10 filmes para assistir na Netflix durante a quarentena

Por Sihan Felix | 18 de Março de 2020 às 09h29
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Em um período que estamos todos necessitando de cuidados especiais contra uma pandemia, é provável que assistir a bons filmes durante o tempo a mais em casa seja uma das melhores saídas. Pensando nisso e partindo primeiramente da Netflix, o Canaltech preparou uma lista com filmes de gêneros variados, mas sem pensar exatamente em uma espécie de melhores filmes do catálogo. A ideia é indicar filmes bacanas para muitos gostos diferentes, tanto para assistir quanto para reassistir.

Sem mais demora e, como sempre, dentro de uma abordagem sem verdades absolutas, vamos à lista de 10 filmes para assistir na Netflix durante a quarentena – a disposição só não é aleatória porque está em ordem alfabética (desconsiderando os artigos).

10. O Cidadão Ilustre

O cinema argentino tem produzido filmes relevantes ano após ano (desde muito tempo). E, felizmente, não está restrito a Ricardo Darín. O ator, que encabeçou aquele que, para muitos (entre os quais me incluo), é o melhor filme do seu país em muitos anos (O Segredo dos Seus Olhos, de 2009) e é sinônimo de talento e, acima de tudo, competência, parece ter “somente” aberto alas em um novo período para nossos hermanos. Se, em 1986, A História Oficial (1985) já havia recebido um Oscar, foi com a mais fácil difusão das produções (especialmente com o advento da internet e, mais recentemente, dos streamings) que houve uma merecida repercussão e grande reconhecimento público.

O Cidadão Ilustre trata de inspiração e criação como poucos filmes conseguem. De uma sutileza sem tamanho ao tratar o comportamento de um escritor com muito humor, o filme ainda consegue revelar os abismos culturais que cercam nossas vidas... ainda mais em um mundo globalizado. No fim, a maneira como discorre sobre as diferenças entre realidade e ficção é das mais originais do cinema e, se fosse somente esse encerramento, ainda assim mereceria ser visto.

9. Um Contratempo

Um Contratempo parece beber de algumas das melhores fontes que retratam crimes perfeitos, como o Alfred Hitchcock e Agatha Christie, além de ter uma evolução progressiva que traz muito dos melhores suspenses de Brian De Palma e uma dinamicidade fácil que se assemelha aos bons textos de Sidney Sheldon.

É um filme construído com muita racionalidade, amarrado com cuidado e tem uma tensão crescente constante. Cheio de reviravoltas, o filme espanhol do diretor Oriol Paulo, conscientemente, engana, reengana e engana novamente. Ele faz o coração do espectador acelerar e, sabiamente, tem uma leve despretensão, no sentido de que precisa que o público deixe de lado o que tem como verdades possíveis e aceite se submeter a uma história construída para entreter.

Como finalizei a crítica sobre o ele: É um filme excepcional, que depende, sim, do grau de aceitação de quem estiver o assistindo. Pode ser, também, um exercício cardíaco bem interessante, porque, aceitando-o, o coração vai acelerar. E vai ser sem piedade.

Leia também: Crítica | Um Contratempo ou um exercício cardíaco

8. Do Fundo do Mar

Se o subgênero filme-de-tubarão sempre merece uma atenção em listas despretensiosas nas questões qualitativas, esse filme tem o direito de ser redescoberto. Nada é muito diferente ou novo, mas são tubarões com os cérebros vitaminados, mais inteligentes e espertos, que antagonizam esse filme de Renny Harlin.

Por mais que Harlin seja um nome pouco conhecido no meio mainstream, já foi festejado por amantes do terror com filmes razoavelmente bem sucedidos como A Hora do Pesadelo 4: O Mestre dos Sonhos (1988) e Condenação do Além (1987). Aqui, o diretor faz com que a história morna e os personagens caricatos – como o herói Carter Blake (Thomas Jane) – sejam contornados por um processo imponente. Tudo é engrandecido: das expressões e reações overs do protagonista ao alívio cômico sem noção do cozinheiro Preacher (LL Cool J).

