Crítica | Um Contratempo ou um exercício cardíaco

Por Sihan Felix | 06 de Agosto de 2018 às 13h11
photo_camera Nostromo Pictures

A natureza da realidade não precisa estar presente em todas as histórias, nem mesmo naquelas que tratam do mundo real. Um filme precisa funcionar dentro de si, possuir uma lógica interna. Nenhum filme necessita ter a missão de ser um tratado da realidade, um espelho do possível. Precisa, sim, apenas ser admissível dentro da sua narrativa, visto que nem mesmo documentários são virgens se guiados pelos pensamentos de um ser humano.

Antes de seguir adiante, cuidado! Esta crítica pode conter spoilers sobre o filme.

Hitchcock, Agatha Christie, De Palma e Sidney Sheldon

Um Contratempo (disponível na Netflix) parece beber de algumas das melhores fontes que retratam crimes perfeitos, como Hitchcock e Agatha Christie, além de ter uma evolução progressiva que traz muito dos melhores suspenses de Brian De Palma e uma dinamicidade fácil que se assemelha aos bons textos de Sidney Sheldon.

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Mas as comparações ficam na condução do diretor Oriol Paulo (que lançou o bom O Corpo em 2012), que enfatiza todas as reviravoltas do roteiro, como se procurasse dividir a sedimentada regra de três atos do cinema comercial. Desse modo, Oriol transforma o filme em uma profusão instigante e quase confusa de plot twists (essas reviravoltas inesperadas) em detrimento de uma originalidade.

"Eu só assisto filmes premiados em Cannes"

Por outro lado, Um Contratempo não é um filme para se assistir com uma boina cult, um cachimbo e uma pose arrogante de “eu só assisto filmes premiados em Cannes”. Assistir a esse filme espanhol é aceitar ser enganado; estar disposto a entender que coincidências, por mais que sejam planejadas, podem ser somente coincidências; é engolir qualquer ego de detetive particular e se sujeitar como submisso à construção visual e especialmente textual do filme.

Nesse ponto, Oriol encontra praticamente um avesso de Hitchcock. Para o mestre do suspense, os diálogos eram ruídos, ruídos que saem das bocas dos personagens. A história, para o diretor de Psicose, deveria ser contada mesmo através das imagens. São as ações, as aparências e as atitudes físicas que constroem seus filmes. Um Contratempo parte de outro ponto de vista: é a partir de um diálogo – que também funciona como uma espécie de narração – que tudo acontece. Mesmo assim, não é difícil para quem assistiu a Um Corpo que Cai (de Hitchcock) perceber relações entre as tramas, como se Oriol buscasse a sua habilidade para o suspense propositalmente pelo caminho inverso. Os conflitos de dupla identidade (ou quase isso) estão ali, mas o espanhol (que também escreveu o roteiro) é textual enquanto o inglês é imagético.

As cores e suas relações dentro do filme

Entretanto o planejamento de Oriol está todo explícito na estética de Um Contratempo. Percebe-se, por exemplo, que a paleta de cores que pende para a frieza busca um contraste com o calor das situações, fato que potencializa o teor racional da obra – sendo o azulado um representante da razão entre todos os acontecimentos tão instintivos.

(Captura de tela: Sihan Felix)

Vale ressaltar que há três colorações distintas durante o filme: os azuis tornam-se ainda mais fortes quando os personagens que planejaram tudo não estão no controle do que acontece; os verdes, através da Direção de Arte, tingem paredes e azulejos quando a personagem de Mario Casas (Adrián Doria) está afundado e sob o tal controle; e os amarelados do calor humano quando da presença quente dos pais do falecido Daniel Garrido (interpretado brevemente por Iñigo Gastesi).

(Captura de tela: Sihan Felix)
(Captura de tela: Sihan Felix)

Um exercício cardíaco para quem aceitar

Se Agatha Christie ficaria feliz com a construção e intrigada com o final quase de fantasia de Um Contratempo, Hitchcock, do alto de sua arrogância, provavelmente viraria a cara para o filme de Oriol Paulo – como não reconheceu Dario Argento como a sua versão italiana (ele teve seus motivos – que não vêm ao caso agora). De Palma, por sua vez, deve ter achado interessante se assistiu. E Sidney Sheldon bateria palmas de pé.

A verdade é que Um Contratempo é construído com muita racionalidade, amarrado com cuidado e tem uma tensão crescente constante. Cheio de reviravoltas, o filme espanhol prova que o audiovisual da Espanha merece cada vez mais destaque. Mesmo muito longe de ser um Almodóvar, especialmente em originalidade, Oriol Paulo tem construído uma carreira a ser lembrada. Ele deverá ser apontado como o cineasta espanhol que, conscientemente, engana, reengana e engana novamente. O cineasta das mil surpresas em filmes que fazem o coração acelerar – mas somente se o público deixar de lado o que tem como verdades possíveis e aceitar se submeter a uma história construída para entreter.

Fechando com essa possibilidade, Um Contratempo é um filme excepcional, que depende, sim, do grau de aceitação de quem estiver o assistindo. Pode ser, também, um exercício cardíaco bem interessante, porque, aceitando-o, o coração vai acelerar. E vai ser sem piedade.

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