativo) ou por aqueles que acreditam ser o cinema a fruição coletiva já citada, algo mais expansivo e menos técnico de se enquadrar.

Outros filmes recentes trilharam um caminho parecido de desbravamento: The Ballad of Buster Scruggs (de Ethan Coen e Joel Coen, 2018) e Bird Box (de Susanne Bier, 2018). Ambos são filmes produzidos pela Netflix que, desde o princípio de suas idealizações, pretendiam enfrentar o dilema ao tentar atender aos dois lados. As estreias programadas praticamente de forma simultânea em streaming e nas redes de cinema fazem parte de uma estratégia arriscada, mas que, em grande escala, parece estar funcionando.

Com tudo bem pensado, fica claro e lógico que o meio de comunicação é diferente (cinema e televisão), mas essa questão do meio em si parece ser somente um detalhe, principalmente em uma era em que os filmes são mais assistidos em meios alternativos do que nas próprias salas coletivas.

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Nessa disputa, a Netflix, ao não exibir Roma nos cinemas franceses, foi obrigada a retirar o filme da competição pela Palma de Ouro de 2018. Quase que em contrapartida – e ali perto –, o filme levou o Leão de Ouro no Festival de Veneza do mesmo ano. Hoje, é o candidato mais forte na disputa pelo Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e tem um favoritismo interessante nas categorias de Melhor Diretor e na principal – a de Melhor Filme. De qualquer forma (somando-se os prêmios que acumulou na temporada), o filme merece, por si só, ser levado em consideração por suas qualidades que independem de quaisquer discussões entre cinema e televisão.

Se Roma é o mais badalado candidato ao Oscar 2019 (e a produção realizada por uma plataforma de streaming que mais longe chegou), talvez O Conto estivesse em uma situação similar caso tivesse tomado um caminho semelhante. Estaria Nolan errado? Spielberg pode estar sendo injusto?

A verdade é que, no fim das contas, os filmes estão chegando ao público e sendo vistos por um número cada vez maior de espectadores. A fruição coletiva talvez esteja em metamorfose para fruição individual ramificada: alguém assiste porque um amigo assistiu... o efeito borboleta entra em ação e a onda se torna gigante, fazendo com que o público, por exemplo, de Bird Box, seja exponencialmente maior do que a parcela que foi ao cinema assistir a um filme dirigido por um dos diretores mais injustiçados pela Academia: Infiltrado na Klan (de Spike Lee, 2018).

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E um exemplo claro da importância de se ramificar a arte está no fato de que, antes de assistirem a Bird Box, muitos espectadores não conheciam Sandra Bullock, a oscarizada protagonista.

Volta-se à pergunta: O que é cinema?