Do Fundo do Mar é, essencialmente, uma grande sequência de ação, com cenas sem sutilezas estéticas executadas uma após a outra e com todas as situações comuns de filmes do tipo, com criaturas perseguindo as pessoas dentro de um ambiente fechado. Seja Alien, o Oitavo Passageiro (de Ridley Scott, 1979) ou até Tentáculos (de Stephen Sommers, 1998), encontram eco nesse filme curioso.

Leia também: 10 filmes de tubarão que vão fazer você se borrar de medo

7. Esquadrão 6

Um bilionário forja a própria morte e, a partir de então, torna-se um fantasma para o mundo. Reunindo uma equipe de profissionais tão invisíveis para o sistema quanto ele, parte para a missão de derrubar um ditador em um país ao leste. Esse país fictício, o Turgistão, funciona como uma fusão de países reais que supostamente esperam pela libertação (a salvação americana diluída em uma equipe aparentemente cosmopolita). E não importa o nome do lugar – nem mesmo para algum personagem que não consegue pronunciá-lo –, o que importa é cumprir a missão, a meta.

Em Esquadrão 6, o que menos importa é a política envolvida. A força da linguagem literalmente explosiva de Michael Bay está em conseguir retirar toda a atenção do tema, fazendo do resultado uma espécie de transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH) para todos – apostando na força estética – e insere a hiperatividade como ferramenta-chave. Assim, uma mãe-figurante com um bebê no colo e dois cachorrinhos ganham mais destaque – claro que para fazer comédia – do que os tantos que poderiam morrer com a ameaça de gás sarin exposta pelo roteiro.

Trata-se de um filme completamente ligado na ação e desligado do planeta (como seu diretor). Pode ser considerado irresponsável por isso, mas se a procura é por entretenimento, explosões, diálogos fáceis e espertos, perseguições e artifícios non sense, Esquadrão 6 pode ser um filme que venha a suprir essas necessidades. Bay assina o que é seu como se estivesse sendo eletrocutado enquanto segura a caneta, mas isso tem sua legitimidade saudável quando se busca algo mais forte do que uma lata de energético ou uma xícara grande de café expresso.

Leia também: Crítica | Esquadrão 6 é mais forte do que um energético, só não dá asas

6. Feliz Como Lázaro

Escrito e dirigido pela jovem italiana de 36 anos de idade Alice Rohrwacher (que já tem na bagagem o Grande Prêmio do Júri em Cannes por As Maravilhas, de 2014), Feliz como Lázaro é um acontecimento em 2018. Longe de causar burburinho ou ser utilizado em alguma campanha de mercado (como o foi o tão recente quanto Caixa de Pássaros – ou Bird Box –, de 2018), o filme é genuinamente puro no seu modo de lidar com o mundo contemporâneo e as bizarras relações de trabalho e escravidão moderna.

Ao mesmo tempo em que parte de um princípio de pureza – da direção de arte ao comportamento do personagem título –, Lazzaro Felice (no original) também é perturbador ao deixar vazar, em suas entrelinhas, o quão desumana pode ser a humanidade, o que é reforçado pelo lirismo de sua mise-en-scène (em uma síntese já bem resumida: tudo aquilo que aparece nas cenas e a forma com a qual cada detalhe é montado e posicionado na intenção de criar uma unidade estilística).

Ainda, a atuação de Adriano Tardiolo (o Lazzaro) exala uma bondade, um desconhecimento de qualquer mal, que as adversidades impostas pelo roteiro são desconcertantes.

Feliz como Lázaro é daqueles filmes para guardar no coração.

5. A Ganha-Pão

Em 2001, o Afeganistão está sob o controle do Talibã. No meio desse contexto, uma jovem determinada se disfarça de menino para sustentar sua família quando seu pai é capturado.

