Crítica | Bird Box: a maternidade é um rio

Por Sihan Felix | 04 de Janeiro de 2019 às 11h49
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Aquilo que não é visto, que permanece no desconhecido, sempre foi um ingrediente mágico para filmes de suspense e terror. As ameaças invisíveis aos olhos do espectador constroem climas de apreensão há muito tempo. Seja na água (vide Tubarão, de Steven Spielberg – 1970); seja no espaço (vide Alien, o Oitavo Passageiro, de Ridley Scott – 1979); seja na terra (como no recente Um Lugar Silencioso, de John Krasinski); o oculto é sempre um sujeito de desestabilização da rotina. Muitas vezes, a ameaça misteriosa (pelo menos aos olhos do público) cria outros hábitos para os personagens afetados, configurando um apocalipse não-físico, findando com o mundo como se conhece e dando início a uma nova era. Surgem, assim, os futuros pós-apocalípticos.

Cuidado! A partir daqui esta crítica pode conter spoilers!

O medo e a sua destruição catastrófica

Bird Box funciona em uma das linhas temporais pós-apocalípticas. Por outro lado, antes disso, chega com uma velocidade alucinante ao início do fim – pouco mais de 10 minutos – e, depois – em menos de cinco –, já enclausura desconhecidos em uma casa para que possam enfrentar o mal que chega por ali. Essa rapidez é interessante se for levada em paralelo a filmes de destruições catastróficas – aqueles que envolvem meteoros, tsunamis, erupções vulcânicas... É um fato que potencializa o mal e dá uma intensidade curiosa àquilo tudo.

(Imagem: Captura de tela/Sihan Felix)

Por meio de um início verdadeiramente promissor, com a diretora Susanne Bier resgatando a mesma competência com a qual dirigiu o excepcional Em um Mundo Melhor (2010), algumas sequências podem causar certa apreensão. A cena em que uma mulher bate a cabeça contra uma janela no hospital acaba se encaixando como um choque, algo só comparado ao impacto quando do sentimento de pavor e morte de Jessica (Sarah Paulson), traduzido pela interpretação incrível de Paulson. Aliás, ela (Paulson) é uma atriz que se agiganta mesmo com pouquíssimo tempo em cena e contracenando com a estrela do filme.

(Imagem: Captura de tela/Sihan Felix)

O terror como escada

Então, é a partir do momento enclausurado que Bird Box começa a se entregar a uma sucessão quase inacreditável de clichês e momentos previsíveis, misturando personagens praticamente inexplorados. E não é que não houve oportunidade de tornar cada um minimamente complexo. Douglas (John Malkovich), por exemplo, até tem uma deixa para uma construção minimamente digna, para que toda a sua rabugice seja justificada, mas a exploração do fato possível é perto de nula. Assim, ele acaba se tornando somente um contraponto de Tom (Trevante Rhodes) – o sujeito bondoso, uma espécie de herói que lutou na Guerra do Iraque.

O suspense está sempre presente, mas a diretora dinamarquesa parece não saber exatamente onde está pisando. As relações humanas, a zona de conforto dentro da sua filmografia, é constantemente soterrada por diálogos expositivos, que pretendem mastigar para o espectador o que está acontecendo. “Parece que, se você olha, faz você ficar louco ou querer se machucar”, diz Tom, explicando o acontecido com um colega ainda no início do filme da forma mais didática possível.

(Imagem: Captura de tela/Sihan Felix)

Essas interações, ainda, são dinamizadas na tentativa de causar alguma claustrofobia no público. Planos constantemente fechados nos rostos (especialmente no de Malorie – Sandra Bullock) buscam, a todo momento, uma intensidade que não surge. Esses closes somente ressaltam a maquiagem (especialmente base e rímel) de Malorie, que permanece perto de intacta até mesmo na linha temporal que se passa cinco anos após o início de tudo.