A Ganha-Pão não é somente uma animação dolorosa e assustadoramente real. Ela é daquelas que tocam tão fundo na gente que, por mais de um motivo, pode despertar a nossa empatia – algo tão necessário nos dias de hoje.

Dirigido por Nora Twomey, que havia realizado antes os lindíssimos curtas-metragens From Darkness (de 2002) e Cúilín Dualach (de 2004), a história é, talvez, a que tem a maior possibilidade de fazer chorar desta lista, tamanha a sensibilidade de Twomey e do roteiro da ucraniana Anita Doron (roteirista e diretora do ótimo The Lesser Blessed, de 2012)

4. O Grande Truque

Sendo um filme menos badalado do seu diretor – Christopher Nolan (de Dunkirk, 2017) –, O Grande Truque é meio drama e meio ficção científica recheado de mistério. Assim, com esse mistério tomando conta da atmosfera, o suspense ganha contornos bem interessantes. Há uma magia na condução desse filme que Nolan parece ter escondido em boa parte dos seus demais. Toda a sua racionalidade e uma certa pretensa exposição, aqui, jamais deixam o resultado cruzar a linha da frieza. É, sim, tudo muito calculado, mas há uma compaixão que torna as camadas mais intensas. Eu, pessoalmente, gosto de Nolan (com um ou outro questionamento pelo caminho) e tenho O Grande Truque como o filme de sua carreira que mais me toca.

O filme ainda conta com Christian Bale, Hugh Jackman, Scarlett Johansson, Rebecca Hall e Michael Caine e foi indicado a dois Oscars (Melhor Fotografia e Melhor Direção de Arte). E, apesar do elenco, tudo gira em torno do roteiro – como boa parte dos filmes de Nolan. É um trabalho que merece ser visto com atenção.

3. O Hospedeiro

Além de ter a direção de Bong Joon Ho (de Parasita, 2019), O Hospedeiro já carrega tudo o que o diretor sul-coreano exponenciaria no filme que fez história no Oscar 2020: luta de classes, debates sociais, fusão de gêneros e um roteiro (coescrito pelo próprio Joon Ho) que progride com uma elegância enorme.

É interessante perceber como o público americano e a própria crítica receberam o filme e, ao mesmo tempo, levar em conta que se trata de uma obra sul-coreana – cultura diferente, formas de ver o mundo diferentes, jeitos de agir diferentes e até humor diferente. Assim sendo, pode parecer que o filme desperdiça alguns momentos dramáticos na construção de alívios cômicos, mas a questão é que tudo vai se emaranhando e construindo uma enorme bola de sentimentos.

O Hospedeiro, no final das contas, é uma das redefinições do horror no século XXI e já mostra o diretor enorme que é Joon Ho.

Leia também: Além de Parasita: 10 filmes sul-coreanos para assistir na Netflix

2. Invasão Zumbi

Eis um filme que foi muito comentado em sua estreia, mas que começou a cair no esquecimento rapidamente. Não por sua qualidade – é o mais premiado desta lista –, mas talvez por misturar dois universos do cinema de gênero: terror e ação... levando tudo a uma esquisitice quântica.

Invasão Zumbi subverte o subgênero dos zumbis, o próprio terror e constrói e quebra em pedaços caricaturas de filmes de ação. E vai muito além: à medida que os zumbis se multiplicam e uma variedade de pessoas comuns os enfrenta, há uma alusão certeira e uma avaliação sobre a insensibilidade corporativa.

É um filmaço que tem poder de adrenalina e que pode chocar com suas quebras de expectativas.

1. Os Meyerowitz: Família Não Se Escolhe

Repleto de diálogos realistas e, ao mesmo tempo, estranhos, Os Meyerowitz: Família Não Se Escolhe é de uma precisão cirúrgica na concepção da relação entre um pai e seus filhos. Muito bem alicerçado nas atuações de Dustin Hoffmann (Harold), Ben Stiller (Matthew) e Adam Sandler (Danny), o diretor e roteirista Noah Baumbach (do oscarizado História de um Casamento, de 2019) fundamenta um filme cheio de humanidade, capaz de causar confusão, felicidade, acessos de raiva... sempre de uma maneira muito genuína e por meio da criação de sintonia entre filme e espectador.

Os Meyerowitz: Família Não Se Escolhe é, também, uma prova dupla: para os fãs e para os não-adeptos da carreira de Adam Sandler. Aqui, eles podem encontrar o ator em uma das suas atuações mais relevantes (ao lado de Reine Sobre Mim, Embriagado de Amor e Joias Brutas), tanto que o ator, merecidamente, foi ovacionado no Festival de Cannes de 2017. Apesar do humor meio amargo do personagem coincidir com muito do que Sandler já fez, há detalhes que o levam muito além: são camadas e mais camadas de um homem que jamais desistiu de ser feliz, mas, mesmo assim, sente-se fracassado.

Bônus romântico: Sing Street: Música e Sonho

Provavelmente um dos menos conhecidos da lista, Sing Street: Música e Sonho é uma pequena obra-prima dirigida por John Carney (do já ótimo Mesmo Se Nada Der Certo, 2013). A partir de uma premissa aparentemente genérica, que diz sobre um rapaz que foge de uma conturbada vida familiar ao se tornar integrante de uma banda para impressionar uma moça misteriosa, o filme – escrito também por Carney – constrói conexões tanto dentro do seu próprio desenrolar quanto entre os personagens que parecem refletir em um nível subcutâneo: não arrepia somente, mas faz vibrar.

Tudo tão íntimo, com barreiras sinceras, triunfos satisfatórios e frustrações quase palpáveis que tudo pode ir além da identificação. É a vida em metáforas. São alegorias simples, mas passíveis de interpretações intensas... resta somente estar disponível e aberto para elas.

Bônus Adam Sandler: Joias Brutas

Eu havia pausado, deixado de lado mesmo, o bônus Adam Sandler em minhas últimas listas. Mas é bom retornar com um filme completamente diferente em sua carreira, dirigido por Benny e Josh Safdie... mesmo que já tenha um Sandler na lista.

A ideia do cinema realizado pelos irmãos Safdie é, por um lado, semelhante à do franco-argentino Gaspar Noé (de Clímax, 2019). Há uma intensa busca pelo sensorial do público, uma procura pela desestabilização proposital deste, que acaba por se sentir engolido por sensações e, de tão imerso, pode absorver o que assiste como se estivesse em um provável efeito alucinógeno. Isso, no caso de Joias Brutas, leva a um prazer de pouco mais de duas horas ou a uma bad trip – claro que tudo totalmente lícito.

Mas as semelhanças entre o que Benny e Josh Safdie fazem e o trabalho de Noé terminam nas questões sensoriais. Isso porque, tanto no filme protagonizado por Adam Sandler quanto nos anteriores da dupla, há uma absoluta inserção da história e dos acontecimentos na construção de um todo muito coeso – frenético sim, talvez nauseante, mas não é somente uma escolha que leva a qualquer sensação, é o conjunto, a união da totalidade.

Joias Brutas, com toda essa agonia, mais parece um quadro único, renascentista, pintado como uma releitura por um artista contemporâneo que decidiu mergulhar as mãos em tinta e pintar socando a tela. É genuíno, raivoso e intenso; é uma mistura das construções de personagens e de naturalidade de um gênio como John Cassavetes e a desordem psíquica recorrente nas obras de Brian De Palma.

Leia também: Crítica | Joias Brutas é pintado a soco: um filme raivoso e intenso

Agora, ficam aí os comentários para que, em um momento tão delicado, possamos trocar indicações e ir criando uma corrente de filmes cada vez maior. Tenho certeza que vocês podem complementar e enriquecer tudo. Vamos conversando, debatendo...

É isso. Lavem as mãos, limpem os celulares, evitem levar as mãos ao rosto, cuidem-se e... bons e ruins filmes para nós!

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