(Imagem: Captura de tela/Sihan Felix)

A verdade é que Bier demonstra se importar muito pouco com o terror mesmo que esteja dirigindo claramente um filme de gênero. Um sentimento possível, que pode nascer durante as pouco mais de duas horas, é o de que o terror está sendo posto de lado em prol de um drama sobre maternidade. Dessa forma, a própria diretora constrói Bird Box utilizando o terror somente como uma escada para atingir o seu foco (o drama), evidenciando um preconceito bem comum.

Obviamente, o drama sobre a maternidade existe e percorre todo o filme. É, sem dúvida, o que movimenta as boas e as más sequências. O problema é a realização de tudo separadamente, sem qualquer pudor: o terror utilizado como objeto de tensão (e nada mais) e o drama como o caminho para um filme ser prestigiado. Esquece-se, dessa maneira, que o terror tem poder para possuir qualquer drama e é nesse entendimento que surgem os melhores filmes do gênero. Tê-lo (o terror) como muleta não somente é um desserviço para o que vem sendo conquistado como também é covarde.

O “rio amniótico”

De todo modo, Bird Box concentra algumas metáforas lindíssimas, por mais que sejam desenvolvidas sem muita dedicação: o medo concretizado, que paralisa e desajusta atitudes; a maternidade como espelho de um mundo novo e assustador; e, especialmente, o “rio amniótico”. Esse último, que percorre quase todo o filme em paralelo até desaguar sozinho no final, sugere uma alegoria ao parto. A previsível (no fato e no modo) morte de Tom acaba por deixar para Malorie a alternativa de, enfim, tornar-se mãe – algo que ela já era e não havia se dado conta, afinal, “mãe é quem cria”.

O rio, então, funciona como a bolsa que estoura e anuncia a chegada de um bebê. Malorie, que sequer havia batizado as crianças – chamando-as normalmente de garota e garoto –, passa por diversos obstáculos junto a eles, em provas definitivas de confiança. A questão de tatear tudo “às cegas”, sem certezas de como proceder, é simbólico de mães de “primeira viagem”, algo que Malorie acaba por ser duplamente.

(Imagem: Captura de tela/Sihan Felix)

E não somente: Ao chegar ao seu destino, Malorie, que já havia compreendido o amor que sente, dá luz às duas crianças. E a luz, nesse sentido, é tão literal quanto em um parto, concretizada pela direção de fotografia discreta e acertada de Salvatore Totino (de Homem Aranha: De Volta ao Lar), que revela raios de luz adentrando o ambiente. Elas (as crianças) podem tirar as vendas e receber o presente de enxergar (são até finalmente batizados com nomes reais – tão clichês quanto possível). Mas Malorie também se dá luz, porque ela renasce para a vida em uma provável nova rotina, exatamente após um apocalipse não-físico. Uma nova era está ali.

(Imagem: Captura de tela/Sihan Felix)

Por quem passar pelo microuniverso do filme

Bird Box, que perto do seu final “soa” um pouco como a série pós-apocalíptica The Walking Dead – escutar um personagem chamado Rick (Pruitt Taylor Vince) falar sobre uma comunidade de sobreviventes intensifica demais essa sensação –, diz muito sobre medo e maternidade. É um filme recheado de conteúdo que, infelizmente, peca por não encontrar uma forma e, consequentemente, na linguagem.

Ao mesmo tempo em que trata de medos e do delicado processo da maternidade, Bird Box distancia-se de perigosas metáforas sobre depressão, pois esta venda os portadores para que não seja vista – porque, se vista, inicia-se a chance de ser combatida. Susanne Bier, por outro lado, mostra-se perdida, sem recursos (e até com algum preconceito) para desenvolver o terror, mas com domínio para as poucas cenas dramáticas que encontram no roteiro preguiçoso de Eric Heisserer um adversário.

Bird Box, como praticamente qualquer outro filme, vale a conferida. Afinal de contas, a conclusão final é sempre do espectador. É uma adaptação (do livro de Josh Malerman Caixa de Pássaros – título adotado nacionalmente que a Netflix resolveu não utilizar por enquanto), mas, como tal, precisa funcionar independente da obra que o origina. E esse resultado só pode ser dado por quem passar pelo rio, pelo microuniverso do filme – que, felizmente, já são muitos.

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